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Chefe das Farc diz que chegou a 'odiar' antiga guerrilha por atrocidades

15/09/2020 21h53

Bogotá, 16 Set 2020 (AFP) - Rodrigo Londoño, chefe da antiga guerrilha marxista das Farc, que assinou um acordo de paz na Colômbia, revelou nesta terça-feira que chegou a "odiar" a organização pelas atrocidades cometidas pelos rebeldes em seu longo conflito com o Estado.

Londoño, 61, também conhecido como Timochenko, assumiu em 2011 o comando das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e foi o último comandante do grupo, antes do seu desarmamento.

Timochenko reiterou a mensagem de perdão e arrependimento que o agora partido político Farc divulgou ontem, e admitiu que seus homens sequestraram, recrutaram à força e obrigaram mulheres a abortar.

No processo de ouvir as vítimas e reconhecer a verdade sobre o ocorrido ante um tribunal de paz, "vão sendo configuradas umas Farc que venho a odiar, porque não têm nada a ver com as Farc em que entrei", disse à Rádio Caracol o comandante máximo da antiga guerrilha.

O dirigente, que guiou milhares de guerrilheiros até a paz em 2016, após cinco décadas de luta pelo poder, afirmou, em outras entrevistas, que apenas quando assumiu o comando começou a se dar conta da "decomposição" da luta rebelde.

"Estamos fazendo uma reflexão. Você vai interiorizando isso, porque é difícil quando você defendeu algo por tantos anos, acreditando nisso", comentou o dirigente.

A ex-guerrilha responde por crimes atrozes ante a Justiça especial criada a partir dos acordos de paz que permitiram a desmobilização de cerca de 13 mil rebeldes, incluindo cerca de 7 mil combatentes. Os responsáveis devem confessar seus crimes e indenizar as vítimas de sua luta fracassada pelo poder, em troca de uma pena alternativa à prisão e da possibilidade de atuarem na política.

- Sequestro, aborto, menores -

Questionado pelos abortos forçados dentro das fileiras rebeldes,Timochenko confessou ter negado, a princípio, estes crimes, por considerá-los "propaganda para deslegitimá-los. Agora, tenho certeza de que, sim, ocorreram em certos lugares, que obrigaram as mulheres a abortar, e me parece um crime que não tem nenhuma justificativa."

O ex-chefe guerrilheiro admitiu que as Farc recrutaram adolescentes, mas que esta política, vista "em perspectiva" hoje, parece, para ele, "um equívoco".

Em sua declaração, Timochenko disse se sentir "impactado pela generosidade das vítimas ", e destacou que o depoimento duro de Ingrid Betancourt, sequestrada pelas Farc, "influenciou em seu arrependimento.

Ingrid fez ontem um relato de seus seis anos em cativeiro nas mãos dos rebeldes, durante depoimento remoto à Comissão da Verdade, de caráter extrajudicial, surgida do acordo de paz.

A Justiça de paz investiga mais de 20 mil sequestros realizados pelos rebeldes que depuseram as armas, o recrutamento de cerca de 8 mil menores e outros crimes.

Embora o desarmamento das Farc tenha aliviado a violência na Colômbia, ainda atuam no país grupos armados financiados pelo narcotráfico, que, nas últimas semanas, foram responsáveis por uma onda de massacres e assassinatos que têm, entre suas vítimas, ex-guerrilheiros.

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