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Coronavírus atinge a Venezuela, e Maduro aperta repressão aos críticos

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro - Federico Parra/AFP
O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro Imagem: Federico Parra/AFP

Angus Berwick, Sarah Kinosian e Maria Ramirez

em Caracas (Venezuela)

25/03/2020 19h40

Em 13 de março, Melquiades Ávila, líder indígena e jornalista no remoto estado venezuelano de Delta Amacuro, perguntou em sua popular conta no Facebook: "Nosso hospital estará pronto para o coronavírus?"

No início daquela semana, quando a Venezuela confirmou suas primeiras infecções pelo novo coronavírus, o Ministério da Saúde do presidente Nicolás Maduro listou em seu site o Hospital Luis Razetti, de Delta Amacuro, como um dos 46 centros médicos "preparados" para receber pacientes com covid-19.

Ávila enumerou vários motivos, todos confirmados pela Reuters em entrevistas com médicos do hospital, de por que a alegação era falsa: a instalação não possui monitores de pressão arterial, seringas ou reagentes para diagnosticar infecções por coronavírus.

"Que piada", escreveu Ávila.

Um dia depois, Lizeta Hernández, governadora de Delta Amacuro e integrante do governista Partido Socialista, pediu a prisão de Ávila, acusando-o de "incitação ao ódio" e denunciando-o como "criminoso". Ela ordenou que o destacamento do Exército estadual detivesse Ávila para que ela pudesse "lhe dar uma aula no sentido de dever público".

Em uma mensagem de voz à Reuters, a governadora disse nesta semana que só queria "orientar" Ávila e garantir que ele estivesse sendo "sério e responsável" como jornalista. Ela se recusou a responder perguntas sobre o hospital ou confrontos anteriores com Ávila, que há anos critica os cuidados de saúde no Estado.

Raquel Ruiz, diretora do hospital, negou que as instalações não estejam preparadas e acrescentou que as autoridades estaduais estão preparando um prédio próximo para tratar pacientes com coronavírus.

A ameaça contra Ávila — que agora está escondido, mas falou com a Reuters por telefone — é um de pelo menos sete episódios recentes em que as autoridades venezuelanas tentaram prender críticos da reação do governo ao coronavírus, segundo entrevistas com três acusados e advogados de quatro outros.

Além de Ávila, a polícia deteve um parlamentar da oposição que tuitou — corretamente, de acordo com os profissionais de saúde da instalação — que outro hospital da lista "preparada" não tem água corrente. A polícia também prendeu um técnico médico aposentado que, em um vídeo, disse que um hospital no Estado de Monagas não estava preparado.

Autoridades dos ministérios da Saúde, Justiça e Informação da Venezuela não responderam aos pedidos de comentários sobre detenções, condições nos hospitais ou envolvimento da polícia na resposta ao coronavírus.

Mesmo em circunstâncias normais, a dissidência pode submeter cidadãos à prisão, sentenças de prisão ou coisa pior na Venezuela, onde políticas agressivas de segurança levaram democracias ocidentais a sancionar o governo por violações dos direitos humanos. Agora, oponentes do governo dizem que o coronavírus oferece uma nova oportunidade para Maduro reprimir.

(Reportagem adicional de Vivian Sequera, em Caracas; Mariela Nava, em Maracaibo; Anggy Polanco, em San Cristobal; Keren Torres, em Barquisimeto; e Mircely Guanipa, em Maracay)

*Tradução: Redação da Reuters no Rio de Janeiro

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