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Mulheres avançam na área de tecnologia, mas diferença de salários aumenta

Segundo pesquisa, nos setores de tecnologia e gestão de negócios, proposta média de salário para mulheres é de R$ 5.531, enquanto para homens é de  R$ 6.829 - Getty Images/iStockphoto/metamorworks
Segundo pesquisa, nos setores de tecnologia e gestão de negócios, proposta média de salário para mulheres é de R$ 5.531, enquanto para homens é de R$ 6.829 Imagem: Getty Images/iStockphoto/metamorworks
do UOL

Bruno Lazaretti

Do UOL em São Paulo

06/10/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Segundo pesquisa, o número de convites a mulheres para vagas em tecnologia e gestão de negócios cresceu de 12% em 2017 para 17% em 2019
  • A diferença de remuneração oferecida para homens e mulheres era de 22,4% e passou a 23,4%, entre esses mesmos anos.
  • Entre 2017 e 2019, recrutadores homens aumentaram o número de convites para mulheres em 6%, enquanto recrutadoras mulheres aumentaram em apenas 2%
  • Mesmo áreas em que as mulheres são maioria, como marketing online (54%), homens dominam cargos de liderança (57%)
  • Pretensão salarial das mulheres é, em média, 22% abaixo da dos homens. Para consultora, diferença tem origem histórica e cultural.

As áreas de tecnologia e gestão no mercado empresarial estão lentamente se abrindo para as mulheres, mas a diferença de salário entre gêneros cresceu entre 2017 e 2019. É o que indica uma pesquisa da empresa de tecnologia para recrutamento Revelo, que conecta candidatos a vagas desse tipo, a partir de dados registrados na plataforma por mais de 14 mil empresas e 1 milhão de candidatos.

Segundo o levantamento, o número de convites a mulheres para vagas nessas profissões cresceu de 12% em 2017 para 17% em 2019. Já a diferença de remuneração oferecida para homens e mulheres era de 22,4% e passou para 23,4%, nesses mesmos anos. Em números, a média da proposta de salário às mulheres em 2019 foi de R$ 5.531, enquanto a para homens foi de R$ 6.829.

Mais convites onde elas já têm maior participação

Patrícia Carvalo, CMO da empresa Revelo - Gabriel Reis (Divulgação)/Revelo - Gabriel Reis (Divulgação)/Revelo
Patrícia, da Revelo: os homens têm sido convocados à discussão da desigualdade de gênero
Imagem: Gabriel Reis (Divulgação)/Revelo
Desenvolvimento, tecnologia da informação, business intelligence, gestão de negócios, design, finanças e marketing online são algumas das áreas onde a pesquisa detectou esse modesto avanço de convites ao público feminino. Mas certas áreas se mostraram mais inclusivas que outras.

Em gestão de negócios, onde 30% das vagas são ocupadas por mulheres, o total de convites de trabalho para candidatas na plataforma em 2019 foi de 41% - um crescimento de 13% em relação a 2017. Já na área de desenvolvimento, com uma participação feminina de apenas 11% no mercado, o aumento nos convites no mesmo período foi de apenas 5%.

O gênero da pessoa responsável pela seleção e recrutamento também é um fator considerável. Entre 2017 e 2019, recrutadores homens aumentaram o número de convites para mulheres em 6%, enquanto recrutadoras mulheres aumentaram em apenas 2%.

"No passado, a discussão sobre diversidade e inclusão ficava muito limitada aos grupos que sofriam com a falta delas. Então, a disparidade de gênero era discutida só entre mulheres. Mas, nos últimos anos, tivemos uma convocação dos homens para a discussão, e essa sensibilização pode ter impactado", especula Patrícia Carvalho, CMO da Revelo.

Ela afirma ainda que estas e outras hipóteses devem ser testadas no relatório do ano que vem, que deve incluir uma pesquisa quantitativa. Na análise mais ampla, porém, o cenário ainda está muito aquém do ideal: tanto entre recrutadores homens quanto entre mulheres, os convites a candidatas ainda não ultrapassam 20% do total.

Resistência em algumas áreas

Três mulheres em reunião - CoWomen/Unsplash - CoWomen/Unsplash
Mesmo em setores com mais mulheres, homens ainda dominam cargos de chefia
Imagem: CoWomen/Unsplash
"É uma luta diária, para ser sincera", diz S., diretora de RH de uma multinacional da indústria automotiva, que prefere manter-se anônima. "Ainda lido com essa resistência [a contratação de mulheres], especialmente com gestores mais antigos. Temos gestores com mais de 70 anos aqui que não [contratam mulheres]".No cargo há pouco mais de um ano, S. conseguiu atingir a meta de mulheres na empresa: 27%. Mas determinou para si outro objetivo: a de trazer mais mulheres para cargos de liderança. "Eu luto absurdamente, porque é um mundo muito masculino", afirma.

A pesquisa da Revelo comprova essa percepção. Mesmo áreas em que as mulheres são maioria, como marketing online (54%), são os homens que ocupam a maioria dos cargos de liderança (57%). Áreas mais desiguais trazem números ainda mais expressivos. Em TI e desenvolvimento, que têm, respectivamente, 13% e 11% de mulheres, os homens ocupam cerca de 92% das posições de chefia.

A multinacional farmacêutica Bristol Myers Squibb, onde 55% dos cargos de liderança já são ocupados por mulheres, passou por um processo focado exatamente nesses "bolsões que carregam histórico predominantemente masculino, como TI", afirma a diretora de RH Jennifer Wendling. "Hoje em dia, essas áreas também estão quase [igualitárias]", comemora. As contratações em 2019 ajudaram: mais da metade foram mulheres.

Mulheres ainda exigem menos, mas isso está mudando

Mulher trabalha com dois computadores - Mimi Thian/Unsplash - Mimi Thian/Unsplash
Pretensão salarial feminina é, em média, 22% menor que a dos homens
Imagem: Mimi Thian/Unsplash
O relatório da Revelo alerta que um dos fatores para explicar as propostas de salário inferiores para as mulheres é que elas registram uma pretensão salarial menor. Na média, 22% abaixo da dos homens.

E, novamente, isso varia de acordo com a área. Marketing online, onde elas ocupam 54% dos cargos, a diferença de pretensão é a menor: 10%. Em TI, onde representam apenas 5%, a diferença é de aproximadamente 19%. Mas gestão de negócios, com 30% de mulheres, tem a maior distinção: 28%.

Para Estela Rocha, fundadora da ONG Empoderamento da Mulher e uma das consultoras na pesquisa, essa diferença tem uma origem histórica e cultural. "As mulheres se sentem mais críticas consigo mesmas e se sentem mais questionadas por suas capacidades e habilidades", afirma. Isso dificultaria não só a entrada, mas também a permanência e o crescimento das mulheres nesse mercado.

A boa notícia é que, lentamente, as mulheres estão se posicionando mais claramente a respeito do valor de seu trabalho. Em 2017, aceitavam mais convites de trabalho abaixo de sua pretensão de salário do que os homens: 62% e 54%, respectivamente. Em 2019, ambos os percentuais se igualaram, em 54%.

Segundo Patrícia Carvalho, há dois fatores que podem influenciar essa mudança. O primeiro é que há uma abertura maior para se discutir abertamente salários, o que leva grupos que frequentemente eram vítimas de desigualdade salarial a ter consciência do quanto valem no mercado de trabalho, como é o caso das mulheres. O segundo é que as mulheres estão mais responsáveis pelas finanças da casa, o que significa que não podem aceitar salários baixos.

Há, também, a possibilidade de sororidade entre mulheres em áreas antes dominadas por homens. "Tem um fator aí que é o lastro", pontua Patricia. "É mais difícil uma mulher lead reduzir o salário de uma outra mulher que está entrando na carreira. Então uma mulher puxa a outra. Entrar é o mais difícil. Depois é escalar", conclui.

O Prêmio Lugares Incríveis para Trabalhar é uma iniciativa do UOL e da Fundação Instituto de Administração (FIA) que vai destacar as empresas brasileiras com os mais altos níveis de satisfação entre os seus colaboradores. Os vencedores serão definidos a partir dos resultados da pesquisa FIA Employee Experience, que mede o ambiente de trabalho, a cultura organizacional, a atuação da liderança e a satisfação com os serviços de RH. A pesquisa já está na fase de coleta de dados das empresas inscritas e os vencedores do Prêmio devem ser anunciados em novembro.

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