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AM: Soldado morto com tiro pode ter sofrido tortura, suspeita família

Jhonatha Corrêa Pantoja morreu atingido por tiro - Arquivo pessoal
Jhonatha Corrêa Pantoja morreu atingido por tiro Imagem: Arquivo pessoal
do UOL

Rosiene Carvalho

Colaboração para o UOL, em Manaus

10/08/2020 21h38

Uma semana após a morte do soldado Jhonatha Corrêa Pantoja, 18, com um tiro de fuzil no peito e hematomas nas costas, braços, dedos e cabeça dentro de unidade do Exército em Manaus, a família dele continua sem nenhuma resposta ou detalhe sobre o que ocorreu na madrugada no dia 3 de agosto, quando ele morreu.

Amigos e familiares suspeitam que Jhonatha tenha sido vítima de tortura e homicídio dentro da unidade militar e fizeram protestos em Manaus e Borba, cidade de origem do soldado e a 143 quilômetros de Manaus, exigindo respostas e justiça.

Procurados pelo UOL, o CMA (Comando Militar da Amazônia), a DEHS (Delegacia Especializada em Homicídios e Sequestros) da Polícia Civil do Amazonas e o IML (Instituto Médico Legal) não indicam a causa e a circunstância da morte nem em que ponto está a investigação sobre o caso.

Na certidão de óbito de Jhonatha, o IML (Instituto Médico Legal) apontou como causa da morte "anemia aguda hemorrágica", ferida cardíaca grave e ferida pulmonar grave.

O Hospital 28 de Agosto, para onde ele foi levado por uma equipe do 7º BPE (Batalhão de Polícia do Exército) após o tiro de fuzil na região do tórax, informou à reportagem que o soldado já chegou morto à unidade.

Notas não apontam circunstâncias da morte

Desde o dia 3 de agosto, o CMA (Comando Militar da Amazônia) emitiu três notas sobre o caso. Em nenhuma delas indica detalhes sobre o que ocorreu na madrugada na morte.

Nas notas, o CMA diz que Jhonatha foi "vítima de arma de fogo" e classifica a morte como "fato", sem apontar as circunstâncias de como o soldado foi alvejado com um tiro de fuzil durante a madrugada.

Na nota emitida no dia 4 de agosto, o CMA informou que "após ouvido um disparo", o plano de defesa do aquartelamento do 7º BPE foi acionado.

"O Soldado Jhonatha foi encontrado caído com o seu fuzil, o qual foi recolhido para a perícia do armamento", informa a nota. A nota do Exército diz que ele foi levado de imediato ao hospital e que saiu da unidade ainda com vida.

Serviço militar era realização de sonho

Jhonatha era de Borba e se mudou para a capital do Amazonas, no início deste ano, para realizar o sonho de servir ao Exército Brasileiro e ter a oportunidade de seguir carreira militar. Também foi aprovado num teste para ser goleiro de um time em Manaus, outro sonho. Mas deu prioridade à tentativa de carreira militar, o que considerava ser mais seguro para o seu futuro e como forma de ajudar os pais.

A família toda em Manaus e Borba apoiava o jovem a cada conquista, que Jhonatha relatava a todos pessoalmente ou por telefone. Uma que a mãe dele e tios relatam com emoção foi quando ele ganhou a farda e mostrou dizendo a mãe: "Não disse que ia dar orgulho para a senhora?".

Na segunda-feira, dia 3, às 7h30, mãe e tios foram surpreendidos com a informação de que ele estava morto e o corpo no IML.

Após passarem a manhã esperando a liberação do corpo, tiveram acesso a uma foto que mostrava um tiro no peito do jovem.

"Não nos informaram nada. Só que o corpo dele estava no IML", declarou a tia de Jhonatha, Aline Granjeiro, se queixando que nem a transferência dele ao hospital foi informada.

Quando o corpo foi para o velório, a família percebeu que o Jhonatha não tinha só marca de tiro. As costas dele estavam com marcas em formato retangular e roxas, as mãos e dedos também tinham marcas muito roxas, no braço, outras pequenas perfurações e, na parte de trás da cabeça, outras marcas com linhas vermelhas.

Aline afirmou que a família não vai se conformar enquanto não souber os detalhes da morte e que rejeita a hipótese de suicídio.

Para ela, a forma como o corpo estava e o silêncio da instituição são indicações de que algo errado ocorreu com o sobrinho dentro da unidade militar. "Temos que saber o que ocorreu. Não aceitamos essa desculpa que foi suicídio", disse.

O tio Valdionor Maciel, 40, disse que o sobrinho era muito amado por todos e que amigos e familiares estão se mobilizando para pagar advogados e até fazer uma perícia independente para ter respostas sobre o que ocorreu com o jovem. A despesa do traslado do corpo de Jhonatha para Borba foi feita pela prefeitura da cidade. O enterro dele mobilizou a população e muitos acompanharam o corpo até o cemitério.

"Não vamos nos calar. O Jhonathan era muito importante em nossas vidas. Sei que outras mortes já ocorreram lá e ficou por isso mesmo. Mas nós não vamos nos calar", disse o tio Valdionor.

A família relata dificuldade até para falar com colegas de serviço do soldado, dizem que todos temem represálias. Os tios se queixam ainda de não receber nenhum tipo de apoio institucional após a morte do sobrinho e da presença de militares descaracterizados durante o velório.

"Parece que foram colocados lá para vigiar o velório ao invés de nos apoiarem", disse.

Soldado relatou trotes, diz tia

Segundo Aline, o sobrinho por vezes se queixava de "trotes" que ocorriam durante o serviço de "ordem" para que um soldado enfrentasse com força o outro.

"Ele dizia que não gostava de fazer aquilo com os colegas nem que fizessem com ele. Teve dias em que chegava cansado. Mas dizia que estava indo bem, resistindo bem e que achava que tinha condições de continuar para tentar a carreira", afirmou.

A reportagem solicitou respostas ao CMA, ao Ministério Público Militar e à Auditoria Militar, por e-mail e telefone, sobre a noite em que o soldado morreu na unidade. Nenhuma das instituições respondeu às perguntas. O CMA enviou as três notas que já haviam sido publicadas na semana passada sobre o caso.

Segundo o CMA, um IPM (Inquérito Policial Militar) foi aberto para apurar "todas as circunstâncias que envolveram o fato" e que o mesmo é acompanhado pelo MPM. O inquérito tem prazo de 40 dias para ser concluído.

A DEHS Polícia Civil do Amazonas, que tem obrigação de apurar o caso, foi procurada pela reportagem, mas também silenciou sobre a investigação.

A mãe do soldado, a professora Kelianne Pantoja, 32, disse que desde a notícia da morte não sabe o que pensar a respeito do que ocorreu com o filho.

"Eu sempre me sentia confiante. Quando ele estava lá, me sentia segura. Aí, veja o que aconteceu. Meu filho, cheio de sonhos, cheio de boas perspectivas na vida, trabalhador, esforçado", afirmou a mãe chorando por ligação à reportagem do UOL.

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