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Líbano: Explosão gera risco de desabastecimento e ameaça 928 mil refugiados

do UOL

Igor Mello

Do UOL, no Rio

06/08/2020 04h00

A explosão no porto de Beirute, capital do Líbano, ameaça provocar um grave desabastecimento de alimentos e outros insumos básicos no país, que abriga hoje a maior concentração de refugiados do mundo. Para órgãos internacionais, a situação das 928 mil pessoas que fugiram para o Líbano —quase todas por conta da guerra civil na Síria— tende a piorar.

Segundo dados do Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados), 98% do total de refugiados em território libanês é de sírios —há também um contingente de palestinos no país. Os 928 mil expatriados equivalem a 13,6% da população do Líbano —de longe o maior percentual de refugiados entre os países que mais receberam pessoas nessa situação.

As condições dos refugiados, já agravadas pela pandemia de covid-19 e pela crise econômica, devem ser afetadas pela iminência de um desabastecimento em todo o Líbano. À Agência Reuters, o ministro da Economia, Raoul Nehme, afirmou que o país tem estoques de grãos para alimentar seus cidadãos por menos de um mês —para dar segurança alimentar à população, os estoques devem ser suficientes para três meses, segundo ele.

Os sírios vivem em condições degradantes no Líbano. Parte deles mora em acampamentos mantidos pela ONU (Organização das Nações Unidas), enquanto outros tentam obter sustento em Beirute e outras cidades libanesas.

Relatório do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários aponta que atualmente 55% dos sírios vivem com menos de US$ 2,90 (R$ 15,35) por dia —valor abaixo da linha da pobreza, segundo o Banco Mundial. A entidade ainda afirma que "a maioria dos refugiados não tem acesso suficiente aos serviços e infraestrutura básicos de água, saneamento e higiene".

Já a Acnur, em diagnóstico sobre os riscos da pandemia para os refugiados em território libanês, aponta para o risco de "despejos de refugiados com confirmação ou suspeita de covid-19, ou despejos coletivos arbitrários". E destaca que "é cada vez mais difícil convencer os proprietários a proporcionar mais prazo para o pagamento do aluguel, com eles próprios dependentes dessa renda para sobrevivência".

População de rua em Beirute

Segundo Muna Omram, pós-doutora em Estudos Literários pela UFF (Universidade Federal Fluminense) e pesquisadora do Grupo de Estudos e Pesquisas do Oriente Médio, a situação dos sírios tem se agravado rapidamente com a ruína econômica do país.

"Eles já vivem em uma situação de muita vulnerabilidade. O que pode acontecer [com a explosão] é isso piorar e ficar mais exposto do que já é. Ao andar pelas ruas de Beirute são visíveis os refugiados em situação de rua, pedindo dinheiro para sobreviver", lamenta a pesquisadora, que é descendente sírio-libanesa e vai anualmente ao país.

Muna afirma que os refugiados são excluídos pelo Estado libanês e acabam tendo que optar entre permanecer em acampamentos precários ou tentar sobreviver com trabalhos degradantes em cidades como Beirute.

"Eles são subempregados. Muitos só conseguem trabalhar como empregados domésticos, em circunstâncias análogas à escravidão. Isso é inclusive alvo de investigação na ONU", destaca.

A prática a que Muna se refere é conhecida como kafala e consiste em um sistema no qual todo imigrante sem qualificação profissional precisa de um patrocinador para permanecer no Líbano —a prática também existe em outros países do Oriente Médio. Esse patrocinador, muitas vezes o empregador desse trabalhador, é o responsável por seu visto.

Em 2019, a Anistia Internacional cobrou que o governo libanês proibisse a prática que, nas palavras da organização de direitos humanos, "envolveu os trabalhadores domésticos imigrantes em uma rede de pesadelos que abrangem de situações de exploração de seu trabalho a trabalhos forçados e tráfico de pessoas".

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