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França "ressuscita" textos de Euclides da Cunha que denunciavam exploração da Amazônia desde 1904

30/10/2020 13h33

A editora francesa Chandeigne lança, em novembro, o livro "L'Invention de l'Amazonie" (A Invenção da Amazônia), uma seleção de textos redigidos por Euclides da Cunha no início do século XX. Na época, a exploração predatória da floresta já aparecia como uma preocupação nos relatos do autor, que tinha a ambição, com esse projeto, de fazer uma versão amazônica do clássico "Os Sertões".

A editora francesa Chandeigne lança, em novembro, o livro "L'Invention de l'Amazonie" (A Invenção da Amazônia), uma seleção de textos redigidos por Euclides da Cunha no início do século XX. Na época, a exploração predatória da floresta já aparecia como uma preocupação nos relatos do autor, que tinha a ambição, com esse projeto, de fazer uma versão amazônica do clássico "Os Sertões".

Em 1904 Euclides da Cunha é convidado pelo Barão de Rio Branco para participar de uma expedição na Amazônia. O escritor, que já havia publicado "Os Sertões", embarca a bordo do Alagoas para uma aventura que quase virou tragédia, com direito a doenças e até naufrágio. O objetivo era produzir o que ele mesmo chamava de seu "segundo livro vingador".

Mas o projeto não foi concluído, pois o escritor morreu antes, vítima de um duelo com o amante de sua mulher. Mas alguns textos chegaram a ser redigidos e validados pelo autor, que confrontou seu olhar brasileiro com o de outros escritores-exploradores que tentaram a mesma aventura. Ele, aliás, não poupava críticas aos estrangeiros que se arriscaram a descrever a Amazônia, dizendo que os demais tinham ficado apenas "na soleira", sem entender esse mundo de água e umidade extrema, tão distante do que ele mesmo conheceu ao preparar "Os Sertões", no nordeste brasileiro.

O escritor suíço Patrick Straumann, especializado em literatura brasileira, decidiu exumar três desses textos, que a editora Chandeigne publica agora, com a primorosa tradução de Mathieu Dosse. Segundo Straumann, que também é autor da introdução do livro, os trechos escolhidos representam a maneira progressiva com a qual Da Cunha aborda a região, primeiro pela natureza exuberante, depois pela população para, em seguida, expor as lutas internas dos locais.

"Ele descobriu a Amazônia e sobretudo descobriu que o povo que estava lá, em condições completamente inimagináveis, eram os mesmos sertanejos que ele tinha encontrado no Nordeste do Brasil", explica Straumann. Algo notável principalmente no texto Les Caoutchoutiers (Os borracheiros, em português), no qual Euclides da Cunha fala do trabalho na região. "Eu acho que ele descobriu essa situação completamente horrorosa dos trabalhadores, essa brutalidade na relação entre os donos das empresas e os empregados, e adotou o ponto de vista dos oprimidos. Nesse sentido, ele escreveu uma literatura super engajada", explica o suíço.

Premonitório

Os textos publicados em "L'Invention de l'Amazonie" também colocam em evidência o impacto da ação do homem no meio ambiente, uma temática que interessa mais do que nunca, em um momento em que os olhos do mundo estão voltados para o desmatamento da Amazônia. Sem adotar um tom premonitório, Euclides da Cunha aponta preocupações que continuam atuais.

"Ele visitou a Amazônia na época em que a borracha era a matéria-prima mais importante do mundo. E hoje, a gente tem mais uma vez essa economia predatória, que voltou para o Brasil", compara Straumann. "Agora, não mais para procurar a borracha, mas para procurar madeira, plantar soja, para o gado. E tudo isso coloca a Amazônia de novo no foco da economia mundial. [A diferença é que] agora é uma demanda global e muito mais forte do que há um século", pondera o escritor.

Clique na foto para assistir a entrevista completa.

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