PUBLICIDADE
Topo

Notícias

Homenagens a Samuel Paty, que se tornou símbolo da liberdade de expresão na França

21/10/2020 13h49

Conflans-Sainte-Honorine, França, 21 Out 2020 (AFP) - A França presta homenagem nesta quarta-feira (21) ao professor de ensino médio Samuel Paty, que se tornou um símbolo da liberdade de expressão no país, depois de ser decapitado em 16 de outubro por um extremista islâmico por ter mostrado charges do profeta Maomé a seus alunos.

Sete pessoas, entre elas duas menores, compareceram ante um juiz por "cumplicidade em atentado terrorista".

Entre elas, dois menores de 14 e 15 anos são acusados de terem mostrado ao assassino, Abdullakh Anzorov - um jovem refugiado de origem russa chechena - o docente, em troca de "300 a 350 euros", de acordo com o promotor antiterrorista, Jean-François Ricard.

Segundo fontes próximas ao caso, o assassino, após publicar nas redes sociais a foto de sua vítima decapitada, enviou uma mensagem de áudio em russo pouco nítido na qual afirma ter "vingado o profeta", censurando o professor de história e geografia por tê-lo "mostrado de maneira insultante".

Nesta mensagem, o agressor parece quase sem fôlego e profere frases do Alcorão: "Irmãos, orem para que Alá me aceite como um mártir", diz ele, de acordo com uma tradução da AFP.

Entre os outros suspeitos está o pai de uma aluna que iniciou a mobilização por meio de vídeos nas redes sociais após o curso sobre liberdade de expressão ministrado pelo professor no dia 5 de outubro, e a quem ele censurou por ter mostrado cartuns do profeta Maomé em sala de aula.

Dias depois dos vídeos, Samuel Paty foi decapitado no meio da rua pelo checheno de 18 anos, que mais tarde foi morto a tiros pela polícia.

O pai da aluna, Brahim C., é acusado, assim como o militante islamita Abdelhakim Sefrioui, de ter "designado especificamente o professor como alvo nas redes sociais".

Os investigadores também estão interessados nas mensagens trocadas no WhatsApp entre este pai e o assassino.

Três amigos do assassino, que se entregaram em uma delegacia na noite de sexta-feira, também serão interrogados pelo juiz.

Nove pessoas que haviam sido detidas foram libertadas, incluindo três estudantes, bem bem como os pais, o avô e o irmão mais novo do agressor.

- Homenagem nacional -Nesta quarta-feira à noite, o presidente francês, Emmanuel Macron, prestará uma homenagem nacional na Universidade Sorbonne de Paris ao professor, que será condecorado postumamente com a Legião de Honra, principal condecoração francesa.

As reações a este "ataque islamita", nas palavras do presidente, não tardaram a chegar. Desde sexta-feira, dezenas de milhares de pessoas se reuniram nas ruas em sua memória para denunciar a "barbárie" e apoiar o mundo da educação.

"Essa liberdade de expressão que Samuel Paty ensinava a seus alunos" tinha como objetivo "lutar contra o obscurantismo", afirmou Laurent Brosse, prefeito de Conflans-Sainte-Honorine, cidade onde lecionava e palco de uma marcha na terça à noite que reuniu mais de 6.000 pessoas.

Paty, de 47 anos, era "um colega comprometido com sua missão com os alunos", disseram professores do colégio Bois d'Aulne, em um comunicado conjunto.

"Por meio dele, toda escola republicana é atacada", escreveram.

"A fundação das escolas públicas se baseia em valores republicanos e laicos. São esses valores que Samuel defendia em seu ensino sobre liberdade de expressão", insistiram.

- "Completamente dedicado à profissão" -O "Sr. Paty", como o chamavam os seus alunos, era pai de um menino de cinco anos e acabava de iniciar o terceiro ano de ensino na escola Bois d'Aulne, situada em uma zona residencial desta pacata cidade de 35.000 habitantes, a noroeste da capital.

"Ele era ótimo, muito conciliador e disposto a ouvir", disse Hugo, aluno que tinha aulas semanais de apoio com ele.

"Quando meu filho tinha um problema, ele o ouvia. Ninguém merece isso, mas ele menos ainda", desabafou Nathalie Allemand, mãe de um aluno.

"Ele era totalmente dedicado à sua profissão", testemunha Martial, um estudante do ensino médio que foi ao local após a tragédia.

"Ele queria muito nos ensinar coisas. De vez em quando, tínhamos debates, conversávamos", contou.

Como em anos anteriores, o professor havia mostrado a seus alunos adolescentes ilustrações de Maomé publicadas no jornal satírico Charlie Hebdo, como parte de um curso de educação moral e cívica dedicado à liberdade de expressão.

Não sem antes avisar que quem se ofendesse com essas imagens poderia deixar a aula.

Este ano, em vídeo veiculado nas redes sociais, o pai de uma aluna reagiu duramente, descrevendo o professor como um "bandido" que "não deveria permanecer na Educação Nacional", ao mesmo tempo em que convidava outros pais a se mobilizarem para expulsá-lo do cargo.

fan-clw/jt/bds/msr/m/mr/tt

Notícias