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BRF e JBS viram polo de contaminação em região mais afetada de SC, diz MPT

Funcionários da JBS em unidade da empresa no sul do país - Ueslei Marcelino
Funcionários da JBS em unidade da empresa no sul do país Imagem: Ueslei Marcelino
do UOL

Flávio Costa e Vinícius Konchinski

Do UOL, em São Paulo, e colaboração para o UOL, em Curitiba

28/05/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Trabalhadores de frigoríficos são até metade de contaminados em municípios do Alto Uruguai, em Santa Catarina
  • Região concentra seis das dez cidades com maior índice de contaminação por coronavírus no estado
  • Ministério Público e Ministério Público do Trabalho culpam empresas por surto na região
  • BRF e JBS informam que tomam todas as precauções necessárias para evitar a transmissão do coronavírus em suas unidades

Um frigorífico da BRF e outro da JBS têm relação direta com até metade dos casos de coronavírus em algumas das cidades mais afetados pela pandemia em uma região do estado de Santa Catarina, afirmam o MP-SC (Ministério Público) e o MPT (Ministério Público do Trabalho).

Os estabelecimentos das duas multinacionais empregam, juntos, cerca de 6.500 habitantes do Alto Uruguai, no oeste catarinense. A região tem aproximadamente 150 mil habitantes divididos em 14 municípios.

Seis dos 14 municípios do Alto Uruguai integram a lista das dez cidades de Santa Catarina com maior incidência de covid-19, segundo a plataforma colaborativa Brasil.IO.: Lindóia do Sul (2º), Concórdia (3ª), Ipumirim (5º), Peritiba (6º), Presidente Castello Branco (8º) e Irani (9º).

"Encontraram erros grotescos, absurdos na unidade frigorífica da JBS, por exemplo", afirmou o procurador do Trabalho Anderson Luiz Corrêa da Silva, que monitora a situação da fábrica.

"A explosão de casos de coronavírus na região tem a ver com essas falhas já que a JBS, por exemplo, emprega trabalhadores de vários municípios", acrescentou o membro do MPT.

BRF e JBS informaram que tomam todas as precauções necessárias para evitar a transmissão do coronavírus em suas unidades.

A Acav (Associação Catarinense de Avicultura), o Sindicarne (Sindicato Indústria Carnes Derivados de Santa Catarina) e a ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal) negam que as empresas tenham responsabilidade sobre as contaminações.

Situação é "gravíssima"

O presidente da Amauc (Associação dos Municípios do Alto Uruguai Catarinense), Emerson Ari Reichert, disse ao UOL que a situação na região é "gravíssima".

Reichert, que também é prefeito da cidade de Ipira, afirmou que a operação dos frigoríficos intensificou a pandemia na região. "A atividade demanda muita mão de obra e deslocamento de pessoas de uma cidade para outra. É essencial e não parou. Isso contribuiu com o aumento da contaminação na região."

Fiscalização interdita frigorífico da JBS

A JBS tem cerca de 1,5 mil funcionários em seu frigorífico em Ipumirim (SC), no Alto Uruguai. A cidade tem aproximadamente 7,2 mil habitantes e, até o início desta semana, registrava 61 diagnósticos confirmados de coronavírus, o que a coloca como um dos municípios com maior índice de contágio do estado.

De acordo com a Prefeitura de Ipumirim, 30 dos 61 casos de coronavírus na cidade estão relacionados à JBS: 22 contaminados trabalham no frigorífico e oito têm relação direta com algum trabalhador (pai e filho, por exemplo).

A enfermeira responsável pela Vigilância Epidemiológica de Ipumirim, Milânia Zucchi, não vê falhas no controle da transmissão do coronavírus por parte da JBS.

No último dia 18, entretanto, auditores fiscais do Trabalho vinculados ao Ministério da Economia interditaram o frigorífico da empresa na cidade, justamente por constatarem falhas.

Na ocasião, os auditores disseram que se depararam com um empregado da fábrica com teste positivo de coronavírus trabalhando normalmente. Ao todo, segundo os fiscais, 86 trabalhadores do frigorífico, incluindo quem mora fora de Ipumirim, já tiveram contaminação por coronavírus confirmada.

Primeiro caso de Concórdia veio da JBS

Parte dos trabalhadores da JBS de Ipumirim mora em Concórdia, município vizinho. Em 11 de abril, Concórdia registrou seu primeiro caso de coronavírus. O infectado era justamente um funcionário do frigorífico da JBS.

Hoje, a cidade já têm 512 casos confirmados de coronavírus, com índice de contaminação entre os mais altos do estado de Santa Catarina.

Segundo a prefeitura, pelo menos 140 habitantes contaminados têm relação com a agroindústria, ou seja, mantém alguma relação com frigoríficos da região. Em Concórdia, aliás, fica uma unidade da BRF que emprega cerca de 5,1 mil pessoas da cidade e arredores.

Mais de 300 casos positivos na BRF

O número de infectados em Concórdia, entretanto, ainda não leva em conta que 338 funcionários desse frigorífico da BRF testaram positivo para covid-19 de quinta (21) a domingo (24). Considerando esses números, as contaminações chegam a 850 — mais da metade relacionada à agroindústria.

A BRF argumenta que seus funcionários passaram por testes rápidos. Quem testou positivo será submetido a um exame mais preciso para confirmar ou não o contágio.

Acontece que, desde o final de abril, a Secretaria de Saúde de Santa Catarina já inclui, em dados sobre contaminação, os resultados de testes rápidos. Portanto, esses funcionários já constam como diagnósticos confirmados para a doença.

Reichert informou que a Amauc, na prática, já considera os novos números para planejar ações de combate à covid-19. "Para gente, é como se fossem casos confirmados."

O MP-SC segue a mesma linha e culpa as empresas. "Você tem em Concórdia quase 500 casos ligados a frigoríficos. É muita coisa", comentou o promotor Douglas Roberto Martins, coordenador do Centro de Apoio Operacional dos Direitos Humanos e Terceiro Setor do MP-SC.

"Não há dúvida de que há uma relação dos frigoríficos com a situação no Alto Uruguai", acrescentou.

Martins ressaltou que essa relação já é visível em outra região de Santa Catarina. Segundo o promotor, Chapecó e cidades no seu entorno têm apresentado um grande crescimento de contaminações. "Temos três frigoríficos ali. Isso já entrou no nosso monitoramento."

Empresas dizem proteger empregados

A BRF e a JBS foram procuradas pela reportagem UOL. Nenhum representante da empresa concedeu entrevista.

A BRF informou em nota que "está muito segura do cumprimento efetivo de todas as medidas protetivas e protocolos indicados pela OMS (Organização Mundial da Saúde) e Ministério da Saúde".

"Entre as iniciativas adotadas pela empresa estão uso obrigatório de máscaras e demais EPIs [equipamentos de proteção individual] recomendados para proteção contra a covid-19, distanciamento mínimo entre funcionários, medição de temperatura nas entradas das unidades e limite de 50% da capacidade de trabalhadores nos veículos fretados", complementou a empresa.

A BRF declarou ainda que "não medirá esforços para garantir, em primeiro lugar, a segurança das pessoas envolvidas em seu contexto operacional".

A JBS também declarou em nota ter "como objetivo prioritário a saúde dos seus colaboradores e adota um rígido protocolo de prevenção contra a covid-19 em suas unidades".

"A JBS reitera que suas operações seguem os mais elevados padrões de segurança."

A empresa considera "injustificável" a interdição de seu frigorífico em Ipumirim e informa que "tomará as medidas judiciais para retomada das operações".

Associações apoiam as empresas

A ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal) reforçou que "as agroindústrias cumprem rigorosamente as leis brasileiras, como é o caso da orientação conjunta constituída pelos Ministérios da Saúde, da Agricultura e da Economia para o trabalho nos frigoríficos durante o período de pandemia".

"ABPA reafirma que a saúde dos colaboradores e a oferta de alimentos para a população são prioridades indiscutíveis."

Jorge Luiz de Lima, gerente-geral da Acav e do Sindicarne, ratificou em entrevista ao UOL os esforços do setor durante a pandemia. Ele negou que os frigoríficos tenham qualquer responsabilidade pelo alto índice de contaminação em cidades do Alto Uruguai.

"Absolutamente não", disse. "Não há testagem da população em geral e, assim, não é possível dizer que há mais trabalhadores de frigoríficos contaminados do que em outros setores."

Adauto Castelo Filho, médico infectologista e consultor da JBS, também cita a falta de testes para negar a responsabilidade dos frigoríficos. Ele diz ainda que muitos empregados contaminados podem ter contraído o vírus fora do trabalho.

"O funcionário fica oito horas no trabalho e vai para casa. No fim de semana, faz um churrasco, encontra pessoas. Isso não é responsabilidade da empresa."

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