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Covid-19: 'reabrir nessas condições é receita para desastre', diz bióloga

"Reabrir com essas condições é receita para desastres", diz pesquisadora

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Do UOL, em São Paulo

29/06/2020 22h22

Doutora em microbiologia pela Universidade de São Paulo (USP), Natalia Pasternak afirmou, na noite de hoje, que reabrir a economia das cidades, no atual cenário da pandemia da covid-19 no país, é a "receita para o desastre".

"Você reabrir com essas condições, com números subindo, sem diretrizes do governo federal e dos estados, sem comunicar com a sociedade, é receita para o desastre", declarou, durante entrevista ao programa "Roda Viva", da TV Cultura. Fundadora e primeira presidenta do Instituto Questão de Ciência, Natalia é pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e autora do livro 'Ciência no Cotidiano'.

"Foi precoce a reabertura. Você fazer uma reabertura depende não só de analisar os dados, mas analisar de uma maneira interdisciplinar. Não temos comitês científicos nem no governo federal nem nos estados. Comitês que deveriam ser formados por epidemiologistas, economistas, e com o conselho de especialistas da área médica, científica, decidir qual seria o momento certo para reabrir", avaliou Pasternak.

"Certamente esse não é o momento. Temos uma curva ascendente, onde estamos acumulando o número de casos e de mortes, e não temos condições no sistema de saúde para acolher um aumento nesse número de casos. Também não é momento de fazer reabertura se você não tem uma comunicação efetiva com a população que ensine os cuidados básicos de prevenção, que podem conter a doença", prosseguiu.

"Sem evidências científicas"

No último mês, Natalia deu diversas declarações alertando para o risco do uso da cloroquina e da hidroxicloroquina no tratamento da covid-19 e, com outros pesquisadores, assinou um documento contra a liberação do medicamento.

"O Ministério da Saúde não está usando evidências científicas para embasar uma política pública de saúde durante a maior crise sanitária que já tivemos no país. Esse é o absurdo. O protocolo de uso da cloroquina, quando a gente ainda tinha ministro de Saúde, o nosso primeiro ministro que foi o Mandetta, ele autorizou um protocolo de uso compassivo, só para pacientes graves. Esse protocolo foi ampliado para uso precoce. Quer dizer, primeiros sintomas, agora incluindo gestantes e crianças. O protocolo foi ampliado para uso padrão. O tratamento padrão autorizado pelo Minsitério da Sáude, um tratamento que não tem base nenhuma."

Apesar das recomendações contrárias ao medicamento, o Brasil já distribuiu quase 4,4 milhões de unidades de cloroquina para todos os Estados e o Distrito Federal, sendo quase 1 milhão apenas para São Paulo, de acordo com dados apresentados pelo Ministério da Saúde hoje.

Entre as regiões do país, o Nordeste recebeu o maior número de unidades, com 1,5 milhão de comprimidos no total, sendo 720 mil entregues somente neste mês. Os estados das regiões Sul e Sudeste, por outro lado, não solicitaram doses do medicamento neste mês.

Vacina até o fim do ano?

Natalia Pasternak afirmou que é possível que tenhamos uma vacina até o fim do ano, mas somente se tudo correr perfeitamente bem, e citou as duas vacinas com pesquisas mais adiantadas: Oxford, a vacina Cinovac, que é a vacina chinesa.

"Elas estão bem adiantadas, foram razoavelmente bem em testes em animais, nos pré-clínicos e nos primeiros testes em humanos, de fase 1 e fase 2 (lembrando que essas fases são fases de testes em humanos, mas que estão avaliando a segurança da vacina, mas não a eficácia). A eficácia a gente vai avaliar agora, em fase 3, que a gente vai dar essa vacina para um grande número de pessoas.

"Se tudo isso correr perfeitamente bem, o que não costuma acontecer em ciência, a gente vai ter uma vacina em dezembro. Pode acontecer? Pode! Espero que sim? Claro, mas pode não acontecer. As coisas podem dar errado no meio do caminho, a fase 3 pode ser estendida por mais tempo... É muito difícil fazer essa previsão em ciência. A produção pode até ser que esteja pronta em dezembro, mas a eficácia a gente vai poder ver no caminho", avaliou.

O governo brasileiro anunciou no sábado um acordo de US$ 127 milhões com o consórcio formado pela biofarmacêutica AstraZeneca e a Universidade de Oxford para compra de uma possível vacina contra a covid-19, afirmando ser a candidata com melhor chance de sucesso contra o novo coronavírus.

Se a vacina for eficaz, o acordo prevê que 100 milhões de doses estarão à disposição da população brasileira. Foi acertada também a transferência de tecnologia de formulação para a Fundação Osvaldo Cruz, que ficará encarregada da produção local.

O Brasil é o segundo país mais afetado pela pandemia de coronavírus, com mais de 1,3 milhão de casos confirmados e mais de 58 mil mortes até esta segunda-feira. Apenas os Estados Unidos têm mais casos e mais óbitos em consequência da Covid-19.

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