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Fogo em hospital: Relatório cita risco de morte de pacientes e pede reforma

28.out.2020 - Relatório encaminhado ao Ministério da Saúde aponta superaquecimento de transformadores do Hospital Federal de Bonsucesso, na zona norte do Rio, onde ocorreu um incêndio que causou a morte de três pacientes - Reprodução
28.out.2020 - Relatório encaminhado ao Ministério da Saúde aponta superaquecimento de transformadores do Hospital Federal de Bonsucesso, na zona norte do Rio, onde ocorreu um incêndio que causou a morte de três pacientes Imagem: Reprodução
do UOL

Herculano Barreto Filho e Gabriel Sabóia

Do UOL, no Rio

29/10/2020 04h00

Relatório encaminhado em agosto de 2019 ao Ministério da Saúde alertou para a urgência de uma reforma na subestação e geradores de energia do HFB (Hospital Federal de Bonsucesso), na zona norte do Rio, onde um incêndio na terça-feira (27) deixou três pessoas mortas. O documento —produzido a pedido da direção do HFB— citou risco de morte de pacientes, funcionários e até de pessoas em frente à unidade, caso ocorresse um acidente na subestação.

O texto ainda cita a obra como prioritária, com previsão de liberação de R$ 120 milhões do governo federal entre 2019 e 2020. O UOL revelou ontem que a DPU (Defensoria Pública da União) também encaminhou a demanda à direção do hospital em dezembro passado, relatando que os dois transformadores da unidade federal de saúde funcionavam com superaquecimento. A causa do incêndio da unidade, fechada por tempo indeterminado, está sendo investigada.

O documento alerta que o problema é emergencial e foi detectado ao longo dos últimos dez anos, agravado por uma obra contratada em 2010 e cancelada no ano seguinte após uma auditoria aberta pela CGU (Controladoria-Geral da União), por constatação de superfaturamento e outras irregularidades.

Nos anos seguintes, outros relatórios técnicos foram elaborados alertando para a urgência da modernização das instalações. Entretanto, as ações necessárias não foram colocadas em prática pela gestão do hospital.

O relatório ainda anexou trecho de uma vistoria feita pelo Proadi-SUS (Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS), com a foto do transformador da subestação principal. Na imagem, é possível ver o superaquecimento de 148 graus.

Alto risco de explosão, inoperância total do sistema elétrico e risco de morte dos operadores

Trecho do relatório do Proadi-SUS

A situação se agravou em 2019, segundo o relatório.

Um eventual acidente [...] coloca em risco também a vida de inúmeras outras pessoas, desde transeuntes em edificações e áreas públicas próximas à subestação, até aos pacientes que dependem de equipamentos de manutenção de vida ligados à rede elétrica

Trecho de relatório elaborado a pedido do HFB

A causa do incêndio —que segundo informou preliminarmente o Corpo de Bombeiros teve início no subsolo do prédio 1, onde havia um estoque de fraldas— ainda não é conhecida. Contudo, em linha com o que alertava o relatório, os três pacientes que perderam a vida dependiam de aparelhos ligados à rede elétrica. Eles morreram após ou durante tentativa de transferência.

28.out.2020 - Relatório encaminhado ao Ministério da Saúde apontou problemas no subsolo do Hospital Federal de Bonsucesso, na zona norte do Rio, onde ocorreu um incêndio que causou a morte de três pacientes - Reprodução - Reprodução
28.out.2020 - Relatório encaminhado ao Ministério da Saúde apontou problemas no subsolo do Hospital Federal de Bonsucesso, na zona norte do Rio, onde ocorreu um incêndio que causou a morte de três pacientes
Imagem: Reprodução

Ministério da Saúde diz ter ciência da situação da rede elétrica

O UOL entrou em contato por telefone com o Ministério da Saúde e, em seguida, encaminhou e-mail. Nele, citou os principais trechos do relatório e questionou por que a obra ainda não foi feita. A pasta se limitou a dizer que fez visitas aos hospitais "demonstrando atenção contínua à manutenção da infraestrutura de todos os estabelecimentos".

"Há projetos em andamento para realizar uma série de reformas. No ano passado, foram repassados R$ 1,8 milhão de verba suplementar para a modernização da unidade", informou. "A prioridade, no momento, é garantir o atendimento em segurança da população, uma vez que as consultas e exames laboratoriais no complexo estão temporariamente suspensos".

Em nota divulgada após o incêndio, o Ministério dá Saúde confirmou que já tinha conhecimento do problema. Mas não explicou por que as obras não foram feitas. O órgão informou ainda que a causa do incêndio está sendo investigada.

"O Hospital de Bonsucesso já tinha um diagnóstico prévio sobre a situação estrutural do complexo hospitalar, inclusive de toda a rede elétrica —o que vai facilitar a apuração dos fatos que levaram ao ocorrido", escreveu a pasta, em um trecho.

"Apesar de a unidade de saúde hospitalar ter vários projetos aprovados pelo Ministério da Saúde para realizar uma série de reformas de urgência, ainda não é possível afirmar as causas do incêndio", disse.

28.out.2020 - Relatório encaminhado ao Ministério da Saúde informa que não há plano de prevenção e combate ao incêndio no Hospital Federal de Bonsucesso, na zona norte do Rio, onde ocorreu um incêndio que causou a morte de três pacientes - Reprodução - Reprodução
28.out.2020 - Relatório encaminhado ao Ministério da Saúde informa que não há plano de prevenção e combate ao incêndio no Hospital Federal de Bonsucesso, na zona norte do Rio, onde ocorreu um incêndio que causou a morte de três pacientes
Imagem: Reprodução

Família contesta atestado de óbito de paciente

A família do garçom Marcos Paulo Luiz, de 39 anos, um dos três pacientes mortos no incêndio, contesta o atestado de óbito dele, que cita morte em decorrência de pneumonia. Ele estava internado no 2º andar, no CTI.

28.out.2020 - Márcio Luiz mostra foto do irmão de Marcos Luiz, um dos pacientes do hospital federal de Bonsucesso que morreu durante o incêndio - Herculano Barreto Filho/UOL - Herculano Barreto Filho/UOL
28.out.2020 - Márcio Luiz mostra foto do irmão de Marcos Luiz, um dos pacientes do hospital federal de Bonsucesso que morreu durante o incêndio
Imagem: Herculano Barreto Filho/UOL

Ele não morreu por causa de pneumonia. Disseram no hospital que foi necessário tirar os aparelhos dele pra fazer a remoção para outra unidade durante o incêndio. Mas ele acabou inalando muita fumaça, teve duas paradas cardíacas e não resistiu

Márcio Luiz, 33, irmão de Marcos

O corpo de Marcos Paulo Luiz, que deixou cinco filhos, será enterrado hoje à tarde no Cemitério Municipal de Nova Iguaçu.

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