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Menores migrantes acampam no centro de Paris para protestar contra descaso das autoridades na França

30/06/2020 14h07

O acampamento de 70 barracas, todas vermelhas alinhadas uma ao lado da outra, foi montado em apenas alguns minutos na noite desta segunda-feira (29) em um jardim, nas proximidades da Praça da República, no 10° distrito de Paris. Ele acolhe menores migrantes desacompanhados e "esquecidos de todos", denuncia a Médicos Sem Fronteiras (MSF) e outras ONGs.

O acampamento de 70 barracas, todas vermelhas alinhadas uma ao lado da outra, foi montado em apenas alguns minutos na noite desta segunda-feira (29) em um jardim, nas proximidades da Praça da República, no 10° distrito de Paris. Ele acolhe menores migrantes desacompanhados e "esquecidos de todos", denuncia a Médicos Sem Fronteiras (MSF) e outras ONGs.

O acampamento foi montado no Jardim Jules Ferry com a ajuda de cerca de cem voluntários das associações de defesa de migrantes Utopia56, Comede, MSF e outros coletivos sob os olhares perplexos dos moradores da vizinhança. A iniciativa lembra uma campanha lançada pela associação "Os Filhos de Dom Quixote" que há alguns anos montou um acampamento às margens do turístico Canal Saint-Martin para forçar o governo a adotar uma política a favor dos sem-teto de Paris.

Os jovens são majoritariamente originários do oeste da África, como André, de 17 anos, que veio da Costa do Marfim. Protegido por uma máscara, ele conta que chegou há sete meses em Paris, depois de "ter passado pela Libia, atravessado o Mediterrâneo em um barco inflável". A travessia até a ilha italiana de Lampedusa "durou três dias". Em sua barraca individual, em respeito às normas sanitárias contra a Covid-19, ele tem um colchão fino, um cobertor, um kit de higiene, com álcool em gel e máscaras.

André deixou Abidjan com um amigo, que "morreu na Líbia". Ele diz ter escolhido a França para "virar jogador de futebol ou simplesmente informático". "Gostaria de ir à escola aprender uma profissão", pede. Antes do acampamento, ele era alojado por uma associação em um hotel de Paris, mas as autoridades o reconheceram como maior de idade. Ele entrou com recurso no juizado de menores e enquanto aguarda a decisão na rua, participa de peladas de futebol e "lê para não perder tempo no futuro".

Mas a indefinição de sua situação pode se arrastar entre seis meses e um ano e maio, dizem as associações. "Nada é adaptado para alojar e acolher dignamente esses jovens enquanto a sentença final não é pronunciada", garante Florent Boyer, coordenador da Utopia56 em Paris.

Por um acolhimento total

As associações militam para que esses jovens, reconhecidos pelas autoridades de imigração como maiores, mas que entraram com recurso, sejam tratados com menores de idade em perigo, enquanto não houver um julgamento definitivo. Atualmente, eles só contam com a ajuda de associações. "É necessário que a região parisiense e a prefeita de Paris assumam suas responsabilidades. Não cabe às associações pagar no lugar delas pelo alojamento, alimentação e cuidados médicos dos menores migrantes", estima Caroline Douay, coordenadora de projeto da MSF, que organizou a montagem do acampamento.

Koly et Ayoub, que também têm 17 anos, estão na mesma situação de André. Ayoub é da Guiné-Bissau, país de língua portuguesa. Ele chegou há 11 meses e passa as noites alternadamente na rua ou em um hotel. "Hoje, não vou à escola, embora tenha deixado meu país justamente porque não podia estudar lá", lamenta, deitado em sua barraca. Normalmente, ele não faz nada durante o dia, apenas participa de algumas aulas de frâncês oferecidas pelas associações.

Em frente à barraca de Ayoub, um cartaz colocado pelas ONGs ressalta que o "acampamento não é uma colônia de férias. Os conselhos do departamento da Ile de France (região parisiense) abandonam os menores isolados estrangeiros".

"Não aceitaremos apenas um alojamento. Queremos um acolhimento total e duradouro para esses jovens", enfatiza o coordenador do Utopia56. Em abril, advogados, ONGs e associações já haviam enviado uma advertência ao procurador da República de Paris, alertando para a situação desses menores "deixados por conta própria" e exposto a "um grave perigo" por falta de abrigo durante o confinamento. Segundo a MSF, cerca de 300 jovens nessa situação vivem em Paris e na periferia parisiense.

(Com AFP)

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