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Bolsonaro não disse "Polícia Federal", mas falou "PF" em reunião

do UOL

Do UOL, em São Paulo

22/05/2020 22h33Atualizada em 23/05/2020 07h38

O vídeo da reunião ministerial do dia 22 de abril, cujo sigilo foi derrubado hoje pelo ministro Celso de Mello, do STF (Supremo Tribunal Federal), mostra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) dizendo que vai interferir nos ministérios e se queixa de falta de informações. "Eu não posso ser surpreendido com notícias. Pô, eu tenho a PF que não me dá informações", afirma

Depois que o ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, deixou o governo federal, afirmando que Bolsonaro tentou interferir na PF, o presidente tem dito que não disse na reunião o termo "polícia federal", mas que se referia ao serviço de inteligência.

"E me desculpe, o serviço de informações nosso, todos, é uma vergonha, é uma vergonha! Que eu não sou informado! E não dá para trabalhar assim. Fica difícil. Por isso, vou interferir! E ponto final, pô! Não é ameaça, não é uma extrapolação da minha parte. É uma verdade", esbravejou, olhando para o lado onde estava Moro (assista no vídeo acima, a partir de 7min50s).

"Eu tenho as inteligências das Forças Armadas que não tenho informações. Abin tem os seus problemas, tenho algumas informações. Só não tenho mais porque tá faltando, realmente, temos problemas, pô! Aparelhamento etc. Mas a gente num pode viver sem informação", disse.

Em outro momento, ele volta a ressaltar que vai interferir nos ministérios. E usa "PF", sigla da Polícia Federal (veja no vídeo abaixo, a partir de 11min).

E eu tenho o poder e vou interferir em todos os ministérios, sem exceção. Nos bancos eu falo com o Paulo Guedes, se tiver que interferir. Nunca tive problema com ele, zero problema com Paulo Guedes. Agora os demais, vou! Eu não posso ser surpreendido com notícias. Pô, eu tenho a PF que não me dá informações
Jair Bolsonaro, presidente da República

"A verdade foi dita", diz Moro

O ex-ministro Sergio Moro se manifestou pouco tempo depois da divulgação do vídeo sobre a reunião ministerial e disse que "a verdade foi dita".

"A verdade foi dita, exposta em vídeo, mensagens, depoimentos e comprovada com fatos posteriores, como a demissão do Diretor Geral da PF e a troca na superintendência do RJ. Quanto a outros temas exibidos no vídeo, cada um pode fazer a sua avaliação", escreveu ele, em seu perfil no Twitter.

'Segurança nossa'

Em outro trecho, bastante exaltado, Jair Bolsonaro fala sobre a dificuldade de trocar "gente da segurança nossa", sem citar a Polícia Federal, mas referindo-se a um funcionário "da estrutura" do governo federal.

É putaria o tempo todo para me atingir, mexendo com a minha família. Já tentei trocar gente da segurança nossa, oficialmente, e não consegui. Isso acabou. Eu não vou esperar foder minha família toda de sacanagem, ou amigos meus, porque não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha -- que pertence à estrutura nossa. Vai trocar! Se não puder trocar, troca o chefe dele; não pode o chefe dele? Troca o ministro. E ponto final. Não estamos aqui para brincadeira
Jair Bolsonaro (assista ao trecho no vídeo abaixo, a partir de 8 min50s)

O presidente afirma na reunião que "o sistema de informações, o meu funciona", mas "os que temos oficialmente, desinformam", sem explicar exatamente quais seriam estes sistemas oficiais.

"Voltando ao tema: prefiro não ter informação do que ser desinformado por sistema de informações que eu tenho. Então, pessoal, muitos vão poder sair do Brasil, mas não quero sair e ver a minha a irmã de Eldorado, outra de Cajati, o coitado do meu irmão capitão do Exército de Miracatu se foder, porra! Como é perseguido o tempo todo", disse (assista no trecho do víde acima, a partir de 8 mim).

O presidente citou na reunião, como exemplo, pais que escutam o que fazem os filho "por trás da porta".

"Tem que ver. Depois que ela engravida, não adianta falar com ela mais. Tem que ver antes. Depois que o moleque encheu os cornos de droga, já não adianta mais falar com ele, já era. E informação é assim", afirma.

Inquérito no STF

Sergio Moro acusa o presidente Jair Bolsonaro de tê-lo pressionado por trocas em postos de comando na Polícia Federal. Bolsonaro nega a acusação e diz ter se referido a mudanças na segurança pessoal e de sua família.

O vídeo está sendo analisado no inquérito aberto no STF a pedido da PGR (Procuradoria-Geral da República) para investigar as acusações de eventual interferência política do presidente sobre a Polícia Federal.

O vídeo foi entregue pela Polícia Federal ao gabinete do ministro na última segunda-feira, em um pen drive. Celso de Mello assistiu à gravação de sua casa em São Paulo, por meio de um sistema que realizou a transmissão das imagens direto de seu gabinete no STF, em Brasília.

O ministro retirou o sigilo do vídeo (com cerca de duas horas de duração) e divulgou quase na íntegra a gravação e transcrição da reunião —apenas dois trechos que citavam outros países teriam sido retirados.

Errata: o texto foi atualizado
O trecho do vídeo em que o presidente Bolsonaro se refere à Polícia Federal está aos 7min50, e não 1min50 como informado anteriormente. O texto foi corrigido.

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