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Quando um Boeing 737 fantasma voou sozinho por 3 horas até cair na Grécia

Boeing 737 da Helios que caiu na Grécia em 2005 - Wikimedia
Boeing 737 da Helios que caiu na Grécia em 2005 Imagem: Wikimedia
do UOL

Vinícius Casagrande

Colaboração para o UOL, em São Paulo

15/08/2020 04h00

Há 15 anos, a queda de um Boeing 737-300 da companhia aérea Helios nos arredores de Atenas (Grécia) deixava o mundo intrigado por se tratar de um voo "fantasma". No dia 14 de agosto de 2005, o avião voou por cerca de três horas sem ninguém nos comandos, até ficar sem combustível e cair. Todos os 121 ocupantes da aeronave morreram.

As investigações mostraram que a falta de pressurização fez com que pilotos e passageiros perdessem a consciência por hipóxia (falta de oxigênio). O piloto automático do Boeing 737-300 comandou a aeronave à espera de novas ordens dos pilotos até acabar o combustível.

Problema começou na manutenção

Os problemas do voo 522 da companhia aérea Helios, do Chipre, começaram ainda em solo. Em uma rotina de manutenção no aeroporto de Lanarca (Chipre), os mecânicos fizeram diversos testes para checar o sistema de pressurização do avião.

Para realizar esse serviço, precisaram alterar no painel do avião o sistema para o modo manual. Após o fim do trabalho, seria necessário retornar ao modo automático. Dessa forma, o avião seria pressurizado automaticamente à medida em que ganhasse altitude após a decolagem. No modo manual, os pilotos teriam de comandar a pressurização do avião, algo fora dos padrões de voo.

Apesar do erro dos mecânicos, a falha ainda poderia ter sido corrigida pelos próprios pilotos antes e até mesmo depois da decolagem. O botão que indica se o sistema está em manual ou automático deve ser checado durante o procedimento pré-voo, após a partida dos motores e após a decolagem. Durante essas verificações, nenhum dos pilotos percebeu a configuração incorreta.

Os efeitos da falta de pressurização

Durante o voo, conforme o avião ganha altitude, o ar fica cada vez mais rarefeito, com menos oxigênio. Com a pressurização, o ar da cabine se mantém equivalente a uma altitude de 8.000 pés (2.438 metros), uma condição segura para o corpo humano. Em altitudes mais elevadas, a falta de oxigênio dificulta a respiração e diminui o raciocínio do ser humano.

Com a diminuição da pressão do ar dentro do avião, um alarme sonoro chegou a soar dentro da cabine de comando. Os pilotos, porém, não conseguiram identificar o problema e chegaram a reportar uma falha no sistema de ar-condicionado.

Pelo rádio, os pilotos até conseguiram contato com o mecânico que fizera a manutenção antes do voo. Ao ouvir o problema, ele pergunta se o botão do sistema de pressurização está em "auto". Provavelmente já sofrendo com os efeitos da hipóxia, o comandante não entende a pergunta do mecânico e se levanta para desligar o alarme.

Voando no piloto automático

Se o problema fosse identificado a tempo, bastava girar um botão para que a pressurização fosse acionada. No entanto, o Boeing 737 continuava ganhando altitude sem ser pressurizado.

Ao atingir os 18 mil pés (5.486 metros), as máscaras de oxigênio caíram na cabine de passageiros. Nesse momento, boa parte dos passageiros ainda estava consciente e conseguiu vestir as máscaras. O problema é que o estoque de oxigênio dura apenas 15 minutos, o que seria tempo mais do que suficiente para o avião descer a uma altitude de segurança.

No caso do voo Helios 522, no entanto, o avião continuou seguindo a programação original do piloto automático. Apenas 13 minutos após a decolagem, os órgãos de controle de tráfego aéreo perderam contato com os pilotos do Boeing 737, mas o avião continuava ganhando altitude até chegar a 34 mil pés (10,4 mil metros). O Helios 522 seguiu em voo de cruzeiro até Atenas, o destino do voo.

Voando em círculo

Meia hora após a decolagem, o avião entrou no espaço aéreo de Atenas, mas sem fazer nenhum contato com os órgãos de tráfego aéreo. Já nos arredores da capital grega, o Boeing 737 começa a voar em círculo, cumprindo um padrão de espera em voo.

Sem conseguir contato de rádio com os pilotos, dois caças F-16 decolam para verificar de perto o que se passa com o avião da Helios. Até então havia o temor de que se tratasse de um possível sequestro do avião para um ataque terrorista.

Ao se aproximarem do Boeing 737, os pilotos dos dois F-16 avisaram que os passageiros estavam com suas máscaras de oxigênio, que o copiloto estava desmaiado sobre os comandos e que o assento do comandante estava vazio.

A surpresa maior veio quando o comissário Andreas Prodromou entrou na cabine dos pilotos e chegou a acenar para os pilotos dos F-16. Ele foi o único a se manter consciente durante o voo ao utilizar tubos extras de oxigênio. Andreas tinha licença de piloto comercial, mas nenhuma familiaridade com os comandos do Boeing 737. Ele tentou, mas não conseguiu assumir o controle do avião, que seguia voando no piloto automático.

Depois de voar em círculo por mais de duas horas, o motor da esquerda apaga por falta de combustível. Dez minutos depois, é a vez do motor da direita ser desligado. O avião inicia uma descida fatal até se chocar nas montanhas da cidade de Maratona, a cerca de 40 quilômetros de Atenas.

O que mudou na aviação após esse acidente?

A queda do avião da Helios gerou mudanças importantes nos aviões comerciais para evitar que falhas semelhantes voltem a acontecer. No caso de problemas de pressurização durante o voo, há um novo tipo de alarme para não haver dúvidas sobre qual é o problema. A intenção é evitar que mesmo sofrendo com a falta de oxigênio, os pilotos consigam identificar mais rapidamente o problema.

Modelos mais modernos adotaram sistemas automáticos que impedem que o avião atinja determinadas altitudes se a pressurização da cabine não estiver funcionando. Ou então que o avião desça no caso de despressurização do avião.

Com essas mudanças, as chances de um novo acidente com essas mesmas características se repetir são ainda mais raras.

Linha do tempo do voo Helios 522

  • 09:00 - Horário previsto para decolagem
  • 09:07 - Decolagem do aeroporto internacional de Larnaca (Chipre)
  • 09:12 - Ao atingir 12.040 pés (3.670 metros), soa o alarme de altitude de cabine
  • 09:14 - Piloto reporta problema no ar-condicionado
  • 09:20 - Último contato da tripulação com o controle de tráfego aéreo; avião cruza 28,9 mil pés (8.809 metros)
  • 09:23 - Atinge a altitude de cruzeiro aos 34 mil pés (10,4 mil metros)
  • 09:37 - Entra na região de informação de voo de Atenas. Controle de tráfego aéreo de Nicósia (Chipre) informa o controle de Atenas que perdeu contato de rádio com o avião
  • 10:12 - 10:50 - Nenhuma resposta aos chamados de rádio do controle de tráfego aéreo de Atenas
  • 10:45 - Horário previsto de pouso em Atenas
  • 10:54 - Centro de coordenação de resgate de Atenas é avisado possível avião sequestrado
  • 11:05 - Dois caças F-16 decolam em busca do Boeing 737
  • 11:24 - Avião da Helios é localizado pelos F-16 sobre a ilha de Aegean
  • 11:32 - Pilotos avistam o copiloto desmaiada, máscaras de oxigênio caídas na cabine de passageiros e nenhum sinal de terrorismo
  • 11:49 - Pilotos dos F-16 veem uma pessoa na cabine de comando, aparentemente tentando retomar o controle do avião
  • 11:50 - Motor da esquerda deixa de funcionar por falta de combustível
  • 11:54 - Gravador de voz da cabine registra cinco pedidos de socorro
  • 12:00 - Motor da direita deixa de funcionar
  • 12:04 - O Boeing 737-300 da companhia aérea Helios se choca com as montanhas próxima a Atenas, matando 121 pessoas

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