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Mandetta associa estratégia da Saúde a "lealdade militar burra": "Tragédia"

25.mar.2020 - O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta - Andressa Anholete/Getty Images
25.mar.2020 - O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta Imagem: Andressa Anholete/Getty Images
do UOL

Do UOL, em São Paulo

06/06/2020 17h29Atualizada em 06/06/2020 21h56

O ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, associou hoje à ala militar as mudanças de estratégia da pasta nos últimos dias, especialmente na divulgação de dados da pandemia. "Talvez isso seja o que estamos presenciando: uma ótica muito mais de carreira promocional, de cumprir uma missão e essa missão se passa por sonegar informações, torturar os números", afirmou.

Para o médico, ao nomear pessoas ligadas à carreira militar, e não à Saúde, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) prioriza um quadro acostumado a outro tipo de abordagem, "que chegue às suas promoções por atos de bravura ou de lealdade extrema, mesmo que burra e genocida".

As afirmações foram dadas hoje durante live para o canal IDP, que teve a mediação do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes.

Mandetta falou também sobre a falta de atualizações claras nas ações do governo federal e no sumiço de dados consolidados sobre a pandemia que se acentuou nos últimos dias. Para ele, este desmanche das informações é trágico para o Brasil e pode se dar por conta de interferências políticas do presidente.

Isso vai criar problema para abastecimento da rede de saúde, um enorme problema de notificação compulsória, no planejamento de ações baseadas em números e naturalmente da população não saber [os dados oficiais]. Vai começar a surgir também um total de números feitos pela televisão A, um total de números pelo instituto B. A fake news é um campo facundo e depois reclamam dela, porque vão começar a falar que estão maquiando [os números]. Vamos perder e ficar na pior dos mundos.

Mandetta analisa que não consegue entender as mudanças feitas pelo ministério no ponto de vista da saúde, mas no da política sim. "Explica-se no campo das ciências políticas, de manipular os números, esconder os números, não deixar notícias ruins", opinou.

Um dia após ser tirado do ar para uma "manutenção" não anunciada, o site oficial da covid-19 , alimentado com o balanço da pandemia pelo Ministério da Saúde, voltou hoje ao ar depois de passar mais de 19 horas. Porém, à exemplo do que ocorreu ontem com a atualização diária dos dados de diagnósticos, óbitos e curados, deixou de trazer números consolidados sobre a doença e o histórico de sua evolução desde o primeiro caso brasileiro.

Agora, o site apresenta apenas os dados incluídos nas últimas 24 horas na base de dados do governo — o que não significa que ocorreram de ontem para hoje. Assim, em vez de noticiar as 35.026 mortes e 645.771 casos oficializados até ontem, o site informa apenas novos casos de recuperados, diagnosticados e óbitos.

Sair da OMS seria colocar o Brasil como "pária"

O ex-ministro afirmou na entrevista que não vê elementos positivos em uma possível saída do Brasil da Organização Mundial da Saúde (OMS). Hoje, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) acusou a OMS de atuar de forma política e ameaçou retirar o Brasil da entidade, seguindo decisão tomada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Sair da OMS, para o Brasil, é nos colocar como párias mundiais em saúde. É sair completamente da saúde. É igual a um menino mimado que fala: 'Se eu não posso jogar, vou embora para casa'. E ele não sabe que o melhor não é ser o dono da bola, é jogar futebol.

"Eu acho que o Brasil perderia e muito. Não somos uma superpotência para ficar fora de um grande espaço como a OMS", acrescentou.

Por outro lado, o ex-ministro fez duras críticas à entidade. Ele avalia que a OMS errou no início da pandemia e insistiu por muito tempo nos testes individuais antes de perceber a gravidade da doença.

"O Brasil foi o primeiro país a questionar se não estávamos no meio de uma pandemia. Eles [da OMS] brigaram conosco, falaram que era um vírus pesado. O Brasil questionou a OMS antes da China reconhecer o vírus. A OMS demorou para tomar algumas medidas, e insistiu muito nessa questão das testagens um a um", declarou.

"Brasil procura um culpado", diz Mandetta

Para Luiz Henrique Mandetta, o Brasil segue se espelhando nos Estados Unidos para encontrar um culpado pelo fracasso no tato com a pandemia em seu território.

O médico apontou que Trump está próximo de uma eleição duríssima, mas que as críticas brasileiras foram semelhantes.

"O nosso país tomou uma decisão e está colhendo as consequências, procurando também um culpado. Tentaram colocar [a culpa] na China, começaram a chamar de 'vírus chinês' e tomaram uma reação muito dura e falaram: 'Não vamos mais culpar a China, vamos culpar a OMS'", disse.

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