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Carro como escudo? Como é a blindagem parcial que aumentará proteção de PMs

Toyota Hilux SW4 de testes traz a blindagem parcial que será utilizada pela PM-SP; proteção balística será aplicada no para-brisa, no capô, nas portas e no painel corta-fogo - Divulgação
Toyota Hilux SW4 de testes traz a blindagem parcial que será utilizada pela PM-SP; proteção balística será aplicada no para-brisa, no capô, nas portas e no painel corta-fogo
Imagem: Divulgação
do UOL

Alessandro Reis

Do UOL, em São Paulo (SP)

06/07/2020 03h00

A Portaria 94 do Comando Logístico do Exército Brasileiro, publicada em agosto do ano passado, autoriza que viaturas de órgãos de segurança pública tragam blindagem parcial, oferecendo proteção balística somente em áreas consideradas mais vulneráveis e estratégicas.

Pelo menos dois Estados, além da PRF (Polícia Rodoviária Federal), já têm licitações em processo de execução para adquirir veículos com essa característica - totalizando cerca de 1,5 mil unidades. Outras polícias conduzem estudos técnicos e devem abrir licitações a partir do ano que vem.

A nova regulamentação permite que cada órgão de segurança escolha quais partes do automóvel serão protegidas, levando em conta aspectos como custo, peso adicional e necessidades específicas de policiamento.

A blindagem total, mais cara e pesada, ainda pode ser contratada por forças policiais e continua obrigatória para veículos de uso comum.

A cobertura balística parcial também é conhecida como "escudo", por permitir que policiais utilizem as portas como proteção durante um tiroteio. A prática é adotada há alguns anos na Argentina e também se faz presente em países como a Itália.

"Não temos um número oficial de viaturas blindadas atualmente em circulação no Brasil, mas posso dizer que são muito, muito poucas", diz Marcelo Fonseca, líder de estratégia de proteção balística da DuPont - um dos principais fabricantes e fornecedores da fibra de aramida, utilizada na blindagem da carroceria, também conhecida como "região opaca".

De acordo com Fonseca, a Portaria 94 "atendeu algumas forças policiais que há algum tempo tinham o anseio de oferecer mais proteção aos respectivos agentes".

"A legislação, porém, até o ano passado era inflexível: ou blindava-se completamente o habitáculo ou não blindava-se".

Ele acrescenta, citando a Argentina e as licitações já em andamento no Brasil, que o padrão tem sido deixar de blindar a parte traseira do veículo para aplicar a proteção na parte dianteira, incluindo para-brisa, capô, portas e a estrutura metálica entre o motor e a cabine.

Marcelo Fonseca destaca que a maior licitação envolvendo veículos parcialmente blindados na atualidade é da Polícia Militar de São Paulo, que prevê a compra de mil viaturas.

Segundo ele, cada blindagem desse contrato tem custo previsto de aproximadamente R$ 20 mil ou 1/3 do preço do serviço completo.

As demais licitações ativas são conduzidas pela Brigada Militar do Rio Grande do Sul e pela PRF (Polícia Rodoviária Federal).

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Toyota Hilux SW4 recebeu blindagem parcial seguindo especificações exigidas pela PM-SP
Imagem: Divulgação

Procurada pela reportagem, a Polícia Militar de São Paulo informa que assinou em março contrato para aquisição de 70 unidades do modelo Chevrolet Trailblazer parcialmente blindadas, pelo valor de R$ 153.013 cada. A aquisição dos veículos, cuja entrega estava prevista para agosto, pode ser adiada por conta da pandemia do coronavírus, diz o órgão.

"Devido ao decreto estadual 64.879, de 20 de março de 2020, que reconhece estado de calamidade pública, e ao decreto estadual 64.881, de 22 de março de 2020, que determina a quarentena no estado de São Paulo em decorrência da pandemia de Covid-19, está em análise o adiamento do cumprimento do acordo e da entrega das viaturas".

Por sua vez, a Secretaria da Segurança pública do Rio Grande do Sul confirma licitação para registro de preços e compra de viaturas dotadas de blindagem parcial para a Brigada Militar e outros órgãos de segurança do Estado. A aquisição, diz a secretaria, ainda depende da homologação desses preços.

"As viaturas serão solicitadas de forma inédita no Estado. A Brigada Militar ainda não possui modelos com proteção balística", informa o governo gaúcho, sem mencionar valores, quantidade de carros e as partes das viaturas que terão proteção balística.

A PRF também não fornece esses dados por questão de "segurança", porém confirma que está incorporando à frota Toyota Corolla (R$ 125,5 mil cada), Ford Ranger (R$ 174 mil) e Chevrolet Trailblazer (R$ 188 mil) com algum nível de blindagem.

Como será a blindagem parcial da PM-SP

Blindagem de veículo - Murilo Góes/UOL - Murilo Góes/UOL
Funcionária de blindadora aplica manta de aramida na parte interna da porta de veículo
Imagem: Murilo Góes/UOL

Especificamente em relação ao contrato da PM Paulista, UOL Carros conversou com João Claudio Bourg, diretor comercial da Totality, blindadora que fará a blindagem de parte das Trailblazer que serão integradas à corporação.

Em parceria com a Toyota, sua empresa blindou a Hilux SW4 que ilustra essa reportagem e ficou cerca de seis meses em testes nas ruas. A marca japonesa perdeu a concorrência para a General Motors, porém a SW4 foi blindada seguindo exatamente as especificações exigidas pela PM-SP - e que serão aplicadas no SUV da GM.

As viaturas da Polícia Militar terão proteção balística do nível III-A, o mais utilizado, que resiste a disparos de armas de mão até submetralhadoras de nove milímetros.

A blindagem vai utilizar aramida e aço inox e será aplicada no capô, no para-brisa, nas colunas "A", no painel corta-fogo, nos para-lamas dianteiros e nas portas.

A proteção também será aplicada na parte interna dos para-lamas dianteiros, junto ao habitáculo, na altura da pedaleira, nas baterias principal e auxiliar e também na "churrasqueira" - a chapa metálica posicionada junto ao painel. O acréscimo de peso é inferior a 130 kg - conforme exigiu o pregão.

O para-brisa, por sua vez, tem de ter garantia de cinco anos contra delaminação.

"A proteção balística parcial do veículo é como o colete balístico, que todo o policial deve utilizar. O colete não protege todo o corpo, porém ajuda a reduzir uma consequência mais grave durante troca de tiros. É mais proteção ao policial com menos custos", avalia Bourg.

'Avanço', com ressalvas

Marco Colosio, diretor regional São Paulo da SAE Brasil, analisou a proteção balística a ser aplicada nas viaturas da Polícia Militar de São Paulo.

"É uma blindagem parcial de nível III-A, mas deve ajudar bastante na proteção dos ocupantes contra tiros. O foco não é evitar que o carro pare por conta das balas e sim proteger os policiais no habitáculo. Além disso, não vejo nas especificações nada que possa agregar peso significativo ao veículo".

A proteção balística, mesmo aplicada só em algumas partes das viaturas, é avaliada como um "avanço" de parte dos governos estaduais pelo cabo Wilson Morais - presidente da Associação de Cabos e Soldados da PM-SP.

"Ainda não é a blindagem de que a gente precisa, teria de ser total, incluindo todos os vidros. A alegação é de que o custo é muito elevado. Porém, já é um começo, uma iniciativa bem-vinda, especialmente para os colegas que estão na linha de frente, como os da Rota e da Força Tática. Antigamente, não tínhamos nem colete à prova de balas", pondera.

Rafael Alcadipani, professor de gestão pública da FGV e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, também considera a iniciativa positiva, com uma ressalva.

"Se isso salvar a vida de um policial em dez anos, já terá valido a pena o investimento. Por outro lado, a questão é ver se esses veículos terão manutenção adequada, que tende a ser mais cara por se tratar de blindado. Ainda hoje muitos reparos são feitos pelo próprio policial ou por estabelecimentos que executam o serviço de graça e de maneira informal. O Estado tem de ver essa questão", diz o especialista em segurança pública.

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