PUBLICIDADE
Topo

Notícias

BC deixa porta aberta para cortar taxa básica de juros abaixo de 2%

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

do UOL

05/08/2020 18h53

O corte de 0,25 ponto percentual da taxa básica de juros (taxa Selic) pelo Comitê de Política Monetária (Copom), no início da noite desta quarta-feira (5) já estava na aposta dos analistas, no movimento da Bolsa e, mais concretamente, aparecia refletido na trajetória da curva de juros futuros. Assim, os juros básicos chegaram, por decisão unânime dos diretores do Banco Central, ao mínimo histórico de 2% nominais ao ano.

Cumpriu-se o que o BC vinha prometendo em sua comunicação com o mercado desde a última reunião do Copom, em meados de junho. Na ocasião, o comunicado e depois a ata do encontro já sinalizavam que sobrava espaço para um corte "residual" na Selic, embora também já fossem mencionadas preocupações com os impactos fiscais, tidos como negativos para a economia, dos programas de combate à pandemia do Covid-19, com as devidas repercussões na dívida pública.

O comunicado emitido no fim da reunião de agosto traça um cenário mais otimista com relação às tendências da economia. Mas são tantas as ressalvas anotadas que talvez fosse melhor dizer que o BC está vendo o futuro próximo com menos pessimismo. Parte desse sentimento vem do relaxamento das medidas de distanciamento, na Europa e na Ásia, coincidindo com sinais de retomada da atividade econômica, ainda que temores de segundas ondas de contágio mantenham presentes muitas incertezas.

Não fossem essas incertezas, é possível que o Copom fosse mais explícito em anunciar uma pausa no longo ciclo de cortes da taxa básica, iniciado em outubro de 2016, com a Selic descendo para 14%, depois de permanecer por mais de um ano em 14,25%. O Comitê, porém, mesmo destacando os riscos que novos cortes nos juros básicos possam trazer para a estabilidade financeira, voltou a deixar porta aberta para ir além na redução d a taxa Selic. São reais, a julgar pela argumentação contida no comunicado da reunião de agosto do Copom, as possibilidades de que a taxa básica encerre 2020 abaixo de 2%.

O dilema que se coloca para o BC chega a ser curioso. É preciso escolher entre refrear os cortes da taxa Selic, para evitar instabilidades financeiras e distorções na administração da dívida pública, deixando assim de cumprir o que determina o sistema de metas de inflação, ou perseguir o estabelecido com as metas, reduzindo ainda mais os juros básicos, com seus eventuais efeitos sobre a administração da dívida pública e o ambiente financeiro.

A inflação vem correndo abaixo do piso do intervalo do sistema de metas, com projeção para encerrar ano em nível inferior a 2%, uma tendência reforçada pela trajetória dos núcleos de inflação, que permanecem ainda mais distantes dos parâmetros de controle estabelecidos pelas metas. Só para lembrar, em 2020, o alvo é uma inflação de 4%, podendo se situar dentro de um intervalo que vai de 2,5% a 5,5%.

Tomando como referência os termos do comunicado da reunião do Copom de agosto, o BC mira agora o alvo do sistema de metas para 2021 (3,75%) e 2022 (3,5%). Para 2020, parece já ter se conformado com a exigência, definida no sistema de metas, que seu presidente envie uma carta se desculpando por não ter conseguido manter a inflação no intervalo da meta e anunciando medidas para acertar o alvo em 2021.

O novo corte da taxa Selic para seu nível mais baixo reforça as tendências de alta na Bolsa, pois representa um reforço nos estímulos para a procura pelos investidores de alternativas de renda variável. Depósitos de poupança e fundos de renda fixa, sobretudo os carregados em papéis pós-fixados, já afetados anteriormente pelos juros cada vez mais baixos, se tornam agora ainda menos atraentes.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Notícias