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Especialista adverte: "Não nos livraremos das máscaras tão cedo"

Nina Haase

19/09/2020 12h11

Especialista adverte: "Não nos livraremos das máscaras tão cedo" - Em entrevista à DW, virologista alemão que desenvolveu o primeiro teste de covid-19 do mundo fala sobre o fim da pandemia e as regiões que mais preocupam. E antecipa um inverno difícil para a Europa.A ação direta e decisiva da chanceler federal Angela Merkel logo no começo da epidemia no país foi um dos fatores para o controle da covid-19 na Alemanha, segundo o virologista Christian Drosten.

Em entrevista à DW, o especialista alemão, que desenvolveu o primeiro teste de diagnóstico do mundo do Sars-Cov-2, avalia a situação da pandemia no mundo e projeta até quando ainda as máscaras de proteção serão indispensáveis.

DW: Por quanto tempo ainda vai persistir a pandemia causada pelo novo coronavírus?



Christian Drosten: É muito difícil fazer previsões em nível global. Temos muitas situações diferentes e difíceis na Europa. O inverno não vai ser fácil. Teremos vacinas no ano que vem, mas penso que determinadas parcelas da população só poderão ser vacinadas no fim de 2021.

Não nos livraremos das máscaras tão cedo. Pois, mesmo quando for iniciada a vacinação, a maioria da população ainda terá que usá-las. Em países como a Alemanha, onde há poucas infecções, não haverá uma imunidade ampla. Provavelmente também será assim nos demais países da Europa.

Já para outras regiões, é difícil fazer previsões. Na África, por exemplo, o curso da doença parece ser menos grave. Isso pode se dever à estrutura demográfica, mas no momento estamos observando apenas os centros urbanos, onde vivem muitos jovens. Não sabemos como o vírus se comporta quando se propaga nas áreas rurais. Também não sabemos como está a epidemia lá no momento. Há dados indicando que as infecções estão diminuindo, mas não sabemos se podemos generalizar. É possível que a epidemia esteja diminuindo nas cidades, mas também pode ser que esteja apenas começando.



Que regiões o preocupam mais?

A Índia me preocupa mais no momento, porque lá a densidade populacional é alta e o vírus está se alastrando – eu não diria que de forma descontrolada, mas quase. Depois, é claro, áreas da América do Sul. Já falei da África, uma pequena incógnita no momento. Mas também me preocupa o Hemisfério Norte, às portas do inverno, e há regiões, inclusive na Europa, com pouco controle sobre o vírus. Países onde é baixa a confiança nas estruturas médicas e nos cuidados de saúde já estão entrando no outono com muitos casos de coronavírus. Creio que muitas nações, também na Europa, muito em breve deverão adotar medidas mais rigorosas.

Outros países veem a Alemanha como uma espécie de modelo a ser seguido para lidar com a pandemia. O que os alemães estão fazendo certo?

Certamente há uma combinação de várias causas. Uma, sem dúvida, é a ação direta e decisiva da chanceler federal [Angela Merkel] no início da primeira onda. Ultimamente, a coesão dos estados federados enfraqueceu um pouco. Mas o fator decisivo foi com certeza o fato de a Alemanha ter agido muito rapidamente. Isso foi crucial. Não em termos da data do calendário, mas em relação ao momento em que foram impostas as restrições de contato – às vezes chamadas lockdown –, considerando a evolução real da epidemia. Assim, sabíamos de nossa epidemia com base em testes de laboratório. Eles e sua ampla disponibilização distinguem a Alemanha de outros países.



Outra explicação é que a epidemia começou um pouco mais tarde na Alemanha. Os primeiros casos importados de covid-19 não viraram epidemia já em janeiro, mas só no final de fevereiro. Os primeiros casos importados foram mantidos sob controle, em vez de se alastrarem. Esta é provavelmente a razão da eficiência da nossa abordagem. Após o lockdown, digamos a partir de meados de maio, houve na Alemanha apenas poucos casos, e isso não mudou, apesar de termos agora novamente um ligeiro aumento dos contágios.

Estamos às portas do outono e inverno no Hemisfério Norte. O que acha que vai acontecer na Alemanha?

Acho que há poucas diferenças entre os países europeus em termos de estrutura populacional e outros parâmetros. Devemos, portanto, olhar para os demais, França, Reino Unido, Espanha. O que virmos lá, veremos também na Alemanha, se não reagirmos em tempo de forma objetiva, mas suportável para a economia. É difícil encontrar o momento certo para mudar as medidas que temos no momento e sobre as quais não há o que criticar.

O senhor disse que provavelmente teremos que usar máscaras ainda por algum tempo. Quando poderemos abraçar novamente?

Essa será uma questão muito regional. Portanto, não me surpreenderia se em algumas partes do mundo no próximo ano a população estiver imunizada. Isso significa que ela terá passado por uma epidemia que pode não parecer tão grave por causa de sua estrutura etária. Na África, por exemplo, poderia ser esse o caso. Eu gostaria de ver a população africana protegida por causa de seu perfil etário mais jovem. Em outras partes do mundo, onde a meta é evitar a transmissão generalizada do vírus e esperar pela vacina, podemos contar com o uso de máscaras até o fim de 2021. É impossível fazer previsões precisas, mas no ano que vem ainda estaremos usando máscaras.

O professor Christian Drosten é diretor do Instituto de Virologia do hospital universitário Charité de Berlim. Em 2003, fez parte da equipe que descobriu o primeiro coronavírus, Sars. No início de 2020, desenvolveu o primeiro teste de diagnóstico do mundo do Sars-Cov-2. Desde o início da pandemia da covid-19, ele é considerado na Alemanha um dos principais especialistas no assunto.

Adaptação: Roselaine Wandscheer


Autor: Nina Haase

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