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"Não quero que ninguém sinta o que eu senti": Nagasaki lembra os 75 anos da bomba atômica

Momento de silêncio em cerimônia em memória aos 75 anos do ataque a Nagasaki, no Japão - Jiji Press/AFP
Momento de silêncio em cerimônia em memória aos 75 anos do ataque a Nagasaki, no Japão Imagem: Jiji Press/AFP

Frédéric Charles

No Japão

09/08/2020 08h27

Três dias após Hiroshima, é a vez de Nagasaki lembrar neste domingo (9) os 75 anos da bomba atômica. As homenagens, que contaram com testemunhos de sobreviventes, tiveram de ser adaptadas devido à pandemia de coronavírus.

Em 9 de agosto de 1945, os Estados Unidos lançavam uma outra bomba atômica sobre Nagasaki, no sul do Japão. O ataque deixou cerca de 75 mil vítimas, 20 mil morreram segundos após a explosão.

Para marcar os 75 anos da tragédia, uma cerimônia foi realizada no Parque da Paz, centro da cidade, que teve 80% de sua estrutura destruída. Uma missa também foi celebrada em memória às vítimas na catedral próxima ao epicentro da explosão.

Às 11h02 local (2h02 GMT), hora exata em que a bomba foi lançada, o sino do monumento da paz de Nagasaki soou e os participantes da cerimônia realizaram um minuto de silêncio. Sobreviventes e familiares das vítimas carregavam recipientes de madeira com água, para lembrar os apelos dos moradores atingidos pela explosão, que agonizavam de sede.

Cenas que o sobrevivente Shigemi Fukahori, de 89 anos, veio testemunhar na cerimônia transmitida pelo canal público NHK. Ele relata ter visto "pilhas de corpos carbonizados", ter presenciado a morte de amigos e de todos os seus irmãos e irmãs. "Não quero que ninguém sinta o que eu senti naquele momento", afirmou.

Apelo ao governo

Em discurso, o prefeito de Nagasaki, Tomihisa Taue, fez um apelo para que o governo japonês assine o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares da ONU, já ratificado por cerca de quarenta países. No entanto, o Japão, a primeira nação vítima de uma bomba atômica no mundo, continua se recusando a tomar a medida.

Presente durante as cerimônias, o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, não respondeu ao prefeito de Nagasaki. O principal motivo é a ameaça da Coreia do Norte contra o Japão. Tóquio não quer abrir mão de suas capacidades de defesa contra Pyongyang. Por isso, o premiê tenta modificar a Constituição para se dotar, se necessário, de armas atômicas.

Em uma mensagem de vídeo publicada na última quinta-feira (6), por ocasião do aniversário de 75 anos da bomba atômica em Hiroshima, o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, lamentou que o objetivo de eliminar as armas atômicas não tenha sido concretizado até hoje. "Um mundo sem armas nucleares parece cada vez mais distante", afirmou.

Em visita a Hiroshima e Nagasaki no ano passado, o papa Francisco também expressou sua oposição às armas atômicas, que classificou de "crime". O sumo pontífice afirmou que deseja introduzir a condenação do uso e da posse de armas nucleares dentro dos ensinamentos da Igreja católica.

"Fat man": 21 toneladas de TNT

Em 6 de agosto de 1945, a bomba "Little Boy" matou quase 140 mil pessoas na cidade portuária de Hiroshima. Muitas vítimas morreram no ato e várias em consequência dos ferimentos ou da radiação durante as semanas e meses seguintes.

Três dias depois, as forças militares dos Estados Unidos lançaram outra bomba atômica, "Fat Man", em Nagasaki. O artefato tinha uma potência superior ao de Hiroshima, com 21 toneladas de TNT.

As duas bombas, que tinham uma capacidade de destruição inédita naquele momento, levaram o imperador Hirohito a anunciar, em 15 de agosto de 1945, a rendição aos Aliados, o que marcou o fim da Segunda Guerra Mundial.

O governo dos Estados Unidos nunca pediu desculpas oficialmente. Em 2016, Barack Obama se tornou o primeiro presidente americano em exercício a visitar Hiroshima, onde prestou homenagem às vítimas e fez um apelo por um mundo sem armas nucleares.

"Hibakusha": os sobreviventes

Quase 136.700 sobreviventes de Hiroshima e Nagasaki, conhecidos como "hibakusha" no Japão, têm em média 83 anos e desejam passar o testemunho para as novas gerações. Com a ajuda de outros ativistas, eles criaram arquivos de memória, na forma de depoimentos, poemas ou desenhos. Apesar das iniciativas, muitos temem a perda de interesse em sua herança após a morte dos sobreviventes e a persistência da ameaça nuclear.

No fim de julho, às vésperas do aniversário de 75 anos das tragédias, um tribunal reconheceu, pela primeira vez, 84 japoneses atingidos pela chuva radioativa que caiu após as explosões nucleares como sobreviventes de Hiroshima. A partir de agora, esses idosos terão atendimento médico gratuito.

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