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Mosteiro de Trisulti: um possível endereço para a extrema-direita americana na Itália

05/06/2020 17h31

Transformar o mosteiro medieval de Trisulti, na Itália, em uma escola de formação para políticos da extrema-direita judaico-cristã. O plano do conservador Steve Bannon, mentor da campanha presidencial de Donald Trump, avança, mas não sem obstáculos. Recentemente, o Tribunal Administrativo Regional sentenciou que o monastério poderá permanecer sob a gestão do Dignitatis Humanae Institute (DHI), fundado pelo britânico Benjamin Harnwell, braço direito do estrategista americano. A batalha legal, no entanto, ainda não está vencida.

Transformar o mosteiro medieval de Trisulti, na Itália, em uma escola de formação para políticos da extrema-direita judaico-cristã. O plano do conservador Steve Bannon, mentor da campanha presidencial de Donald Trump, avança, mas não sem obstáculos. Recentemente, o Tribunal Administrativo Regional sentenciou que o monastério poderá permanecer sob a gestão do Dignitatis Humanae Institute (DHI), fundado pelo britânico Benjamin Harnwell, braço direito do estrategista americano. A batalha legal, no entanto, ainda não está vencida.

Em contrapartida, o Ministério da Cultura vai recorrer, em apelo ao Conselho de Estado, para retirar a concessão do monumento dos ultranacionalistas. E o magistrado italiano Carlo Villani investiga o DHI por suspeitas de fraudes e documentos falsos apresentados para obter a gestão do mosteiro por 19 anos.

Além disso, ao romper com os tradicionalistas católicos, Bannon agora pretende se aliar aos evangélicos.  

O enigmático Harnwell

 

 

Britânico de 44 anos, Benjamin Harnwell mora sozinho há dois anos no mosteiro localizado 130 quilomêtros ao sul de Roma, e construído em 1204 para ser um pedaço do paraíso na Terra. Os únicos a lhe fazerem companhia são os gatos Lazzaro e Filomena. Recentemente, ele passou a usar os cabelos longos até os ombros, além de deixar crescer o bigode e a barbicha de mosqueteiro. 

Seu aposento sóbrio, ao fundo de um longo corredor, antes hospedava um abade. Das janelas, pode-se contemplar a esplêndida paisagem e as montanhas do sul da região Lácio. Uma atmosfera silenciosa, só interrompida pelo canto dos pássaros e pelo dobrar dos sinos.

Sobre as mesas e outros móveis, centenas de cartas em grego divididas em pilhas.

"Estou estudando grego alexandrino para ler o novo testamento original. Existem mais de 5.000 novas palavras e este ano eu aprendi apenas 1.000", conta. 

Apesar de uma conexão com a internet bem duvidosa, Harnwell garante falar todos os dias com o estrategista americano: "Sou o representante de Steve Bannon na Itália. Ele é o homem mais esperto, inteligente, intuitivo e genial que encontrei na política", afirma.

A história deste enigmático britânico envolve ligações com políticos e importantes lideranças da Igreja Católica contrárias ao papa Francisco. 

O Instituto para a Dignidade Humana

Benjamin Harnwell fundou o Dignitatis Humanae Institute em 2008. O Instituto para a Dignidade Humana logo teve a adesão de tradicionalistas do Vaticano, como o cardeal Raymond Burke, líder da corrente opositora ao papa Francisco, e elo entre a direita religiosa norte-americana e a Santa Sé. O DHI já teve como presidente honorário o cardeal Renato Martino, acusado em Washington pelo ex-núncio Carlo Maria Viganò de pertencer à corrente homossexual da Igreja.

Steve Bannon conheceu Beinjamin Harnwell em 2014, na Cidade do Vaticano. O estrategista americano encontrou no britânico a pessoa ideal para seus planos. Harnwell, por sua vez, também tem experiência com a política. Ele foi assessor de um parlamentar e de um lobista por anos, em Londres e em Bruxelas.

"Nos conhecemos porque um amigo em comum disse que Steve procurava um cardeal na cúria romana. Ele ficaria em Roma só por um dia, e em apenas 24 horas, queria encontrar o cardeal, que por ocupar um cargo importante, estava muito ocupado. Eu consegui reunir Steve e o cardeal. E a partir daí, ficamos amigos", ele lembra.

Bannon e Harnwell decidiram então transformar o Instituto para a Dignidade Humana em uma academia judaico-cristã para a formação de políticos populistas de extrema-direita. Graças aos contatos do britânico no Vaticano, passaram a ocupar o mosteiro cartuxo de Trisulti, a 6 quilômetros da cidadezinha de Collepardo.

Como o monastério precisasse ser restaurado, o Ministério da Cultura lançou um edital para o financiamento privado. Apesar do imenso patrimônio cultural e artístico, faltam recursos aos cofres públicos italianos para a preservação de seus monumentos.

O DHI apresentou à comissão ministerial uma série de documentos, além de cartas de recomendações de bispos locais. Em fevereiro de 2018, o Ministério da Cultura aprovou a concessão do mosteiro de Trisulti ao Instituto para a Dignidade Humana por 19 anos pelo módico valor de € 101 mil anuais, cerca de R$ 600 mil por ano. Na época, o ministro da Cultura era Dario Franceschini, do Partido Democrático de centro-esquerda. Mas o monumento foi entregue oficialmente ao instituto só um ano depois, precisamente em 29 de janeiro de 2019.

A notícia da autorização do governo italiano para que se acolhesse ali a academia para a formação de políticos de extrema-direita repercutiu no mundo inteiro. A sociedade civil protestou.

Steve Bannon esteve em Trisulti um mês depois da entrega oficial do monumento ao DHI. Naquela ocasião, em março de 2019, pouco antes das das eleições europeias, o estrategista americano passou também por Roma, para expressar publicamente o seu apoio à extrema-direita da Europa.

"Eu penso que Salvini e Bolsonaro são os dois maiores políticos do mundo" disse Bannon", declarou Bannon durante uma coletiva na associação dos jornalistas estrangeiros.

A suspeita fraude

A jornalista italiana Paola Rolletta investiga a concessão do mosteiro de Trisulti ao DHI desde o início.

"Foi lançado um edital. Participaram apenas duas organizações, uma delas era uma organização ortodoxa, mas o presidente, diretor da associação, ficou detido por fraude fiscal. Portanto, a única associação que continuou na concorrência foi o Dignitatis Hunanae Institute, que é uma associação católica ultratradicionalista", ressalta.

Em sua opinião, o Instituto para a Dignidade Humana não tinha requisitos para participar do concurso.

"O edital tinha requisitos bem específicos, como demonstrar a gestão de um bem público ou privado nos últimos cinco anos. O Dignitatis Humane Institute apresentou como um dos requisitos o uso do evangelho. Obviamente fazer proselitismo ou catecismo não é a gestão de um bem público nem privado. Depois o DHI apresentou uma carta do abade de Casamari, Eugenio Romagnuolo, que era membro do trust Dignitatis Humane Institute, em que Casamari dava como gestão o pequeno museu de San Nicola, isto é, um edifício completamente arruinado, onde nunca existiu e nem nunca existirá um museu. Portanto, declararam o falso", afirma a jornalista.    

A ruptura com os tradicionalistas católicos

Em junho de 2019, Steve Bannon perde o apoio de um dos principais tradicionalistas da cúria romana, o cardeal americano Raymund Burke. A motivação para a ruptura teria sido a intenção de Bannon de adaptar para o cinema um livro do jornalista francês Frédéric Martel. Traduzido para o português como "No Armário do Vaticano", a publicação aborda a homossexualidade e o poder na Santa Sé.

"Posso entender porque o cardeal ficou zangado com Steve Bannon. Mas não entendi porque romper com o DHI. O projeto (do filme) era de Steve, que já era diretor e produtor antes de me encontrar. Não é um projeto do DHI".

A ordem de despejo

Em outubro de 2019, o Ministério da Cultura reverteu a decisão e anulou a concessão do mosteiro de Trisulti ao Instituto para a Dignidade Humana, enviando, inclusive, uma ordem de despejo. O DHI recorreu ao Tribunal Administrativo Regional, que proferiu a sentença a favor do instituto em 13 de maio. Harnwell, obviamente, afirma estar satisfeito com a decisão judicial.

"Desde o início deste processo, o DHI enfrentou ações ilegítimas e politicamente motivadas do Ministério, que se baseavam em uma série de argumentos inventados que visavam apaziguar a poderosa esquerda política italiana", comenta o britânico.

Ele ressalta que "o DHI tem o prazer de anunciar com grande alegria que as inscrições já estão abertas, a partir de 1° de junho, para a tão esperada Academia Judaico-Cristã do Ocidente. Por enquanto, os cursos serão on-line, gerenciados e realizados diretamente nos Estados Unidos".

"Steve disse que permanecemos fiéis ao mosteiro, à comunidade e à Itália durante essa pandemia, quando seria fácil abandonar o país. Agora estamos lançando o programa de aprendizado e treinamento que tornará o mundo mais próspero, seguro e saudável para todos", acrescenta.

A relação com os evangélicos

Apesar da ruptura com os tradicionalistas católicos, Harnwell diz que admira muito o cardeal Raymond Burke. Indagado sobre o que pensa das igrejas evangélicas no Brasil, ele responde: 

"Acho que os evangélicos dão uma enorme contribuição positiva à vida pública do Brasil, assim como nos Estados Unidos. Infelizmente, a Igreja Católica perdeu muitos fiéis na América Latina por sua insistência em seguir uma política de esquerda radical conhecida como "a teologia da libertação. Quanto mais a Igreja Católica abraça a política de esquerda, mais os fiéis vão para outro lugar. Acho que no Brasil esse movimento é feio para a Igreja Católica, mas belo para os evangélicos fortes na fé e, portanto, também para a vida do país".

Segundo ele, a academia acolherá de braços abertos os evangélicos brasileiros em seus cursos. 

A admiração por Bolsonaro

Harnwell diz que admira o presidente Jair Bolsonaro.

"A campanha que Bolsonaro fez me impressionou, a maneira que ele despertou o interesse do povo, um pouco cínico na política. Obviamente este momento do coronavírus foi duro para todos, especialmente para o Brasil, onde não se tem a possibilidade de tratar pessoas com dificuldades respiratórias. O comportamento do presidente era o único possível: "Vamos em frente!". Não fechamos o país porque não tem jeito. O único jeito seria diminuir os número de infectados para poder tratá-los nos hospitais. Visto que esta possibilidade não existe, porque o sistema sanitário não é capaz de atender uma população assim tão grande, o presidente Bolsonaro disse: "Vamos em frente!".

Questionado sobre o perigo mortal a que Bolsonaro expõe a população, ao não respeitar o confinamento, o britânico responde:

"Bolsonaro disse que o povo é forte e capaz de enfrentar o problema. É capaz de ir em frente com coragem. Eu penso que o presidente não poderia ter feito outra coisa."

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