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Falta de combustível na Venezuela acirra tensão entre EUA e Irã

ISAAC URRUTIA / Reuters
Imagem: ISAAC URRUTIA / Reuters

Correspondente da RFI em Caracas

22/05/2020 08h09

A escassez de gasolina na Venezuela aumenta a tensão já existente entre Estados Unidos e Irã. O país, sócio fundador da Organização de Países Produtores de Petróleo (Opep) e detentor de uma das maiores reservas de petróleo do mundo, está precisando importar combustível. Um carregamento vindo de Teerã está previsto para chegar hoje, apesar das advertências de Washington.

O ministro da Defesa venezuelano, Vladimir Padrino López, informou que as embarcações serão escoltadas por barcos e aviões das Forças Armadas Bolivarianas. Na região do Caribe, bem perto das águas venezuelanas, estão posicionadas patrulhas dos Estados Unidos que atuam no combate ao tráfico de drogas. A tensão entre os três países - Venezuela, Estados Unidos e Irã - está ganhando proporções inesperadas.

Após mais de oito semanas de escassez de gasolina nas principais cidades do país, inclusive na capital Caracas, os venezuelanos aguardam com ansiedade a gasolina importada do Irã. Está previsto que hoje atraquem na Venezuela cerca de cinco navios cargueiros de bandeira iraniana com combustíveis e produtos petroleiros.

A importação busca minimizar a escassez, que deixou parada quase toda a frota do país. Até mesmo o trânsito de ambulâncias e de alimentos ficou paralisado.

Há meses o interior do país sofre com a falta de combustível, mas a o problema piorou durante a quarentena. Nicolás Maduro estendeu até a metade de junho as medidas para evitar o aumento de casos da covid-19. Na quinta-feira (21), a vice-presidente Delcy Rodríguez informou que subiu para 882 pessoas o número de infectados pelo novo coronavírus.

Apesar da gravidade da pandemia, as pessoas fazem até 30 horas de fila para colocar entre oito e 20 litros de combustível. A escassez levou o presidente venezuelano e o iraniano a fortalecerem a cooperação e a lutarem contra as sanções impostas pelos Estados Unidos a ambos os países.

No mês passado, aviões do Irã aterrissaram na Venezuela trazendo materiais para reativar a produção de gasolina em uma parte da refinaria de Cardón, uma das maiores do país e localizada no noroeste venezuelano. Desde o governo do ex-presidente Hugo Chávez (1999-2013), Teerã e Caracas mantêm estreitas relações.

Opositores de Nicolás Maduro afirmam que o carregamento de combustível será pago com toneladas de ouro extraídas de minas da Venezuela. Segundo eles, a Mahan Air Lines - uma linha aérea iraniana sancionada por transportar armas - fez trajetos ao noroeste venezuelano entre abril e maio deste ano para supostamente levar para Teerã o metal precioso.

De produtor a importador

Durante vários meses, os funcionários da estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA) denunciaram as péssimas condições das principais refinarias do país. A falta de investimentos foi um dos motivos da queda da produção.

A situação se agravou com as sanções impostas pelo governo de Donald Trump à Petróleos de Venezuela. Os Estados Unidos também pressionam as empresas estrangeiras de energia para que elas não negociem com o governo bolivariano.

A Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do mundo, mas sua produção cai vertiginosamente. Além do impacto das sanções, analistas apontam que o colapso da indústria petroleira venezuelana é atribuído à má política, à falta de investimento e à corrupção.

As refinarias da estatal PDVSA têm capacidade de processar 1,3 milhão de barris de petróleo por dia. Mas após anos de baixa manutenção, as instalações só processam diariamente 101 mil barris de petróleo. Em março passado foram produzidos apenas sete mil barris de gasolina por dia, de acordo com documentos internos da estatal.

Para se manter, a PDVSA, a empresa que já foi o motor econômico da Venezuela, vem aceitando combustível importado como pagamento pela exportação de petróleo.

Críticas internacionais

Desde que assumiu o poder, o presidente americano, Donald Trump, vem aplicando sanções ao governo de Nicolás Maduro. Já o Irã enfrenta há anos os bloqueios aplicados por Washington. O que é inédito é uma escalada de tensão motivada pela Venezuela e sua escassez de combustível.

Craig Faller, coordenador do Comando Sul dos Estados Unidos na região do Caribe, declarou que Washington acompanha "com preocupação" as ações do Irã com a Venezuela. No entanto, ele não comentou sobre a chegada dos navios cargueiros.

Já Mike Pompeo, o secretário de Estado americano, afirmou que é "preocupante" que o Irã leve o ouro da Venezuela, em referência às denúncias de opositores de Maduro sobre as supostas transações entre Teerã e Caracas.

O ministro iraniano das Relações Exteriores, Mohammad Javad Zarif, enviou uma carta ao chefe da ONU, Antonio Guterres, advertindo que qualquer medida aplicada por Washington contra o envio do combustível seria perigosa, ilegal e uma forma de pirataria.

O governo iraniano afirmou que haverá "consequências" caso os Estados Unidos impeçam a entrega do combustível e produtos petroleiros à Venezuela.

"A Venezuela e o Irã são estados independentes que têm e continuarão tendo relações comerciais entre si", garantiu o porta-voz do governo iraniano Ali Rabiei.

"Ouro de sangue"

O líder opositor Juan Guaidó afirma que Caracas paga os produtos importados do Irã com ouro extraído ilegalmente das minas do sul da Venezuela. Ele, que conta com o apoio de mais de 50 países, entre eles, os Estados Unidos, garantiu que "estão pagando essa gasolina com ouro de sangue".

Além disso, a presença iraniana em território venezuelano é motivo de alarme por causa da posição "estratégica" da Venezuela. Guaidó também afirmou que a importação de combustível do Irã só "enriquecerá as máfias".

Outros críticos à gestão de Maduro acreditam que a Venezuela também enviará parte do carregamento iraniano à Cuba, como parte da ajuda política que o governo de Havana dá ao governo bolivariano.

Já Diosdado Cabello, um dos homens fortes do chavismo, debochou ao afirmar que "essa gasolina que vem do Irã tem um alto conteúdo de comunismo". Ele também garantiu que o combustível "não é apto aos esquálidos" - como o chavismo costuma se referir aos cidadãos opositores.

Escolta das Forças Armadas

O ministro venezuelano da Defesa, Vladimir Padrino López, afirmou que "esses navios, quando entrarem na nossa zona econômica exclusiva, serão escoltados por embarcações e aviões das Forças Armadas".

Desde abril, o governo dos Estados Unidos vem implementando maior vigilância ao crime organizado e ao tráfico de drogas na região do Caribe, perto da costa venezuelana, utilizando unidades de combate. Esse patrulhamento pode representar maior tensão entre os países quando os cargueiros estejam perto do limite marítimo venezuelano.

Na quinta-feira (21) a Venezuela também realizou exercícios militares para posicionar um sistema de mísseis de alta pressão para a defesa territorial.

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