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FinCEN Files: Bilionário associado a Putin pode ter burlado sanções e 'lavado milhões' por meio de banco britânico

Equipe de reportagem dos FinCEN Files - BBC Panorama

20/09/2020 18h00

Conta foi usada para evitar restrições financeiras dos EUA, sugere vazamento de documentos bancários.

Um dos amigos mais próximos do presidente russo Vladimir Putin pode ter usado o banco Barclays, em Londres, para lavar dinheiro e evitar sanções, apontam os FinCen Files, documentos secretos que revelam como os principais bancos permitiram dinheiro sujo em todo o mundo.

O bilionário Arkady Rotenberg conhece o presidente russo desde a infância.

Restrições financeiras, ou sanções, foram impostas a Rotenberg pelos Estados Unidos e pela União Europeia em 2014, o que significa que bancos ocidentais podem enfrentar sérias consequências por fazer negócios com ele.

O Barclays afirma que cumpriu todas as suas obrigações legais e de regulação.

Um vazamento de arquivos confidenciais americanos - os chamados "relatórios de atividades suspeitas" de bancos - revela como empresas que, acredita-se, são controladas por Rotenberg, mantinham contas secretas.

Os documentos, batizados de FinCEN Files (arquivos FinCEN - FinCEN é o órgão do governo americano que investiga crimes financeiros), foram analisados pelo programa Panorama, da BBC.

Círculo íntimo

Em março de 2014, os EUA aplicaram sanções econômicas à Rússia após a anexação da Crimeia, território que fica na Ucrânia.

O Departamento do Tesouro americano designou Rotenberg, 68, e seu irmão Boris, 63, "membros do círculo interno da liderança russa".

A dupla treinou na mesma academia de judô de Putin quando eram jovens.

Nos últimos anos, as empresas de Arkady Rotenberg construíram estradas, um gasoduto e uma estação de energia por meio de contratos concedidos pelo Estado russo.

O Tesouro dos EUA disse que os irmãos "forneceram apoio aos projetos favoritos de Putin" e "ganharam bilhões de dólares em contratos para a Gazprom e as Olimpíadas de Inverno de Sochi, concedidos a eles por Putin".

Em 2018, os EUA adicionaram o filho de Arkady Rotenberg, Igor, à sua lista de indivíduos sancionados.

O objetivo das sanções é isolar pessoas da lista de todo o sistema financeiro ocidental.

Ainda assim, os Rotenbergs parecem ter continuado a movimentar dinheiro no Reino Unido e nos EUA.

Arte e lavagem de dinheiro

Em 2008, o Barclays abriu uma conta para uma empresa chamada Advantage Alliance.

Os documentos vazados mostram que a empresa movimentou £ 60 milhões (R$ 417 milhões) entre 2012 e 2016. Muitas das transações ocorreram depois que os irmãos Rotenberg foram sancionados.

Em julho deste ano, uma investigação do Senado dos Estados Unidos acusou os Rotenbergs de usarem compras secretas de arte cara para escapar das sanções - uma das empresas envolvidas no esquema foi a Advantage Alliance.

Investigadores americanos concluíram que havia fortes evidências de que a Advantage Alliance pertencia a Arkady Rotenberg e que a empresa havia usado sua conta no Barclays em Londres para comprar milhões de dólares em obras de arte para ele.

Um relatório observou como "o sigilo, o anonimato e a falta de regulamentação criam um ambiente propício para a lavagem de dinheiro e evasão de sanções". As casas de leilão nos Estados Unidos e no Reino Unido "não conseguiram fazer perguntas básicas" sobre os compradores da arte.

Apesar das sanções, Arkady parece ter pago US$ 7,5 milhões (R$ 40 milhões) para adquirir o quadro La Poitrine, do surrealista René Magritte (1898-1967).

Em 17 de junho de 2014, uma empresa ligada a Arkady enviou o dinheiro de Moscou para a conta Barclays da Alliance em Londres. No dia seguinte, o Barclays enviou o dinheiro ao vendedor em Nova York.

Conta encerrada

Em abril de 2016, o Barclays iniciou uma investigação interna de várias contas que suspeitava estarem ligadas aos Rotenbergs.

Seis meses depois, o banco fechou a conta da Advantage após preocupações de que ela estivesse sendo usada para movimentar fundos suspeitos.

Mas os relatórios de atividades suspeitas que vazaram mostram que outras contas do Barclays com ligações suspeitas aos Rotenbergs permaneceram abertas até 2017.

Uma dessas empresas foi a Ayrton Development Limited.

De acordo com os arquivos, o Barclays suspeitava das atividades de Ayrton e concluiu que "[Arkady] Rotenberg é o verdadeiro dono de Ayrton".

O Barclays não comentou quando questionado pela BBC sobre quantas contas suspeita pertencerem aos Rotenberg.

Um porta-voz do Barclays disse: "Acreditamos que cumprimos todas as nossas obrigações legais e regulamentares, incluindo em relação às sanções dos EUA".

"Dado que o registro de um SAR [relatório de atividades suspeitas] não é em si evidência de qualquer delito real, nós apenas encerraríamos um relacionamento com o cliente após investigação cuidadosa e objetiva e análise das evidências, equilibrando possíveis suspeitas de crime financeiro com o risco de 'retirar do banco' um cliente inocente."

Os Rotenbergs não quiseram comentar.

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