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Caso Miguel: 6 minutos se passaram entre 1ª entrada no elevador e queda

O menino Miguel no elevador, momentos antes da queda - Reprodução
O menino Miguel no elevador, momentos antes da queda Imagem: Reprodução
do UOL

Aliny Gama

Colaboração para o UOL, em Maceió

01/07/2020 23h08

Foram seis minutos apenas entre o momento da primeira entrada de Miguel Otávio Santana da Silva, 5, em um dos elevadores e a queda do menino do 9º andar de um dos prédios do condomínio Pier Maurício de Nassau, em Recife, que resultou na morte dele. Sua mãe, Mirtes Renata Santana, trabalhava como empregada doméstica no local.

Documento divulgado hoje pelo Instituto de Criminalística de Pernambuco mostra a cronologia do que se passou desde a primeira entrada do menino no elevador, às 13h06, ao sair de um dos apartamentos do 5º andar, até a queda, às 13h12, do 9º andar, no dia 2 de junho. O menino morreu durante socorro médico no hospital da Restauração, no bairro do Derby, área central do Recife.

Mirtes trabalhava como empregada doméstica no apartamento do prefeito de Tamandaré, Sérgio Hacker (PSB), e a primeira-dama, Sari Mariana Gaspar Corte Real. Sarí estava com uma manicure quando a empregada doméstica deixou seu filho sob os cuidados da ex-patroa para levar a cachorra dos ex-patrões para passear. O garoto acompanhava a mãe ao trabalho dela porque a creche em que ele ficava está com as atividades suspensas devido à pandemia do novo coronavírus.

Cronologia

Às 13h05, Mirtes estava passeando pela calçada do condomínio com a cadela Mel. Às 13h06, Miguel aparece pela primeira vez no elevador querendo ir atrás da mãe. Foi retirado por Sarí por quatro vezes. Na quinta e última vez, às 13h10, o menino voltou correndo e entrou novamente no elevador. Logo em seguida, Sarí chega ao local e segura a porta do equipamento. Por cerca de 40 segundos, o menino aperta botões do painel aleatoriamente enquanto Sari Corte Real segura a porta do elevador, mas depois ela libera a porta e deixa o menino sozinho.

O elevador segue os comandos do painel. Desce para o 2º andar, abre a porta às 13h11, o menino não sai. Depois, o elevador sobe para o 9º, onde 29 segundos depois a porta se abre, o menino sai e abre a porta corta-fogo que dá acesso ao corredor do nono piso. Em seguida, segundo a perícia, o elevador sobe sem ninguém para o 15º, 19º e 20º andares.

O menino anda pelo corredor por cerca de um minuto. Neste momento não há registro de imagens, porque o local não tem câmeras, mas a perícia fez uma simulação do que ocorreu. A polícia diz que ele gritava chamando a mãe. Nesse tempo, Miguel escalou uma janela que dá acesso a uma área de serviço onde são guardados os condensadores de ar. Marcas dos pés dele ficaram marcados na parede e em um dos aparelhos. Em seguida, o garoto subiu na grade de alumínio, que não tem proteção de tela, e caiu em queda livre.

O perito criminal, André Amaral, do Instituto de Criminalística de Pernambuco, afirmou que a perícia comprovou que o menino estava sozinho no 9º andar, local da queda, e que ele escalou sozinho a janela que dá acesso a área dos condensadores. "Uma criança com até 90 centímetros de altura conseguiria fazer aquela escalada. O gradil de alumínio não tem norma técnica porque tinha função estética. Conseguimos visualizar a dinâmica do que ocorreu nos 58 segundos e eliminou toda possibilidade de ter uma segunda pessoa no local do evento em si, de modo acidental", explicou Amaral.

Às 13h12, câmeras do circuito do condomínio registraram a queda do menino em uma área chamada de "lobby". Segundos depois, uma paleta de alumínio da sacada do prédio cai perto de Miguel. Um minuto depois, às 13h13, a mãe de Miguel aparece entrando no elevador social com o zelador do prédio. Eles tentam chegar ao local que é identificado como L no painel, mas apertam o botão do subsolo. Às 13h14, os dois conseguem chegar local e Mirtes se depara com o filho caído no chão.

Em entrevista ao UOL, Mirtes disse que não sabia que era o filho que tinha caído do prédio. Ela contou que ao chegar à portaria do prédio, os funcionários do condomínio tinham recebido a informação que uma pessoa tinha caído de um dos andares do edifício. Prontamente, ela e o zelador foram ao local para ajudar.

"Me desesperei quando vi que era Miguel. Eu pedi para que ele não me deixasse, mas ele estava com o olhar fixo. O coração ainda pulsava. Veio um morador ajudar no socorro e afirmou que meu filho precisava urgente ser levado para um hospital", contou Mirtes.

Segundo a perícia, Sari Corte Real foi avisada do ocorrido e desceu para o local onde o menino estava agonizando. Depois, a ex-patroa foi até o apartamento pegar a bolsa e a chave do carro para socorrer Miguel para o hospital da Restauração. O menino morreu minutos depois, durante o socorro no hospital.

Em nota, a defesa de Sarí Corte Real afirma que a conclusão da Polícia Civil que a indiciou por abandono de incapaz com resultado morte, apesar de "elaborado por delegado de indiscutível competência, conflita com os elementos reunidos no inquérito policial"

"A conclusão da autoridade policial passará, ainda, pelo crivo do Ministério Público, que pode acatar esse posicionamento, entender por enquadramento diverso, requerer o arquivamento do Inquérito Policial ou, ainda, caso persistam dúvidas, solicitar a realização de novas diligências. Já realizados os devidos esclarecimentos fáticos nos autos do inquérito policial, ainda não é, tecnicamente, o momento de defesa, mas sim de acompanhamento, devendo-se aguardar, com prudência e serenidade, o posicionamento do Ministério Público", diz o texto.

A nota é assinada pelos advogados Célio Avelino de Andrade, Camila Andrade dos Santos, Leonardo Quercia Barros e Pedro Avelino de Andrade e foi enviado ao UOL pelo prefeito Sérgio Hacker na noite de hoje.

Após o indiciamento de Sarí, a mãe de Miguel se manifestou por meio de nota distribuída pelo advogado Rodrigo Almendra. Ela fez um desabafo em tom de revolta sobre a morte do filho e afirmou que "a princesa encastelada nas torres gêmeas, não tarda, prestará contas à Themis Pernambucana", se referindo ao condomínio de luxo que Sarí mora que é conhecido como "torres gêmeas" por ter suas edificações altas e semelhantes.

"A diferença entre o acidente e o desamparo é a escolha. Optou-se em desproteger. Miguel foi largado no elevador sem ninguém à sua espera. Pareceres jurídicos caros não apagam o passado, não limpam a consciência e não desfazem os fatos", diz o texto de Mirtes.

Ex-patroa da mãe de Miguel é indiciada

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Abandono de incapaz

Hoje, Sarí Mariana Gaspar Corte Real foi indiciada pela Polícia Civil pelo crime de abandono de incapaz com resultado morte. Sarí tinha sido presa em flagrante um dia após a morte de Miguel pelo crime de homicídio culposo (quando não há intenção de matar). Ela pagou fiança de R$ 20 mil e foi liberada para responder pelo crime em liberdade.

Entretanto, o delegado Ramon Teixeira, da delegacia de Santo Amaro, responsável pelas investigações do caso, informou que, durante as investigações, com análise de imagens e depoimentos de testemunhas, concluiu que o menino foi abandonado dentro do elevador e o fato, em seguida, resultou na morte dele.

"A imagem [do elevador] por si só não se caracteriza, é possível compreender qual é o dolo daquela conduta, o dolo de matar, o dolo de abandonar, que só viria obter através de uma cadeia investigatória. Ela permite, livremente, o fechamento daquela porta e se dirige à porta corta-fogo [voltando para o apartamento]. Foi possível ver perfeitamente que aquele elevador se dirigiu e a moradora não fez esse acompanhamento. A moradora retorna ao tratamento de embelezamento das unhas", explicou o delegado.

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