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Covid-19, racismo e mau futebol derrubam presidente do FC Schalke 04

30/06/2020 21h37

Covid-19, racismo e mau futebol derrubam presidente do FC Schalke 04 - Após sucessivas controvérsias e péssima campanha da equipe na Bundesliga, proprietário do frigorífico Tönnies, centro de um novo surto de coronavírus, é forçado a deixar o clube alemão.O presidente do FC Schalke 04 e proprietário de um frigorífico no centro de um novo surto de coronavírus na Alemanha, Clemens Tönnies, renunciou nesta terça-feira (30/06) ao cargo que ocupava há 19 anos no tradicional clube de futebol alemão após se envolver um uma série de controvérsias, ainda que em questões bastante diferentes.

O Schalke não conseguiu nenhuma vitória nos últimos 16 jogos que disputou pela Bundesliga, o campeonato alemão, na mais longa série sem um triunfo sequer na história da competição, e ainda foi goleado por 4 a 0 na última patida que disputou, contra o SC Freiburg.

A equipe dos "azuis-reais" terminou o campeonato na 12ª colocação e não conseguiu se classificar para a Liga Europa, o segundo mais importante torneio de clubes do continente, e ficou ainda mais longe da cobiçada vaga para a Liga dos Campeões da Uefa.

A participação em uma dessas grandes competições europeias seria uma importante fonte de renda para a equipe, que vem atravessando uma série de problemas financeiros.

Tönnies foi amplamente criticado no ano passado por uma declaração que lhe rendeu acusações de racismo. No mês de agosto, durante um evento do clube, ele propôs o financiamento de usinas elétricas na África e disse: "Então, os africanos parariam de derrubar árvores e de produzir crianças quando fica escuro."

O comentário foi criticado como racista por ex-jogadores negros, como Gerald Asamoah, Hans Sarpei e pelo ex-atacante brasileiro Cacau, naturalizado alemão e que jogou pela seleção do país europeu.

Mais tarde, Tönnies se desculpou pela afirmação, que disse ter sido "errada" e "impensada", mas os danos à sua imagem após o episódio ainda permanecem.

O conselho honorário do clube considerou que Tönnies "violou a proibição de discriminação contida no estatuto do clube". Os conselheiros, entretanto, consideraram "infundada" a acusação de racismo contra o dirigente. O clube, porém, afirmou que Tönnies decidiu se afastar da entidade por um período de três meses.

Ele também foi acusado, juntamente com outros dirigentes, de agir de modo questionável em relação aos torcedores que pediam o ressarcimento de ingressos comprados para os jogos da equipe que acabaram sendo realizados sem a presença de público em razão da pandemia de covid-19.

Tönnies é dirigente do Schalke desde 1994 e se tornou presidente do clube em 2001. Nesse período, a equipe conquistou três Copas da Alemanha, foi cinco vezes vice-campeã da Bundesliga e se classificou para a Liga dos Campeões da UEFA em dez ocasiões.

Nos últimos anos, porém, os problemas financeiros apenas aumentaram. Em 2019, o clube anunciou que tinha dívidas de quase 200 milhões de euros, situação que deve ter se agravado durante a paralisação gerada pela crise do coronavírus.

O Schalke escapou por pouco do rebaixamento na temporada anterior e apenas evitou a queda para a segunda divisão alemã este ano em razão do bom desempenho no primeiro turno do campeonato. Entretanto, os fracos resultados na segunda metade da competição aumentaram a pressão sobre a diretoria do clube. No último sábado, os torcedores organizaram um enorme protesto em frente ao estádio Veltins-Arena, na cidade de Gelsenkirchen, sede do clube.

"Sempre foi para mim uma honra servir a esse grande clube por mais de um quarto de século. Estarei ligado ao FC Schalke 04 por toda a minha vida", afirmou Tönnies em seu pedido de desligamento. "Minha maior tarefa agora será me concentrar por completo em minha empresa e conduzi-la na pior crise de sua história."

Frigorífico Tönnies vira epicentro de surto de covid-19

A empresa que leva o nome da família do ex-presidente do Schalke vem sendo fortemente criticada após o surgimento de um surto de coronavírus que forçou a reposição de medidas de confinamento em toda uma região, após mais de 1.500 funcionários do frigorífico Tönnies serem diagnosticados com covid-19.

O governo do estado da Renânia do Norte-Vestfália impôs medidas rígidas de isolamento para Gütersloh e o distrito vizinho de Warendorf, na região onde vivem em torno de 640 mil pessoas. Cerca de 7 mil trabalhadores do frigorífico e seus familiares estão em quarentena. Todos os moradores dos dois distritos foram encorajados a se submeterem voluntariamente a testes de covid-19.

As medidas reimpostas nos dois distritos, ampliadas até o dia 7 de julho, incluem restrições de contato e proibição da prática de esportes em locais fechados e de eventos culturais. Escolas e creches do distrito de Gütersloh já estavam fechadas desde 17 de junho, e a medida foi adotada em Warendorf na última quinta-feira.

Em ambos os distritos, os encontros em público só estão permitidos para pessoas do mesmo endereço ou apenas duas pessoas de domicílios distintos. Manifestações estão proibidas. Cinemas e bares também permanecem fechados, enquanto restaurantes podem funcionar sob regras rígidas, incluindo a de que no máximo duas pessoas ou uma família que vive no mesmo domicílio se sentem juntas.

O frigorífico foi fechado e a empresa enfrenta várias críticas por não conseguir colaborar devidamente com as autoridades. A Tönnies não foi capaz de fornecer os endereços de todos os empregados para o monitoramento das quarentenas, pois grande parte deles é terceirizada, vinda de países do Leste Europeu com contratos temporários.

Alguns conjuntos residenciais onde vivem esses trabalhadores foram cercados por grades para impor a quarentena obrigatória. As condições de moradia nesses locais não são as melhores, com muitos moradores para poucos metros quadrados, impossibilitando o distanciamento social. Soma-se a isso o medo de ficar sem receber salários com o fechamento do frigorífico.

Após o escândalo, surgiram várias denúncias sobre as péssimas condições de trabalho no local. O surto trouxe à tona os altos custos sociais da carne de porco barata vendida na Alemanha, que só é possível de ser produzida com baixos salários e imigrantes que aceitem trabalhar e viver em condições precárias. O episódio reacendeu o debate sobre como proteger esses trabalhadores.

A revolta gerada pelo papel da empresa no ressurgimento do coronavírus na região, após a doença estar amplamente controlada, levou muitas pessoas a pedirem o afastamento de Clemens Tönnies da companhia. Ele, porém, garante que vai tirar o frigorífico da crise.

Resta a seus funcionários e aos moradores da região apenas a esperança de que o empresário possa conduzir a situação com a competência que lhe faltou em seus últimos anos à frente do FC Schalke 04.

RC/dpa

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