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Vitória de Biden não muda relação entre Brasil e EUA, diz novo embaixador

O novo embaixador do Brasil nos Estados Unidos, Nestor Forster - Embaixada do Brasil nos EUA/Divulgação
O novo embaixador do Brasil nos Estados Unidos, Nestor Forster Imagem: Embaixada do Brasil nos EUA/Divulgação
do UOL

Luciana Amaral

Do UOL, em Brasília

20/10/2020 04h00Atualizada em 20/10/2020 11h52

Resumo da notícia

  • Em entrevista ao UOL, Nestor Forster afirma que relação diplomática tem "peso específico próprio" que não vai se alterar com eleição
  • Chefe da embaixada em Washington diz também ver exageros na maneira como o Brasil é retratado no exterior na questão ambiental 
  • Diplomata rechaça ainda críticas de que o governo brasileiro esteja numa relação desigual com os EUA

Uma eventual vitória de Joe Biden na corrida à Casa Branca não vai mudar a relação entre o Brasil e os Estados Unidos, afirmou o novo embaixador brasileiro em Washington, Nestor Forster.

Em entrevista ao UOL, o diplomata disse que, embora projete mudanças na importância dada a certos assuntos num possível governo do democrata, a relação entre os dois países tem um "peso específico próprio" que não vai se alterar em razão da eleição. Biden está à frente de Donald Trump nas pesquisas.

"Não é a convergência ideológica que move as agendas dos países de forma tão direta assim. Isso pode ajudar ou pode atrapalhar conforme a circunstância. Agora, havendo identidades profundas, interesses compartilhados, os países continuam a avançar mesmo com diferenças pontuais, maiores ou menores, neste ou naquele aspecto da relação", disse,

Forster também afirmou ver distorções e exageros na maneira como o Brasil é retratado no exterior na questão ambiental — embora não negue haver problemas. Rechaçou ainda críticas de que o governo brasileiro esteja numa relação desigual com os EUA ao supostamente ceder muito sem receber o equivalente em troca.

Gaúcho de Porto Alegre e diplomata de carreira com passagens pela embaixada do Brasil nos EUA desde 1992, Forster foi oficializado após ficar cerca de 15 meses como chefe interino em Washington. Inicialmente, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) quis emplacar o filho e deputado federal, Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), mas recuou por falta de apoio no Senado.

Confira os principais trechos da entrevista, concedida na última quinta (15):

Qual a influência de Olavo de Carvalho, de quem o senhor já se mostrou próximo, no seu trabalho à frente da embaixada?

Nenhuma. Não é certo que me mostrei próximo. Sou amigo do Olavo de Carvalho há 25 anos, antes de o Olavo ter a projeção pública que tem hoje, antes de eu ser embaixador.

17.mar.2019 - Forster e Eduardo Bolsonaro aparecem um ao lado do outro em jantar durante visita oficial do presidente Jair Bolsonaro a Washington, D.C - Alan Santos/PR - Alan Santos/PR
17.mar.2019 - Forster e Eduardo Bolsonaro aparecem um ao lado do outro em jantar durante visita oficial do presidente Jair Bolsonaro a Washington, D.C
Imagem: Alan Santos/PR

Se Joe Biden vencer, terá sido mau negócio para o Brasil ter defendido a reeleição de Donald Trump?

As relações entre países podem se beneficiar ou ser prejudicadas pelas relações pessoais entre os chefes de Estado. Mas nunca se resumem a isso.

Quando a gente tem os dois presidentes com essa convergência, fica potencializada a quantidade de iniciativas em que podemos avançar. É isso que temos visto nesses últimos dois anos e meio. Mas não é que tudo tenha começado do zero. Há quase dois séculos de história, de relação diplomática, por trás do que está sendo feito.

29.set.2020 - O candidato democrata Joe Biden tem aparecido à frente do atual presidente Donald Trump em pesquisas da corrida à Casa Branca - Morry Gash-Pool/Getty Images/AFP - Morry Gash-Pool/Getty Images/AFP
29.set.2020 - O candidato democrata Joe Biden tem aparecido à frente do presidente republicano Donald Trump em pesquisas da corrida à Casa Branca
Imagem: Morry Gash-Pool/Getty Images/AFP

Algo terá que ser mudado no posicionamento do Brasil se Biden vencer?

Não sabemos exatamente qual será a política externa se Biden vencer. É óbvio que haverá diferentes ênfases de um governo democrata em relação ao atual. Se fala muito na preocupação que eles têm com a questão ambiental. O Brasil está pronto para ter essa conversa, para trabalhar junto, para cooperar com os Estados Unidos. Não temos diferenças importantes nessa área.

Biden disse que, se o Brasil não atuar pela preservação ambiental, vai enfrentar "consequências econômicas significativas".

São afirmações feitas no calor de debates políticos. Não daria maior valor a isso.

Em razão de queimadas no Pantanal e desmatamento na Amazônia, o senhor concorda que a imagem do Brasil não é boa?

Não tenho dúvida de que há distorções, exageros. O problema existe, mas existe também um problema de imagem que é explorada, às vezes, por forças políticas de oposição. É do jogo democrático. Não estamos aqui nem para fazer propaganda nem para criar uma ilusão sobre um país que não existe. Estamos aqui para desfazer mitos e desinformações com dados reais.

Como o governo Trump, o governo brasileiro se diz "pró-vida", contrário à legalização do aborto. Se Biden vencer, o Brasil estará disposto a recuar em alguns temas caros a Bolsonaro?

A defesa pró-vida não é algo só do governo Bolsonaro. É da legislação brasileira e, diria, mais profundamente, da sociedade brasileira. Uma sociedade amplamente baseada em valores morais, religiosos, cristãos.

Sem vida, qual direito que pode existir? É absolutamente existencial, fundamental. E aí, havendo divergência, às vezes a gente tem que concordar em discordar. Separar as coisas. 'Olha, nossa posição não é essa. Não se trata de que tenhamos que transigir nisso'.

Haveria um afastamento ideológico?

Não é a convergência ideológica que move as agendas dos países de forma tão direta assim. Isso pode ajudar ou pode atrapalhar conforme a circunstância. Agora, havendo identidades profundas, interesses compartilhados, os países continuam a avançar mesmo com diferenças pontuais.

Podemos esperar algum acordo até o final do ano para facilitação de comércio, medidas de combate à corrupção e comércio digital?

Sim, até o final deste ano e, talvez, até o final deste mês. Na reunião de cúpula dos dois presidentes, na Flórida, ficou combinado um mandato negociador para o chamado pacote comercial significativo que incluísse essas áreas. Previu-se também a negociação de um acordo para o chamado Operador Econômico Autorizado, de desburocratização, sobretudo na área alfandegária. Isso já estava previsto que seria fechado só no primeiro semestre do ano que vem.

Como está o processo da entrada do Brasil como membro efetivo da OCDE?

O apoio americano tem sido decisivo à entrada do Brasil na OCDE. Há questões, talvez burocráticas, que não permitiram que se efetivasse ainda. Mas tenho esperança de que no primeiro semestre do próximo ano essas questões estarão equacionadas e que o Brasil poderá iniciar um processo formal de negociação.

19.mar.2019 - Trump e Bolsonaro trocam cumprimentos na Casa Branca, em Washington, D.C, no dia em que foi anunciado o apoio americano à entrada do Brasil como membro pleno na OCDE - Reuters - Reuters
19.mar.2019 - Trump e Bolsonaro trocam cumprimentos na Casa Branca, em Washington, D.C, no dia em que foi anunciado o apoio americano à entrada do Brasil como membro pleno na OCDE
Imagem: Reuters

Há críticas de que o governo cede muito sem receber o mesmo em troca dos EUA. Há uma relação desigual?

De forma alguma. O apoio dos EUA para a entrada do Brasil na OCDE é absolutamente fundamental e novo. O Brasil não entregou nada. As críticas à história dos vistos são equivocadas, porque os americanos não nos pediram para dar isenção. Foi uma iniciativa do governo brasileiro atendendo a um pedido da indústria de serviços, hoteleira, de turismo no Brasil.

Tivemos a designação do Brasil como aliado preferencial dos EUA extra-OTAN. Abriu portas para nossa cooperação na área de defesa, militar. O que demos em troca disso? Absolutamente nada.

Firmamos um acordo de salvaguardas tecnológicas que permite o uso por empresas americanas privadas para o lançamento de satélites comerciais civis na base de Alcântara. Já temos mais de dez empresas fazendo fila.

O Ministério da Ciência e Tecnologia assinou acordo com o Smithsonian Institution que vai permitir que escolas públicas brasileiras usem todo o material de ciência básica e aplicada. Os americanos nos convidaram para participar do projeto Artemis, o mais ambicioso na área de exploração espacial desde o Apollo.

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