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Por que os EUA foram a única potência ocidental a rejeitar o sistema de saúde universal após 2ª Guerra

Truman era vice-presidente de FDR; quando este último morreu no cargo, Truman o sucedeu - Getty Images
Truman era vice-presidente de FDR; quando este último morreu no cargo, Truman o sucedeu Imagem: Getty Images

Claire Bowes - BBC

27/09/2020 08h31

Após as guerras devastadoras das primeiras décadas do século 20, os países ricos garantiram que todos os seus cidadãos tivessem acesso à saúde, com exceção dos Estados Unidos, onde todos os esforços falharam neste sentido.

O que aconteceu para que ela acabasse sendo então (e ainda) a única democracia rica sem cobertura de saúde universal?

Harry Truman tornou-se presidente nos últimos meses da 2ª Guerra Mundial, substituindo seu antecessor, Franklin Delano Roosevelt (FDR), que havia morrido no cargo. Quando a guerra terminou, Truman começou a cuidar dos assuntos internos.

Roosevelt havia investido milhões de dólares em programas públicos para ajudar a resgatar os Estados Unidos da derrocada financeira da Grande Depressão. Mas o chamado "new deal" de FDR deixou um elemento de fora: Harry Truman tentou consertá-lo.

"Ao pensarmos sobre a saúde da nação, devemos reconhecer um fato básico: o custo dos cuidados de saúde é proibitivo para muitos milhões de nosso povo", declarou Truman na época.

"Ele substituiu o 'new deal' pelo que chamou de 'fair deal' e, como parte de sua agenda, se tornou o primeiro presidente dos Estados Unidos a endossar um plano nacional de seguro saúde e enviou ao Congresso a mensagem de que apoiava a legislação para criá-lo", diz Jonathan Oberlander, professor de medicina social da Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, à BBC News Mundo, o serviço de notícias em espanhol da BBC.

"Não estou falando apenas sobre os muito pobres ou muito ricos, mas sobre todos os milhões entre eles", esclareceu Truman.

"Essas pessoas às vezes são condenadas à morte simplesmente porque não são nem ricas nem pobres o suficiente para se conformarem ao esquema que temos neste país no campo da medicina moderna".

Reino Unido

Na época, o maior aliado dos Estados Unidos em tempos de guerra, o Reino Unido, estava elaborando os detalhes para lançar um novo e ambicioso sistema nacional de saúde baseado no atendimento gratuito.

Como a agência de notícias Pathe anunciou, "médicos, centros de saúde e hospitais britânicos ficarão sob o controle do Estado no Serviço Nacional de Saúde (NHS)...".

A partir de 5 de julho de 1948, "todo homem, mulher e criança poderá obter atendimento médico. Não haverá mais contas para pagar médicos" , explicou um funcionário britânico no relatório.

Embora os conselheiros de Truman estivessem interessados no plano do Reino Unido, o presidente deixou claro que não queria nacionalizar a saúde, ele apenas queria mudar o sistema de pagamento.

Plano

"Ele enfatizou que os médicos permaneceriam em seus consultórios particulares, que o governo não iria nacionalizar os hospitais ou gerenciá-los. Tudo o que Truman queria que o governo fizesse era organizar o pagamento dos cuidados médicos por meio de um programa de seguro", assinala Oberlander.

O programa de seguro seria obrigatório: por lei, todos os trabalhadores pagariam por sua assistência médica por meio de mensalidade ou imposto, que seria de aproximadamente 4% do seu rendimento.

A seguradora pagaria os hospitais, repartindo os custos pela população para que os mais desfavorecidos não fossem penalizados por ficar doentes.

"Há 110 milhões de pessoas neste país que não podem pagar pelos cuidados médicos adequados. Isso é uma pena no país mais rico do mundo", criticou o presidente.

Oposição dos médicos

Na verdade, os americanos mais progressistas vinham tentando aprovar um esquema de seguro saúde obrigatório desde 1915, influenciado pelo Reino Unido e pela Alemanha, que ofereciam auxílio-doença e tratamento médico gratuitos para alguns trabalhadores.

"Eles presumiram que venceriam porque estavam certos... e essa atitude definiu a mentalidade dos progressistas da saúde do século 20", diz Oberlander.

"Achavam lógico adotar o plano de saúde, que pagasse as despesas dos trabalhadores doentes, daria acesso aos cuidados médicos e deixaria a população mais saudável", diz o especialista em medicina social.

"Eles acreditavam que seu argumento era tão razoável que todos sairiam convencidos, mas acontece que argumentos sensatos muitas vezes não prevalecem."

E um dos principais motivos pelos quais a proposta não seguiu adiante foi a oposição dos médicos.

"Eles estavam preocupados com sua autonomia, a capacidade de praticar a medicina como bem entendessem e queriam manter sua autonomia financeira - estabelecer seus próprios termos de pagamento - não estar subordinados a seguradoras públicas ou privadas: eles queriam trabalhar de forma independente".

Saúde, riqueza e paz

Era comum os médicos se oporem a tais planos e, em 1946, tiveram sorte, pois o partido da oposição, o Republicano, assumiu o controle do Congresso e o projeto acabou engavetado.

Mas em 1948, Truman fez campanha para reconquistar o Congresso e eleger-se para um novo mandato como presidente.

E relacionou saúde com riqueza e paz.

"Melhor saúde significará mais prosperidade e uma nação mais poderosa. É nossa responsabilidade liderar o mundo em direção à paz duradoura", disse.

"Os Estados Unidos perdem US$ 27 bilhões por ano da riqueza nacional com doenças e invalidez. Acho que estes fatos demonstram a necessidade do programa nacional de saúde que insto ao Congresso que adote", disse o presidente.

"Ele venceu a eleição e foi uma grande surpresa, e os democratas ganharam a maioria no Congresso, então em 1949 Truman tinha toda a intenção de promover o seguro saúde nacional. Para a Associação Médica Americana, foi como a chegada do apocalipse", diz Oberlander.

"Lenin disse..."

Chocada, a entidade contratou uma empresa de relações públicas.

Naquela época, começava a Guerra Fria entre o leste comunista e o oeste capitalista, e a campanha dos médicos vinculava o seguro saúde nacional ao socialismo.

"Circulou uma citação que foi reproduzida por aquela empresa de relações públicas que dizia: 'Lenin declarou que a medicina socializada é a chave para o arco do Estado socialista'", lembra Oberlander.

"Parecia que a medicina socializada fazia parte de um plano para tornar a América comunista! A verdade é que Lênin nunca disse isso, o que não significa que essa citação tenha sido amplamente usada".

"Portanto, grande parte da campanha - que foi a campanha de lobby mais cara da época - se concentrou na ideia de transformar o debate sobre saúde em socialismo".

O governo Truman não tinha estratégia para neutralizar o efeito da campanha de relações públicas, exceto para dizer "eles estão mentindo".

Aliança

Mas, de acordo com o professor Oberlander, o fator crítico para o fracasso em aprovar a legislação foi o fato de o Congresso, embora dominado por democratas, ser impulsionado por um grupo maior de alianças partidárias tradicionalistas.

"A coalizão conservadora era uma aliança de republicanos e democratas do sul no Congresso. Como os afroamericanos não estavam representados, muitos dos democratas eleitos para o Congresso eram na verdade muito conservadores.

"Essa coalizão interrompeu não apenas o seguro saúde nacional, mas todos os outros planos de Truman. Como em tantas ocasiões, quando você explica a história americana, o papel do racismo é parte dessa história."

A batalha foi perdida.

Levaria anos até que o primeiro plano de seguro parcial do governo, o Medicare, fosse aprovado para idosos em 1965.

Mas Oberlander diz que a visão de Truman de cobertura universal, de saúde como um direito humano, ainda está muito distante da realidade americana.

"O que temos nos Estados Unidos não é um sistema de seguro saúde, mas um não sistema, e há acionistas nessa manta de retalhos, incluindo dezenas de milhões de americanos que estão felizes com o seguro saúde que têm, e eles resistem à mudança".

"O que perdemos de vista é o custo humano: se um trabalhador tem um membro da família com câncer, ele pode ir à falência... como isso pode acontecer em um país tão rico?

"Não deveria ser assim", conclui Oberlander.

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