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Em Stepanakert, pão de graça para moradores e soldados

21/10/2020 11h50

Stepanakert, Azerbaijão, 21 Out 2020 (AFP) - Um pequeno galpão de paredes cinzentas, janelas cobertas com papelão, sem qualquer sinal distintivo: em Stepanakert uma pequena padaria fabrica milhares de pães todos os dias para os poucos habitantes que permaneceram na capital de Nagorno-Karabakh e para os soldados no front.

São 10h00 desta manhã fria e chuvosa de quarta-feira em uma rua da capital regional dos separatistas armênios. Há três dias, a cidade tem vivido uma relativa calma, sem os bombardeios constantes desde o início do conflito com o Azerbaijão em 27 de setembro.

A padaria acaba de abrir, começa um balé. Carros estacionam nas calçadas próximas. Os homens saem e entram no pequeno pátio em frente à entrada do prédio, procuram um, dois ou três pães, ou caixas de algumas dezenas, e saem rapidamente.

Na padaria, funcionários estão ocupados. A batedeira gira a toda velocidade, a massa é modelada, as bolinhas são colocadas em formas e assadas em dois grandes fornos elétricos.

Avental vermelho com colete azul, cabelo preso, Lena Ghevondyan, de 55 anos, trabalha "doze horas por dia".

"Não me importo com o cansaço. Sinto-me melhor aqui (em Stepanakert). Podia ter ido embora, mas optei por ficar", diz, enchendo as formas com bolas de massa.

Seu filho de 20 anos está na linha de frente desde 26 de setembro, um dia antes do início do conflito.

"Se meu filho está lá, como eu poderia sair daqui? Eu não quero mais nada, que minha casa seja destruída, não me importo, mas eu quero que meu filho perto de mim", completa, com a testa suando com o calor dos fornos.

O estabelecimento oferece apenas pão, e de um tipo: branco, cerca de 700 gramas, em forma de um grande bolo. E é dado.

"Desde o primeiro dia de guerra, decidimos dá-lo gratuitamente aos moradores, e também trabalhar para o exército", explica o dono da padaria, Armen Saghyan, de 31 anos.

- "Perigo em toda parte" -"Não temos nenhum problema financeiro. Recebemos ligações de instituições que querem nos ajudar, mas não precisamos. Se precisarmos, vamos recorrer a elas", completa.

Em Stepanakert, um punhado de padarias ainda faz pão para os poucos que não fugiram da cidade, que contava com cerca de 60.000 pessoas antes da guerra. As outras fecharam.

Cabelo curto, queixo quadrado, silhueta de jogador de rugby, Armen Abroyan é o motorista de entrega.

"Entregamos todos os dias, a qualquer hora que nos for pedido, pelo menos seis a oito vezes ao dia", diz o homem de 41 anos.

Com sua van branca, ele entrega pão em bases militares próximas ao front, apesar do perigo.

Ele também viaja para Martakert (nordeste) ou Martouni (leste), cidades próximas ao conflito e regularmente alvo de bombardeios.

"Há algum lugar em Karabakh que não seja perigoso? Mesmo a cidade (de Stepanakert) não é segura, como poderia a linha de frente ser! O perigo está em toda parte, mas estamos tentando entregar seja onde for", acrescenta.

Na salinha onde são distribuídos os pães, o desfile continua. Alguns se surpreendem com a gratuidade, como Nelson Caspeyran, de 59 anos.

"Eu ouvi falar recentemente. As pessoas me disseram que era de graça aqui. Antes, eu comprava em outro lugar", disse ele antes de sair com seus dois pães debaixo do braço.

epe/apo/mm/mr

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