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Para familiares, profissionais da saúde vítimas da covid-19 foram abandonados pela França

Talita Raque dos Santos, enfermeira do Hospital Universitário da USP - Karime Xavier / Folhapress
Talita Raque dos Santos, enfermeira do Hospital Universitário da USP Imagem: Karime Xavier / Folhapress

14/07/2020 09h52

Familiares de médicos generalistas vítimas da covid-19 testemunham no jornal Libération de hoje sobre o abandono destes profissionais que tiveram que atender doentes sem material de proteção no começo da pandemia, na França.

Entre os entrevistados está Hakima Djemoui, assistente hospitalar no bairro popular de Champigny-sur-Marne, na região parisiense, que perdeu o marido, o médico generalista Ali Djemoui, em abril. Assim como vários outros cidadãos franceses, ela decidiu denunciar o Estado nos tribunais por "omissão" e, em seu caso, também por "homicídio culposo". "Eu quero que respeitem o sacrifício de meu marido, que reconheçam o abandono dos médicos liberais e os erros políticos."

Durante os primeiros dias da crise sanitária, o casal manteve o consultório aberto e continuou atendendo pacientes. Mas devido à escassez de material de proteção, eles contavam com apenas 18 máscaras por semana, que também eram distribuídas aos doentes mais frágeis.

Djemoui foi convidada para assistir a homenagem aos profissionais de saúde, durante as comemorações do 14 de julho, realizadas este ano na Praça da Concorde, em Paris, na tribuna presidencial. Ela diz que pretende aproveitar a ocasião para falar com o presidente sobre a "responsabilidade" dele nessa crise.

Contaminações entre profissionais de saúde

A taxa de contaminação global entre profissionais da saúde na França foi de 2,3%, chegando a 3,7% na região parisiense. Estes números provisórios são mais elevados que o índice de infecção na população em geral, que teria sido de 0,25%.

Segundo Libération, as categorias mais contaminadas pela doença na França são enfermeiras, (29% dos infectados), e auxiliares médicos e cuidadores (24%). Com relação à mortalidade no setor público de saúde, 16 profissionais morreram, entre eles, 5 médicos, 4 auxiliares e cuidadores e uma pessoa cuja profissão não foi revelada, além de 6 outros trabalhadores que desenvolviam funções no setor hospitalar.

Mas o jornal lembra que apenas um estudo serológico dos profissionais de saúde poderia revelar o verdadeiro número de contaminados. Estudos desse tipo estão sendo realizados com o pessoal de um hospital de Estrasburgo, no leste da França, uma das regiões mais atingidas do país.

Segundo as primeiras observações do estudo, a proporção de profissionais contaminados poderia não ser superior a da população em geral, estimada em 11% pelo Instituto Pasteur apenas na região leste da França. De acordo com a diretora do Instituto de Virologia dos Hospitais Universitários de Estrasburgo, Samira Fafi-Kremer, que idealizou o estudo, os profissionais "se protegem razoavelmente bem nos hospitais e uma grande parte das contaminações parece acontecer fora dos estabelecimentos, no dia-a-dia", afirma Kremer. Alguns serviços que tratam casos de covid-19 não informaram nenhuma contaminação.

Para os profissionais liberais de saúde, a situação é diferente. Segundo uma pesquisa da Rádio France com profissionais do SOS Médicos, que atendem emergências nas casas dos pacientes, 16% dos 1.300 trabalhadores, foram contaminados, 20% dos casos em Paris. A Ordem Nacional dos Médicos estima que 2,8% dos generalistas foram infectados.

Protestos

Seis organizações médicas e sindicatos convocaram uma manifestação nesta terça-feira em Paris contra para protestar contra a reforma da área da Saúde proposta pelo presidente, que tinha o objetivo de revalorizar os profissionais da saúde.

Mas após sete semanas de negociações, os acordos salariais e os investimentos previstos de 7,5 bilhões de euros foram julgados insuficientes por representantes das categorias.

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