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Em nome do pai, chinês pede respostas às autoridades sobre epidemia

03/04/2020 08h28

Wuhan, China, 3 Abr 2020 (AFP) - Zhang perdeu o pai no início da epidemia e, por este motivo, não tem medo de acusar as autoridades chinesas de terem minimizado a doença e demorado a reagir, o que custou milhares de vidas humanas.

Wuhan, metrópole de 11 milhões de habitantes e origem do vírus no fim do ano passado, começa a sair aos poucos do confinamento, que acabará por completo na próxima quarta-feira (8).

Pequim deseja que todos esqueçam os primeiros dias caóticos da epidemia e se vangloria de ter freado o contágio, que se propagou por todo mundo como rastilho de pólvora.

Para Zhang, no entanto, é uma vitória amarga.

O homem, de 50 anos, conta à AFP que acompanhou o pai até o hospital em janeiro para uma intervenção leve, antes que os habitantes Wuhan entrassem em quarentena. Poucos dias depois, o paciente morreu vítima da COVID-19.

Zhang exige explicações e acusa as autoridades de mentirem e de incompetência.

"Não tenho medo. Quero saber a verdade", afirma, depois de revelar que entrou em contato com o governo municipal.

Zhang não revela o nome completo, porque sabe das possíveis consequências para quem fala com a imprensa estrangeira.

- Revolta nas redes sociais -Como ele, parentes de vítimas expressam a revolta nas redes sociais, acusando o governo do presidente Xi Jinping de subestimar o balanço da epidemia.

Apesar do novo coronavírus ter sido detectado em dezembro, alguns médicos de Wuhan foram repreendidos depois que alertaram para o risco. Apenas em 20 de janeiro as autoridades de saúde anunciaram a capacidade de transmissão entre humanos, pouco antes das medidas de quarentena na cidade.

Neste período, milhões de pessoas abandonaram a cidade, propagando a doença para o resto do país e do mundo.

O pai de Zhang ficou doente após a operação e faleceu depois de ter sido admitido em um serviço para pacientes em quarentena.

"Estou devastado com o remorso. Trazê-lo aqui foi como tê-lo levado para morte", lamenta Zhang, convencido de que seu pai contraiu a doença durante a internação.

- Balanço questionado -Fora da China, cada vez mais pessoas questionam o número real de vítimas divulgado pelo governo de Pequim. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, já duvidou do balanço.

De acordo com os últimos números oficiais, a doença contaminou 82.000 pessoas na China e matou 3.300, um balanço muito inferior ao de países como Itália, Espanha e Estados Unidos.

Nenhuma investigação oficial foi anunciada sobre as responsabilidades ante a pandemia. O governo chinês se limitou a destituir autoridades locais.

Isto não é suficiente para Zhang, que mantém contato on-line com outros parentes de vítimas.

"Algumas famílias perderam três pessoas", relata.

Navegar na Internet na China é muito arriscado, porém, e o grupo do qual ele participava foi infiltrado pela polícia, que convocou seu administrador esta semana, afirma Zhang.

Pouco depois da morte, seu pai foi cremado, mas sem a presença da família, que estava confinada como o restante da população local.

Muito magro, abatido e com o rosto coberto por uma máscara durante a entrevista à AFP, Zhang resiste à pressão das autoridades, que pedem para ele buscar as cinzas do pai e depois enterrá-lo.

- "Vigilância" -Ele não deseja cumprir as novas regras que impõem à família que apresente um pedido oficial de acesso ao cemitério e que depois seja acompanhado por funcionários públicos.

"Isto é vigilância", declarou Zhang.

As autoridades justificam as medidas para evitar as aglomerações e qualquer risco de contágio.

Os parentes das vítimas exigem uma investigação oficial e punição dos culpados, resume Zhang.

"O comportamento dos governantes de Wuhan provocou esta catástrofe de origem humana", afirma.

"Os governantes esconderam a verdade, e os especialistas mentiram, o que provocou a morte de muitas pessoas, incluindo meu pai", completou.

"Ele está morto, eu continuo vivo. Preciso de uma explicação", conclui.

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