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Em defesa, Witzel cita 'Jesus delatado' e nega ter apoiado extrema direita

do UOL

Igor Mello e Lucas Borges Teixeira

Do UOL, no Rio e em São Paulo

23/09/2020 20h34

O governador afastado do Rio de Janeiro do Rio, Wilson Witzel (PSC), começou sua defesa contra o relatório de impeachment na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro) citando Tiradentes e Jesus Cristo e afirmando passar por um processo "injusto" em meio a um "cenário extremista".

"A tirania escolhe suas vítimas e as expõem para que outras não mais se atrevam. Felizmente, a História mostra que mártires nunca morrem. Exemplos sempre são seguidos e exemplo maior nosso [é] Cristo Jesus, delatado e vendido entre seus apóstolos", afirmou Witzel, por meio de videoconferência. O governador foi alvo de delação premiada de seu ex-secretário da Saúde Edmar Santos.

Na defesa, que escolheu fazer sozinho, o governador afastado fala que sua situação é resultado de um contexto de enfraquecimento das democracias e citou a ascensão da extrema direita, que ele diz nunca ter apoiado. Witzel foi eleito governador na onda conservadora que elegeu o presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Witzel disse que não tem tido o direito à ampla defesa respeitado. "Eu fui afastado sem direito de falar, sem que a minha defesa pudesse se pronunciar", declarou.

Ele criticou também as prisões de deputados da Alerj em decorrência da Lava Jato, nos últimos anos, o que chamou de "movimento nefasto".

"Estou eu agora, senhores, alvejado pela mesma hipertrofia de órgãos que deveriam zelar e respeitar o voto popular e só intervir ainda mais com iniciativas tão drásticas após o devido processo legal, mas infelizmente não é isso que estou vendo acontecer", disse.

Segundo ele, a população fluminense está "atônita" por seu afastamento sem direito de defesa. "As ruas estão calmas, não por medo de covid, mas porque estão silenciadas, atônitas der ver um governador afastado sem direito de defesa."

'Renunciemos todos', diz Witzel

O governador afastado argumentou que ele não seria o único responsável caso seja comprovado que organizações criminosas operaram esquemas de corrupção em seu governo.

"Se as máfias continuaram atuando no estado do Rio de Janeiro, não é só a minha omissão que deve ser considerada, mas de todos nós. Por aí dizem: 'Governador, renuncie'. Então vamos fazer o seguinte: renunciamos todos e fazemos eleição no Rio de Janeiro para deputado e para governador", sugeriu Witzel, exaltado.

Porque todos somos omissos, todos aqui temos responsabilidade. Não queiram colocar só nos meus ombros a responsabilidade porque os senhores e as senhoras também foram omissos. Infelizmente, até o presente momento, só eu estou sofrendo linchamento moral

Ele alegou ainda que não foi encontrado "nenhum centavo" na sua conta e em nenhuma das duas buscas e apreensões "midiáticas e políticas" em sua casa.

"Nada, absolutamente nada foi encontrado. E não encontrarão porque não tenho milhões. Eu tenho minha casa no Grajaú [bairro da zona norte carioca], que é meu único patrimônio", afirmou Witzel.

O processo de impeachment

O plenário da Alerj aprovou hoje o encaminhamento do processo de impeachment do governador afastado do Rio ao TJ-RJ (Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro). Depois que o TJ acolher o documento, Witzel passará a ficar "duplamente afastado" — isso porque ele já havia sido afastado do cargo por 180 dias pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça) no final de agosto. Ele terá até seis meses para fornecer suas alegações a um tribunal misto —composto por cinco deputados e cinco desembargadores— que poderá decidir ou não pelo impeachment.

Os parlamentares aprovaram o relatório produzido pela Comissão de Impeachment da Alerj, que aponta supostas irregularidades cometidas por Witzel em compras e renovações de contratos para a área da saúde durante a pandemia do coronavírus. Em 77 páginas, o relator do processo de impeachment, Rodrigo Bacelar (Solidariedade), recomendou na semana passada que o plenário da Alerj opinasse em relação a supostas irregularidades praticadas pelo governo afastado.

A revogação por Witzel da desqualificação do contrato do Instituto Unir Saúde —que teria como sócio oculto o empresário Mário Peixoto, preso em maio— e supostos superfaturamentos em compras para combate à pandemia são mencionados. Em um trecho, Bacelar afirma não encontrar motivos para repasses de "vultuosos valores a uma empresa que foi punida por comprovadamente não prestar o serviço em sua plenitude" e diz que há "fortes indícios de dano ao erário".

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