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Torcida de acrílico e som via app: o público na volta do futebol brasileiro

Divulgação
Imagem: Divulgação
do UOL

Renato Pezzotti

Colaboração para o UOL, em São Paulo

13/07/2020 04h01

O futebol brasileiro volta, aos poucos, aos gramados. Ontem, Flamengo e Fluminense fizeram a primeira partida pela final do Campeonato Carioca. O torneio catarinense já voltou com algumas partidas. Os campeonatos paulista e gaúcho retornam na semana que vem.

Mas, pelo menos por aqui, os estádios continuarão sem a presença do público. Como os times pretendem envolver o torcedor de forma virtual, nas arquibancadas, ou levar a emoção dos jogos para dentro das casas dos fãs? Como os clubes vão solucionar a questão do "silêncio" nos estádios?

Por enquanto, alternativas utilizadas pelo mundo envolvem sons gravados, figuras de papelão e até mesmo 'drive-in'. No campeonato dinamarquês, por exemplo, o FC Midtjylland colocou telões no estacionamento do seu estádio para que os torcedores pudessem assistir aos jogos de dentro dos carros.

Na Alemanha, o Borussia Mönchengladbach foi um dos clubes que espalhou imagens de torcedores feitas de papelão em cadeiras para que aparecessem na TV —e, assim, reduzissem a sensação de "vazio" do estádio.

A Sky, responsável pela geração de imagem e áudio dos jogos do campeonato alemão e que são distribuídos para o mundo todo, resolveu incluir nas transmissões sons gravados em jogos passados de torcedores dos times que estejam se enfrentando.

Torcedor de sofá via app

No Japão, o aplicativo "Remote Cheerer" (ou 'Torcedor Remoto', em tradução livre), da Yamaha, é programado para dar a opção ao torcedor de transmitir cantos da torcida, vaias e comemorações de gol de casa de cada um para os estádios.

"O que foi feito até agora é mais sobre uma solução rápida, tentando replicar a experiência tradicional, imitando o som das torcidas ou enchendo as arquibancadas com algo que lembram os torcedores. Marcas que estão realmente olhando para o futuro devem se engajar de uma nova maneira", disse Nora Henriksson, diretora da agência MediaMonks Estocolmo, na Suécia.

"Nada vai substituir a experiência ao vivo, tanto para o torcedor quanto para o jogador. A emoção e vibração in loco nunca poderão ser substituídas. Entretanto, existe uma oportunidade clara em engajar e olhar o copo meio cheio, minimizando o impacto desse intervalo e trazendo elementos relevantes do jogo para o torcedor", declarou Eduardo Baraldi, CEO da agência Octagon Brasil.

Torcedor de acrílico no estádio

No Brasil, por enquanto, apenas o Corinthians anunciou um projeto neste sentido. No projeto "O Timão é a Sua Casa", lançado no começo do mês, o clube resolveu vender espaços "virtuais" nas arquibancadas da Arena Corinthians para torcedores.

O público pode escolher estar em uma peça de material acrílico, nas cadeiras numeradas do estádio, ou em pequenas fotos, em faixas que simularão uma bandeira na arquibancada do estádio. Os preços variam entre R$ 37,90 e R$ 299,90

"A ação foi inspirada num antigo projeto, de 2008, onde colocamos fotos dos torcedores nas camisas dos jogadores", explicou Caio Campos, gerente de marketing do Corinthians. Na época, a ação "O Timão É a Sua Cara" colocou à venda 4.900 espaços nos uniformes, por R$ 1 mil cada. O clube acabou conseguindo negociar apenas 1.000 cotas.

"Pensamos, também, em lançar um projeto de drive-in para os jogos, no estacionamento da Arena Corinthians. Mas, neste momento, achamos melhor esperar. Tudo ainda é muito incerto", afirmou o executivo. Caio acredita que o público só voltará aos estádios em 2021.

Barulho da sala para o estádio

Caio ainda conta que o clube deve anunciar mais uma novidade ainda nesta semana. "No jogo que fizemos com portões fechados, em março, colocamos o som da torcida nos alto falantes. Mas aquilo é uma coisa gravada, fica uma coisa chata. A ideia é trazer o som da torcida em tempo real para o estádio", disse o executivo.

"É errado pensar que apenas o sistema regular de som do estádio ajudará a criar a atmosfera certa. É preciso ter cuidado com o local onde coloca os alto-falantes e quando usá-los. Mas a parte realmente emocionante disso é o envolvimento dos fãs digitais, onde o torcedor pode usar uma segunda tela para interagir, que pode criar um barulho no estádio. É assim que os torcedores poderão influenciar a atmosfera dentro do campo e se conectar com os jogadores de uma maneira única", afirmou Nora, da MediaMonks.

Para Baraldi, da Octagon, os patrocinadores têm uma grande oportunidade para ser explorado, estarem ao lado do público.

"O potencial, na minha opinião, está em patrocinadores se unirem aos clubes e montarem enxovais de estádio para levar essa experiência para o fã em uma escala muito maior. O som, a comida, interação entre torcedores, a compra de merchandising e até mesmo, em grupos menores, visitar o backstage do jogo", declarou o executivo.

Ações sem legado

O assunto também foi tema de um dos painéis do "WFS Live powered by Ronaldo", congresso online realizado na semana passada, que reuniu alguns dos principais nomes da indústria mundial do futebol.

Samuel Lloyd, diretor geral do estádio do Mineirão, foi um dos participantes do painel "O que o futebol pode aprender com a indústria do entretenimento no pós-covid?". Para o executivo, as ações serão palco de disputa entre os clubes. "Acredito que vamos ter de tudo. Devemos beber nas fontes europeias e encontrar diferentes iniciativas no Brasil, como se fosse uma competição à parte", afirmou o Samuel.

Sobre o legado que as ações podem deixar para o público no mundo pós-pandemia, o diretor do estádio mineiro é um pouco mais reticente.

"Gostaria de ser otimista para imaginar o que pode ficar de herança para os torcedores, mas acho difícil. Observando as interlocuções, o mundo do futebol quer resolver o problema de hoje. A discussão de investimento no digital, por exemplo, não tem olhar de longo prazo. Falta essa visão para o mundo do futebol", disse.

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