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A prisão de Uribe e seu efeito dominó afetam presidente da Colômbia

05/08/2020 19h16

Bogotá, 5 Ago 2020 (AFP) - O poderoso Álvaro Uribe engrossa a lista de ex-presidentes latino-americanos envolvidos com a justiça.

Na Colômbia, sua prisão domiciliar atinge principalmente seu sucessor, o presidente Iván Duque, que tenta levantar um país em crise devido à pandemia.

A Suprema Corte abalou o mundo político com a decisão de confinar em casa o também senador e líder natural do partido no poder, enquanto o investiga e decide se o julga por manipular testemunhas contra um parlamentar da oposição.

Um dia depois da ordem de prisão, o mentor político de Duque testou positivo para o novo coronavírus, informou seu partido nesta quarta-feira (5).

Uribe, de 68 anos, contraiu a COVID-19, "mas está bem de saúde", informou à AFP o Centro Democrático.

Desde cedo, veículos de imprensa locais especularam sobre seu estado de saúde, após uma junta médica entrar na fazenda El Ubérrimo, onde o político se encontra, no departamento de Córdoba (norte).

Uribe governou o país entre 2002 e 2010. Ele responde como membro do parlamento, portanto só pode ser julgado pelo tribunal superior, que emitiu a ordem alegando "possíveis riscos" de obstrução à justiça.

Ele "é uma figura altamente reconhecida na Colômbia, mas também controversa", afirma à AFP Felipe Botero, cientista político da Universidade de Los Andes. O fundador do partido Centro Democrático (CD) desperta paixões como ninguém na Colômbia.

Ferrenho opositor ao acordo de paz de 2016 com as Farc, a ex-guerrilha que ele acusa de ter matado seu pai, Uribe divide a opinião pública desde então.

Na terça-feira, caravanas e panelaços demonstraram apoio e rejeição.

O político colombiano mais influente deste século é admirado por sua mão forte contra os rebeldes e odiado, com igual fervor, por vários escândalos de corrupção e violações de direitos humanos em seu círculo próximo.

Duque endossou a dor dos uribistas: que seu líder tenha que se defender na prisão, enquanto ex-guerrilheiros - alguns também senadores - o fazem em liberdade enquanto "dilaceram o país com a barbárie".

- Fogo amigo? -O futuro da direita, que recuperou o poder na figura de Duque, um político inexperiente, depende em grande parte do destino de Uribe, que na sexta-feira completou dois dos quatro anos de seu mandato de senador.

Duque "está sob grande pressão porque já enfrentou um incêndio econômico e social (devido à pandemia), e agora pode ter um incêndio político e até um incêndio institucional", diz o cientista político Álvaro Forero.

Além da instabilidade causada pela prisão de Uribe, Duque passou a ser pressionado por seu partido, depois de ser criticado por atuar como um "defensor público" de seu mentor e abster-se de se referir a um processo judicial.

Nesta quarta-feira, o CD propôs reformar a justiça através de uma assembleia constituinte, ou seja, mudar a Constituição de 1991 para "aliviar" o peso de Uribe, segundo a senadora Paloma Valencia.

Para a legenda de direita, seu líder é vítima de perseguição e é necessário "despolitizar" os tribunais e abrir caminho para um tribunal único que dê garantias aos investigados, o que implicaria a dissolução do Supremo Tribunal.

Mas isso apenas "enfraquece Duque, porque atinge o prestígio do partido e fortalece os setores radicais", que querem "vingança contra a Suprema Corte", diz Forero.

O chefe de Estado apoiou uma reforma do Judiciário, mas evitou fazer o mesmo com a Constituição, considerando o longo processo parlamentar.

Por enquanto, o caso Uribe impede a "paz e unidade política" necessárias para administrar a pandemia com mais de 300.000 infecções e 11.300 mortes.

- A justiça como inimiga -Uribe é o primeiro ex-presidente colombiano a receber uma ordem de prisão, mas o fenômeno não é novo na América Latina.

Ex-presidentes populares como Lula, Cristina Kirchner, na Argentina, Rafael Correa, no Equador ou Ricardo Martinelli, no Panamá, respondem processos por escândalos de corrupção, com o argumento comum da perseguição política.

No entanto, não é a primeira vez que Uribe enfrenta a justiça.

Em 2010, ao fim de seu segundo mandato, o Tribunal Constitucional frustrou sua intenção de concorrer novamente ao cargo através de uma nova reforma da Carta Política.

Três de seus ex-funcionários foram condenados por espionar magistrados, oponentes e jornalistas.

Uribe nunca quis se afastar da política, rejeita que a justiça de paz acordada com as FARC julgue os piores crimes do conflito e mais de uma vez questionou a imparcialidade dos altos magistrados.

Mauricio Jaramillo, analista da Universidade do Rosário, destaca os tribunais como "protagonistas na política colombiana". Assim, o prestígio do poderoso Uribe ficou nas mãos dos juízes.

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