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Nagorno-Karabakh: Turquia atrapalha cessar-fogo com o envio de milhares de soldados e aviões

26/10/2020 11h28

Pela terceira vez consecutiva, uma tentativa de trégua entre o Azerbaijão e as forças armênias no enclave de Nagorno-Karabakh foi por água abaixo nesta segunda-feira (26), com os dois lados se acusando de "violação grosseira" do cessar-fogo.Há quase um mês, os mortos se acumulam na linha de frente, nas montanhas do Cáucaso. Especialista ouvido pela RFI explica que, embora os confrontos na região ocorram há mais de duas décadas, o acirramento se deve à implicação direta da Turquia, "um ator novo que não se contenta apenas em participar da mediação, mas envia suas tropas diretamente".

Pela terceira vez consecutiva, uma tentativa de trégua entre o Azerbaijão e as forças armênias no enclave de Nagorno-Karabakh foi por água abaixo nesta segunda-feira (26), com os dois lados se acusando de "violação grosseira" do cessar-fogo.Há quase um mês, os mortos se acumulam na linha de frente, nas montanhas do Cáucaso. Especialista ouvido pela RFI explica que, embora os confrontos na região ocorram há mais de duas décadas, o acirramento se deve à implicação direta da Turquia, "um ator novo que não se contenta apenas em participar da mediação, mas envia suas tropas diretamente".

Na capital de Nagorno-Karabakh, Stepanakert, sob o controle de separatistas armênios, os moradores haviam saudado o anúncio da nova trégua com ceticismo, como relatam os enviados especiais da RFI Richard Riffonneau e Anastasia Becchio. Na manhã desta segunda-feira, as ruas tinham pouco movimento, com apenas alguns carros circulando, além de um funcionário municipal que varria a calçada.

Anoush Anastassian se apressava para assistir à missa na grande catedral da cidade, sem acreditar que o novo cessar-fogo teria mesmo efeito. "Os turcos dizem uma coisa e fazem o oposto. Não entendo muito de política, mas meu coração me diz que nossa causa está certa. Porém, só chegaremos lá com a ajuda de Deus, pois as forças são desiguais", afirmou à reportagem.

Perto dali, Valéry expressou sua preocupação com o desrespeito da trégua. "Desta vez, eu gostaria de acreditar. Todos nós sofremos tanto que queremos acreditar. Precisamos de um cessar-fogo porque perdemos muitos amigos e parentes", lamentou. "Meu neto e meu filho estão na linha de frente. Falei com eles por telefone, mas eles não dizem nada sobre a trégua. Eles nem me dizem onde estão. É um segredo," completa.

A noite de domingo para segunda-feira foi calma em Stepanakert, de acordo com relatos de jornalistas que trabalham no local. Porém, 10 minutos antes do cessar-fogo entrar em vigor, às 8h local, uma explosão foi ouvida e uma colina fumaça foi vista em uma colina próxima, enquanto o fogo da artilharia podia ser ouvido à distância, em pelo menos duas ocasiões.

Retomada das hostilidades

O Ministério das Relações Exteriores do Azerbaijão acusou as forças armênias de terem bombardeado a cidade de Terter e aldeias vizinhas, bem como posições do Exército de Baku, ao mesmo tempo em que garantiam o "estrito cumprimento" do cessar-fogo. "Isso demonstra, mais uma vez, que a Armênia apoia o princípio de uma trégua humanitária apenas no discurso. Porém, de fato, esconde-se atrás da trégua para tentar reagrupar (suas forças) e tomar novas posições", sugeriu Khikmet Gadjiev, conselheiro do presidente do Azerbaijão, Ilham Aliev.

O Ministério da Defesa de Nagorno Karabakh, de seu lado, denuncia que a artilharia inimiga ataca suas posições, enquanto garante que as forças sob seu controle "cumprem rigorosamente os acordos alcançados" e que "as acusações do inimigo não têm base na realidade".

Aos olhos da comunidade internacional

Apesar da assinatura do acordo de cessar-fogo, o conflito se intensifica neste enclave no sudoeste do Azerbaijão. As sirenes soaram novamente em Stepanakert, a capital da autoproclamada república, onde a chegada de uma delegação de parlamentares franceses era esperada nesta segunda-feira.

O confronto nesta região historicamente povoada por armênios dentro do Azerbaijão data de décadas. As relações entre os dois países era relativamente pacífica até que, nos anos 1920, a Rússia resolveu incorporar os estados independentes da região do Cáucaso para formar a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

 Nesta época, o Nagorno-Karabakh foi concedido à República Socialista Soviética Armênia. No entanto, em 1923, Joseph Stalin o anexou à República Socialista Soviética do Azerbaijão, um estado muçulmano, mesmo que 94% dos moradores fossem cristãos, falassem outra língua e tivessem outros costumes e cultura.  

No início da década de 1990, com o fim da URSS, as tensões voltaram a se acirrar no local. Cerca de 30 mil pessoas morreram no conflito quando o enclave proclamou sua independência, que jamais foi reconhecida pelos países da ONU.

Em sua maioria, os armênios lamentam que a comunidade internacional não seja capaz acabar com as tensões no Nagorno-Karabakh. Apoiadas pela Turquia, neste novo capítulo do conflito, as forças do Azerbaijão estão decididas a retomar o enclave.

"Há muitas vítimas. Realmente temos que encontrar uma maneira de sair desse conflito e resolvê-lo de uma vez por todas. Dói muito falar sobre isso, porque o mundo está em silêncio, não fala nada ... Já faz quase um mês que começaram as operações militares. Não sei por que está sendo assim, talvez porque somos um país pequeno ou porque nossa política externa é bastante fraca", desabafa Sona, uma armênia de 48 anos.

"Todo mundo sabe que há uma guerra acontecendo aqui, mas ninguém está fazendo nada. Espero que a Rússia nos ajude. Sem essa ajuda, não posso imaginar como seremos capazes de prender 100 milhões de pessoas: 100 milhões é a população da Turquia e do Azerbaijão. Esses dois países estão muito bem armados. Nós também poderíamos ter construído drones, mas preferimos construir nossas casas", reiterou.

Rússia poderia ser o contrapeso

No xadrez político do conflito, Nikol Pachiniane, primeiro-ministro da Armênia, se volta agora para a Rússia. Moscou, que até então atuava na mediação dentro do contexto do grupo de Minsk, na tentativa de encontrar um acordo entre as duas partes, passaria a ter um papel mais atuante, como explica David Gayzère, especialista sobre a Ásia na Universidade de Bordeaux, na França.

"A Rússia até hoje desempenha o seu papel de mediadora. Porém, há 3 ou 4 dias vemos uma parte da sociedade e da classe política russa, alguns militares e religiosos que pedem a Moscou para contrabalançar o papel ativo de Ancara com um apoio maior aos separatistas de Nagorno Karabakh", afirma David Gayzère. "Fala-se na imprensa russa de um envio de tropas especiais de Moscou para o lado armênio. Mas, por enquanto, são posições isoladas e não coordenadas. E a Rússia continua um mediador neutro", conclui.

Historicamente, a Rússia exerce influência política, econômica e diplomática na região e parece ser o país mais adequado atualmente para convencer as duas partes a dialogar. Moscou é um aliado próximo da Armênia e, sobretudo, tem boas relações com as autoridades do Azerbaijão. 

Uma primeira trégua entre Erevan e Baku foi concluída em Moscou em 10 de outubro e uma segunda em Paris, em 17 de outubro. Ambas desrespeitadas muito rapidamente.

Envio de 12 mil soldados pela Turquia

Para o pesquisador de conflitos da Ásia na Universidade de Bordeaux, o fato novo desta vez é a atuação da Turquia no confronto. David Gayzère explica que, em 2016, houve situações de conflitos na linha de frente, mas que desde setembro há um endurecimento da guerra em virtude dos reforços turcos. "A Turquia é responsável pelo envio de 12.000 homens das forças especiais para a linha de frente em Karabakh e o Exército turco também empresta aviões", diz o pesquisador.

Enquanto Ancara é acusada de ter enviado combatentes pró-turcos da Síria para o conflito de Nagorno Karabakh, o Azerbaijão, por sua parte, aproveitou-se de suas receitas do petróleo para armar-se sem contar os custos, durante os últimos anos, notadamente com a Rússia, Turquia e Israel.

"Desde 27 de setembro, com apoio dos turcos, há uma superioridade do Azerbaijão, vamos ver se vai durar", analisa Gayzère. "Estamos no início do inverno. Os combatentes independentistas, apoiados pelos armênios, podem resistir e mesmo transformar esse conflito numa guerrilha, pois conhecem melhor do que ninguém o terreno onde nasceram e vivem", analisa.

Na semana passada, o primeiro-ministro armênio, Nikol Pachinian, descartou qualquer "solução diplomática" para o conflito, convocando voluntários para se juntarem à frente. O presidente do Azerbaijão, Ilham Aliev, por sua vez, chamou seus oponentes de "cães" ou "feras", julgando que qualquer negociação deveria ser precedida por uma retirada das forças armênias de Karabakh.

A ver pelos acontecimentos dos últimos dias, Erevan e Baku parecem se distanciar cada vez mais do caminho da paz. O número de mortos já chega a 5.000, de acordo com uma contagem apresentada pela Rússia. Mediadores do Grupo de Minsk e ministros dos dois países em conflito concordaram em se reunir em Genebra, na quinta-feira (29) para discutir as medidas necessárias para se chegar a uma solução pacífica.

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