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Argentina espionou famílias de tripulantes mortos em submarino

2.jun.2014 - Foto do submarino argentino ARA San Juan, que desapareceu com 44 pessoas a bordo em 15 de novembro de 2017 - Xinhua News Agency
2.jun.2014 - Foto do submarino argentino ARA San Juan, que desapareceu com 44 pessoas a bordo em 15 de novembro de 2017 Imagem: Xinhua News Agency
do UOL

Do UOL, em São Paulo

25/09/2020 10h40

O serviço de espionagem da Argentina investigou ilegalmente as famílias dos tripulantes do submarino San Juan, que desapareceu em 2017, com 44 pessoas a bordo. A embarcação foi localizada um ano depois.

Segundo reportagem do jornal The New York Times, autoridades de espionagem disseram que o órgão descobriu três discos rígidos mostrando que as atividades e as comunicações dos parentes eram monitoradas.

As acusações fazem parte de uma investigação sobre espionagem no governo do ex-presidente Mauricio Macri (2015-2019). Segundo a diretora da agência, Cristina Caamaño, o monitoramento não foi "ordenado nem autorizado por um juiz" e foi "ilegal".

"Não estamos falando de terroristas nem do crime organizado, e sim de um grupo de parentes que tentavam localizar seus entes queridos presos no submarino. Trata-se de um perverso caso de espionagem", afirmou Cristina em entrevista coletiva.

Ela foi incumbida pelo presidente Alberto Fernandéz de reformar a AFI (Agência Federal de Inteligência). Criado em 1946 por Juan Domingo Perón, o órgão tem um histórico antigo de acusações de monitorar opositores.

Segundo o jornal, a AFI chegou a ter mais de 20 mil agentes infiltrados na imprensa, em partidos e até na igreja. Há denúncias de que o aparato foi usado nas gestões de Carlos Menem (1989-1999), Néstor e Cristina Kirchner, que juntos ficaram no poder de 2003 a 2015, além da administração Macri.

Cristina disse ter enviado suas descobertas a um promotor, que decidirá se fará uma denúncia à Justiça. Alguns dos parentes disseram que exigirão punição. "Alguém precisa ser preso por causa disso. É imperdoável", disse Andrea Mereles, esposa de Ricardo Gabriel Alfaro Rodríguez, que estava a bordo do submarino.

Integrantes do governo Macri já haviam negado acusações de que a agência era usada para fins políticos. Nem ele ou o ex-diretor da agência, no entanto, comentaram acusações específicas de espionagem contra parentes dos tripulantes do submarino.

Segundo a reportagem, os parentes dos marinheiros já suspeitavam de espionagem porque seus celulares apresentavam falhas no funcionamento.

Cristina revelou que a agência tinha fotos de agentes seguindo parentes dos marinheiros e evidências de investigação de sua atividade nas redes sociais.

Os documentos achados agora tinham data de 2018 e 2019, o que significa que a espionagem continuou mesmo após o submarino naufragado ter sido localizado.

Implosão

Antes de desaparecer dos radares, o submarino reportou uma falha nas baterias, um curto-circuito seguido de um princípio de incêndio causado pela infiltração de água por meio do snorkel, um dispositivo que permite a entrada de ar da superfície quando ele está submerso.

Autoridades argentinas confirmaram à época que a embarcação sofreu uma implosão com a pressão que é causada quando o submarino ultrapassa o seu limite de profundidade, que era de 300 metros. Ainda que a embarcação tenha sumido com um suprimento de oxigênio que manteria a tripulação viva por até sete dias, a implosão teria provocado a morte quase instantânea dos 44 tripulantes que estavam a bordo.

Acredita-se que a implosão ocorreu duas horas após o último contato do submarino, em 15 de novembro de 2017.

Uma comissão no Senado da Argentina que investigou as causas do acidente concluiu no ano passado que ele foi fruto da ineficiência dos comandantes navais da Marinha, somado a investimento financeiro insuficiente por parte do governo.

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