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Crianças separadas, pais indetectáveis: Trump joga lenha no debate migratório

Abrigo para crianças de imigrantes ilegais em Tornillo, Texas (EUA) - Mike Blake/Reuters
Abrigo para crianças de imigrantes ilegais em Tornillo, Texas (EUA) Imagem: Mike Blake/Reuters

23/10/2020 21h08

Nova York, 24 Out 2020 (AFP) - Onde estão os pais das 545 crianças migrantes separadas há três anos de suas famílias na fronteira dos Estados Unidos?

O drama destas crianças, que ainda não se reencontraram com os pais, foi um dos temas da reta final da campanha eleitoral, após um tenso debate entre o presidente republicano Donald Trump e seu adversário, o democrata Joe Biden.

Mirando sua base eleitoral, Trump defendeu ontem, no último debate contra Biden antes das eleições, a política que processou criminalmente milhares de migrantes que cruzaram ilegalmente a fronteira e separou mais de 5.000 crianças dos pais entre 2017 e 2018.

O governo nunca implementou um sistema pra reunir famílias, a maioria vinda do México e da América Central, fugindo da pobreza e da violência.

Quando a justiça determinou que o fizesse, em 2018, o trabalho recaiu em ONGs e ativistas que defendem imigrantes ou advogados voluntários, que ainda percorrem cidadezinhas de Honduras e El Salvador de moto, tentando encontrar pais separados dos filhos, colocam anúncios de rádio e entrevistam líderes comunitários, nem sempre com sucesso.

O trabalho é complexo, muitas vezes perigoso e caro. O governo americano não paga um dólar sequer.

"As crianças foram trazidas aqui por coiotes e muita gente ruim, cartéis, os trouxeram e os usaram para entrar no nosso país", disse Trump no debate, enquanto Biden tachou a política de "criminosa".

"Agora, temos as fronteira mais seguras que jamais tivemos", disse Trump. Embora também tenha dito que seu governo tenta encontrar os pais, disse que estas crianças "são bem cuidadas" e estão em "instalações limpas".

"A História julgará"

Uma ação apresentada na terça-feira pela American Civil Liberties Union (ACLU), uma influente organização de direitos civis, assegurou que os pais de 545 crianças separadas em 2017 (60 delas menores de cinco anos), quando a "tolerância zero" começou com um programa piloto, ainda não puderam ser localizados.

A ACLU acredita que cerca de dois terços dos mais de mil pais separados dos filhos tenham sido deportados.

Lee Gelernt, advogado da ACLU a cargo da ação, disse após o debate que a separação das crianças de seus pais "é o pior" que viu em três décadas de luta pelos direitos humanos. "A História julgará", escreveu em sua conta no Twitter.

"Este é o único governo americano, republicano ou democrata, que implementou uma prática sistemática de separar crianças", disse Gelernt à AFP, e lembrou que pelo menos 200 crianças separadas tinham menos de cinco anos e algumas apenas seis meses.

Ele disse que as crianças que ainda não foram reunidas com seus pais estão em lares temporários nos Estados Unidos ou com familiares, alguns muito distantes ou amigos da família.

Se o governo americano não permite aos pais se reunir com seus filhos, considerou ser possível que eles devam tomar "a angustiante decisão de deixar seu filho nos Estados Unidos para que não seja recrutado por uma gangue ou assassinado se voltar à América Central".

Krish O'Mara Vignarajah, presidente do Serviço de Imigração e Refugiados Luterano (LIRS, na sigla em inglês), uma das organizações que trabalha para encontrar os pais, disse à AFP que ficou em choque após ouvir Trump.

"Se o presidente acredita que mantas térmicas, pisos de cimento, quartos sem janelas e cercas com grades são padrões dos serviços à infância, está profundamente enganado", afirmou.

"Um pesadelo de três anos"

Essas condições foram "só o começo de um pesadelo de três anos que não terminou e talvez os traumatize pelo resto de suas vidas. Irão para cama esta noite como têm feito durante quase mil noites sem saber onde estão seus pais", acrescentou, após lembrar gravações e imagens de crianças chorando na fronteira após terem sido separadas.

O governo não registrou dados de todos os pais separados de seus filhos. Muitos foram deportados para áreas rurais, alguns não falam espanhol, apenas línguas indígenas, e não têm acesso à internet.

Mais do que uma comunicação ruim entre agências governamentais, o que houve foi "uma negligência incrível", disse à AFP George Hoffman, diretor da Clínica de Imigração da Universidade de Houston, no Texas.

"O que o governo Trump tem feito é implementar estas políticas que têm como objetivo energizar sua base, mas que não têm autoridade legal", acrescentou.

"Quem construiu as jaulas, Joe?", perguntou Trump mais de uma vez durante o debate, em alusão a fotos de 2014 que mostravam imagens de imigrantes detidos atrás das grades.

O ex-presidente Barack Obama, de quem Biden foi vice, foi chamado de "deportador em chefe" devido aos 3,2 milhões de imigrantes que expulsou do país entre 2009 e 2016.

Trump perguntou a Biden porque durante oito anos na Casa Branca não legalizaram os imigrantes, como ele promete agora, e seu adversário respondeu que foi "um erro".

Biden disse que se for eleito, pedirá ao Congresso para legalizar os 11 milhões de ilegais no país.

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