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Nasa confirma descoberta de água no lado iluminado da superfície da Lua

do UOL

Lucas Carvalho

De Tilt, em São Paulo

26/10/2020 13h15Atualizada em 27/10/2020 08h39

Sem tempo, irmão

  • É a primeira vez que cientistas confirmam a existência de H2O no lado iluminado da Lua
  • Ainda não se sabe o estado dessa água, mas é provável que seja vapor e não líquido
  • Novidade pode ajudar na preparação para futuras viagens tripuladas à Lua

Em anúncio feito à imprensa nesta segunda-feira (26), a agência espacial norte-americana Nasa confirmou a descoberta de água no lado iluminado da superfície da Lua. Até hoje, cientistas só haviam detectado água em estado sólido (gelo) em regiões escuras do satélite natural da Terra, tanto do lado oculto quanto do lado visível da Terra, onde o Sol nunca bate e as temperaturas chegam a 184 graus Celsius negativos.

Já o lado iluminado —que não é fixo, pois a Lua tem um tempo de rotação pouco maior que 27 dias e a área que recebe luz solar varia conforme o movimento— tem uma temperatura que pode ultrapassar os 200 graus Celsius. A agência espacial destaca que foram detectadas moléculas de água (H2O), mas não se sabe em que estado. De acordo com análises iniciais, é mais provável que seja em forma de vapor preso no solo, e não gelo (como já se viu antes no satélite) ou líquido como na Terra.

A descoberta foi feita por meio do Observatório Estratosférico de Astronomia Infravermelha (Sofia, na sigla em inglês). É um observatório com um telescópio de nove pés (2,74 metros) montado em um avião Boeing 747, que voa alto na atmosfera, permitindo a obtenção de uma visão mais ampla do Sistema Solar e do universo. Trata-se de uma iniciativa entre Nasa e o Centro Aeroespacial Alemão.

A água detectada está localizada na Cratera Clavius, no hemisfério sul da Lua e uma das maiores visíveis a partir da Terra. Já havia sido detectado hidrogênio na região antes, mas não se sabia se era água ou outro composto de hidroxila (OH). Os dados indicam que a água descoberta pelo Sofia equivale a 350 mililitros presa em um metro cúbico de solo. Como comparação, o deserto do Saara tem 100 vezes mais água do que o que foi descoberto na Lua.

Mas esta água não está concentrada em só uma porção de solo. Os cientistas da Nasa acreditam que cerca de 40 mil metros quadrados da superfície lunar têm a capacidade de aprisionar água. Também não é suficiente para garantir se a Lua já teve formas de vida ou condições de abrigar vida no passado.

Como foi feita a pesquisa

O responsável pela descoberta é o Sofia, um telescópio bem diferente daqueles que você conhece. Além de estar montado em um avião acima das nuvens e de enxergar mais longe do que os observatórios da Terra, este é mais do que uma super luneta espacial. Ele enxerga em infravermelho, um espectro do campo de luz que os nossos olhos não conseguem ver.

Telescópios infravermelhos são utilizados para quase tudo na astronomia, da detecção de novos planetas até a descoberta de substâncias químicas nas superfícies de outros planetas. Isso acontece porque cada elemento químico da tabela periódica conhecida deixa um rastro infravermelho. Inclusive o hidrogênio, fundamental para a formação de água.

As suspeitas de que havia água na Lua começaram em 1994, quando a sonda Clementine, enviada pela Nasa para sobrevoar a Lua, detectou uma assinatura de luz infravermelha com comprimento de onda de 3 micrômetros, o que coincide com o rastro deixado pelo hidrogênio. Não dava para saber se era, porém, água ou outra molécula que possui hidrogênio na sua composição (hidroxilas).

A assinatura espectral que o Sofia detectou possui comprimento de onda de 6 micrômetros. "A vibração fundamental da água molecular produz uma assinatura espectral de 6 micrômetros que não é compartilhada por outros compostos de hidroxila", diz o estudo publicado na revista Nature Astronomy. Em outras palavras, com essa assinatura, só poderia ser água.

Tá... mas e daí?

Não dá para dizer que encontramos um oceano, um lago ou mesmo uma poça d'água na Lua, mas, então, o que há de tão especial nessa descoberta? Segundo os cientistas da Nasa, já havíamos encontrado traços de hidrogênio no satélite natural da Terra, mas só agora pudemos atestar com certeza que esse hidrogênio de uniu ao oxigênio para formar moléculas de água e não de outra coisa.

Outra novidade importante foi a descoberta de H2O numa região da Lua que recebe luz do Sol. Como se fosse uma moeda, o satélite tem dois lados: o lado visível da Terra e o lado oculto, que nunca aparece para os terráqueos. Os dois lados recebem luz solar em diferentes momentos, de modo que não existe um lado inteiro que seja sempre escuro e outro que seja sempre claro. Mas existem regiões, principalmente no fundo de algumas crateras, dos dois lados da Lua, que nunca recebem luz solar. Nestes locais, vestígios de água em estado sólido (ou seja, gelo), já foram encontrados. Já nos locais iluminados pelo Sol, aí é novidade.

Além disso, responder à pergunta "existe água no lado iluminado da Lua" abre uma série de outras perguntas. "Sem uma atmosfera espessa, a água na superfície lunar que recebe luz do Sol deveria se perder no espaço", explicou Casey Honniball, autora do estudo e pesquisadora da Nasa e da Universidade do Havaí. "No entanto, de alguma forma, estamos vendo [água na Lua]. Algo está gerando-a e algo deve estar prendendo-a ali."

Também não se sabe ainda como essa água foi parar lá. As hipóteses mais prováveis são de que moléculas de H2O tenham se formado graças aos ventos solares que levam hidrogênio para várias partes do sistema solar; ou que elas tenham sido trazidas por micrometeoritos que se chocaram com a Lua ao longo de milhões de anos. Descobrir a resposta para essas perguntas pode nos levar a entender melhor como o universo funciona.

O fato de haver água na Lua também muda as perspectivas para futuras missões tripuladas até lá. Trata-se não só de um ingrediente fundamental para a vida e para a manutenção de colônias humanas por lá, como também ajuda na produção de combustível para foguetes com direção ao próximo destino da humanidade no espaço: Marte.

Missão Artemis: de volta à Lua

Além disso, a descoberta pode ajudar astronautas a se prepararem melhor para uma nova expedição ao satélite. "Não sabemos ainda se podemos usá-la como um recurso, mas aprender sobre a água na Lua é a chave para nossos planos de exploração no programa Artemis", afirmou Jim Bridenstine, administrador da Nasa, em referência ao projeto de levar astronautas de volta ao satélite nos próximos anos.

"A água é um recurso valioso, tanto para fins científicos quanto para uso de nossos exploradores", disse Jacob Bleacher, cientista-chefe de exploração da Nasa. "Se pudermos usar os recursos da Lua, poderemos carregar menos água e mais equipamentos para ajudar a possibilitar novas descobertas científicas."

O programa Artemis é nomeado em referência à deusa grega da Lua, irmã de Apolo, que batizou a primeira missão tripulada da Nasa ao satélite natural da Terra na década de 1960. O retorno será dividido em três missões que devem começar já em 2021.

Em novembro de 2021, a missão Artemis 1 enviará uma nave não tripulada à Lua. Já em 2023, a Artemis 2 deverá levar seus primeiros astronautas para a órbita lunar. E, por fim, a Artemis 3 levará a primeira mulher, junto a um homem, a tocar o solo da Lua novamente.

Segundo estimativa da agência espacial, a operação deve custar, ao todo, US$ 28 bilhões e servirá como primeira etapa de uma missão maior: a de levar astronautas para Marte.

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