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Justiça da Colômbia ordena captura de ex-presidente Álvaro Uribe

04/08/2020 22h12

Bogotá, 5 Ago 2020 (AFP) - A Suprema Corte colombiana determinou nesta terça-feira (4) a captura do ex-presidente e senador Álvaro Uribe, o político mais influente da Colômbia deste século, no âmbito de um processo contra ele por manipulação de testemunhas contra um opositor.

A corte informou em um comunicado que o ex-presidente (2002-2010) "cumprirá a privação da liberdade em sua residência e dali poderá continuar exercendo sua defesa com todas as garantias do devido processo".

O próprio Uribe, líder do partido no poder, informou horas antes a decisão unânime dos juízes.

"A privação da minha liberdade me causa profunda tristeza por minha esposa, por minha família e pelos colombianos que ainda acreditam que fiz algo bom pela Pátria", escreveu em sua conta no Twitter.

Agora ele terá que aguardar, detido preventivamente, por sua eventual convocação pela Suprema Corte para se apresentar em juízo. O máximo tribunal o julga na qualidade de legislador.

O ex-presidente, de 68 anos, que sempre alegou inocência e conta com um apoio popular sólido após sua política de linha dura contra as guerrilhas de esquerda, poderia responder por propina e fraude processual, crimes que são punidos com oito anos de prisão, em média.

O presidente Iván Duque fez uma ferrenha defesa de seu mentor político e fundador do partido Centro Democrático.

"Sou e serei sempre um crente na inocência e respeitabilidade de quem com seu exemplo conquistou um lugar na história da Colômbia", reagiu Duque em mensagem publicada nas redes sociais.

- Guinada inesperada -Nesta terça, simpatizantes do ex-presidente convocaram carreatas de protesto em Bogotá, devido à proibição pela Prefeitura de organização de passeatas ou aglomerações devido às medidas de isolamento para conter a propagação do novo coronavírus.

Alguns panelaços contra e a favor foram ouvidos esta noite.

Uribe, que havia sido interrogado pelos magistrados em outubro, terminou envolvido em uma guinada inesperada da justiça.

Em 2012, ele apresentou uma denúncia contra o senador de esquerda Iván Cepeda por suposto complô contra ele, apoiado em testemunhos falsos.

O líder político afirma que Cepeda - um de seus maiores adversários políticos e testemunha no processo que corre contra ele - contatou ex-paramilitares presos para envolvê-lo em atividades criminosas de grupos de extrema direita que combateram sem trégua as guerrilhas esquerdistas.

Mas a corte se absteve de denunciar Cepeda e, ao contrário, decidiu abrir em 2018 uma investigação contra o ex-presidente sob a mesma suspeita: manipular testemunhas contra seu opositor.

"A lição que esta decisão nos dá hoje, que esperamos conhecer (...) em todos os seus detalhes (...), é que não há indivíduos, não há pessoas que estejam acima da justiça e da lei na Colômbia, por mais poderosas e influentes que sejam", reagiu Cepeda em mensagem à imprensa.

"Convidamos todos os cidadãos a encarar esta situação com total serenidade", acrescentou, enfatizando que o ex-presidente "terá todas as ferramentas, os recursos, procedimentos que existem para garantir seu direito à justiça", caso seja chamado a juízo.

Além deste expediente, Uribe está vinculado a outras investigações penais por supostos vínculos com grupos de ultradireita que enfrentaram clandestinamente as guerrilhas durante o longo conflito civil colombiano.

Durante seu governo também veio à tona o maior escândalo envolvendo as forças armadas, o da execução de centenas de civis que foram apresentados como rebeldes mortos em combate.

- Mais polarização -Apesar disso, Uribe é um político popular, que tem sido determinante na eleição de seus sucessores. Hoje, é o senador mais votado e influente do país.

Também levantou bandeiras contra o acordo de paz assinado pelo ex-presidente Juan Manuel Santos (2010-2018) com as Farc, a antiga guerrilha que dizimou militarmente. O acordo pacto o rompimento entre os dois dirigentes.

Antecipando-se à corte, o Centro Democrático intensificou nos últimos dias a campanha pela "honra do seu líder".

Simpatizantes do governo consideram injusto que Uribe acabe preso, enquanto seus inimigos, os ex-líderes as Farc, respondem em liberdade perante a justiça de paz criada para punir os crimes mais atrozes cometidos durante o conflito colombiano.

Duque sugeriu essa opinião em sua mensagem de apoio ao ex-presidente.

"Dói como colombiano que muitos dos que laceraram o país com a barbárie se defendam em liberdade ou, inclusive, tenham garantido nunca ir à prisão, e que a um servidor público exemplar, que ocupou a mais alta dignidade do Estado, não lhe permitam se defender em liberdade", disse.

Analistas como Felipe Botero, cientista político da Universidade dos Andes, acreditam que a detenção de Uribe aprofundará o abismo provocado pelo acordo de paz com as Farc em 2016.

Seus seguidores "vão questionar a corte e apresentar Álvaro Uribe como uma vítima de perseguição. Provavelmente a polarização vá se exacerbar", comentou.

Com a decisão da corte, a Colômbia passa a engrossar o expediente de ex-presidentes populares latino-americanos que terminaram perante a justiça.

Ocorreu com Lula no Brasil, Cristina Kirchner na Argentina, Rafael Correa no Equador, Alberto Fujimori no Peru e Ricardo Martinelli no Panamá.

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