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Bloomberg gastou mais de US$ 5 milhões por delegado; entenda financiamento

Michael Bloomberg durante debate entre pré-candidatos democratas à Presidência dos EUA em Las Vegas - Reuters
Michael Bloomberg durante debate entre pré-candidatos democratas à Presidência dos EUA em Las Vegas Imagem: Reuters
do UOL

Carolina Marins

Do UOL, em São Paulo

04/03/2020 19h48

Resumo da notícia

  • Empresário e bilionário fez a maior injeção de dinheiro próprio na história das eleições americanas
  • Apesar do gasto milionário, Bloomberg desistiu da campanha e apoiará Biden
  • Entenda como funcionam as regras de financiamento de campanha nos EUA

O sonho de concorrer à presidência nas eleições americanas começou tarde e terminou cedo para Michael Bloomberg. O empresário e três vezes prefeito de Nova York teve resultado ínfimo na Super Terça de ontem, na qual recebeu apenas 12 delegados, contra mais de 400 de Joe Biden, o grande vencedor da noite. O democrata acabou deixando a corrida pela presidência.

No processo eleitoral do país, os delegados se comprometem com um pré-candidato para representar na convenção nacional. Assim, os nomes com mais delegados viram o representante do partido na eleição.

Na tentativa de compensar o tempo perdido, ele fez a maior injeção de dinheiro próprio em uma campanha na história dos EUA: US$ 750 milhões. Bloomberg é o 12º homem mais rico do mundo, e agora apoiará Joe Biden.

Do total de investimentos feitos por Bloomberg, mais de US$ 500 milhões foram gastos em propaganda e US$ 224 milhões foram destinados apenas aos 14 estados da Super Terça, dez vezes mais que seus adversários.

Segundo levantamento feito pela Fox News, esses US$ 224 milhões investidos em publicidade representaram um gasto de aproximadamente US$ 5 milhões por cada delegado que Bloomberg levou. Considerando a cotação de hoje do dólar, o valor equivale a R$ 22 milhões.

Bloomberg deixou a corrida com apenas 12 delegados, mas com a contagem de votos ainda está em andamento, ele já teve mais de 40 delegados até então, 10% a menos que Joe Biden.

Os delegados mais caros vieram do Texas, onde seus cerca de US$ 54 milhões em publicidade lhe renderam um total de quatro delegados.

A pior derrota foi na Virgínia, segundo contabilizou o Wall Street Journal. Biden e seus aliados gastaram cerca de US$ 360 mil em propaganda na Virgínia, 2% menos do que Bloomberg. Ainda assim, Biden foi o grande vencedor no estado, com 53% dos votos, seguido por Sanders com 23% e Warren com 11%. Bloomberg alcançou apenas 10% dos votos.

Até o momento, Bernie Sanders investiu US$ 55 milhões em propaganda, contra US$ 27 milhões de Elizabeth Warren e US$ 16 milhões de Joe Biden. Além de Bloomberg, Warren também investiu dinheiro próprio em campanha: cerca de US$ 400 mil dólares. Sanders e Biden não se autofinanciaram

Mesmo com a injeção de dinheiro, a derrota foi avassaladora para Bloomberg e também tem sido um cenário ruim para Warren. Até o momento, Biden tem 433 delegados, contra 388 de Bernie Sanders e 36 de Elizabeth Warren.

Financiamento de campanha nos EUA

O financiamento de campanha nos EUA funciona de maneira distinta do sistema brasileiro e permite que os próprios candidatos e empresas privadas entrem com dinheiro.

"O sistema dos EUA combina tanto doações privadas como acesso a fundo público", explica o professor do Instituto de Relações Internacionais da USP, Pedro Feliú. "Pessoas físicas podem doar e candidatos podem se autofinanciar. Embora empresas e sindicatos não possam fazer doações diretas, elas podem doar para os PACs (comitês independentes que podem apoiar candidatos)."

"Há também a possibilidade de candidatos recorrerem a um fundo público, mas, desde que preencham alguns pré-requisitos e se submetam a regulamentações mais restritas. É um modelo regulamentado que permite a doação e busca idealmente a transparência. Os candidatos podem receber financiamento privado, desde que a informação esteja acessível ao eleitor", explica o professor.

Devido à entrada tardia na corrida pela liderança democrata, Bloomberg não pôde contar com dinheiro de comitê de campanha ou doações. A saída foi então utilizar o próprio dinheiro.

Enquanto isso, seus adversários foram arrecadando dinheiro para suas campanhas. Bernie Sander já arrecadou US$ 132 milhões e gastou US$ 120 milhões até então. Elizabeth Warren já levantou US$ 91 milhões e gastou US$ 89 milhões, enquanto Joe Biden arrecadou US$ 68 milhões e gastou US$ 61 milhões de dólares.

Como apontou Pedro Feliú, o investimento maciço em campanha, historicamente, não é sinônimo de vitória.

"O impacto do dinheiro na obtenção de votos não é uma correlação tão perfeita. Isso não significa que não seja uma condição necessária ter um montante mínimo de arrecadação de campanha para lograr votos. Mas, se olharmos as duas últimas eleições presidenciais americanas, percebemos sinais mistos".

Em 2016, Hillary Clinton arrecadou US$ 1,2 bilhão durante toda a campanha eleitoral, segundo revelou a Comissão Federal de Eleições (FEC). Donald Trump arrecadou apenas US$ 600 milhões. Em gastos, Hillary e Trump gastaram, respectivamente, US$ 900 milhões e US$ 500 milhões de dólares. Em 2012, Obama conseguiu arrecadar US$ 1,06 bilhão contra US$ 954 de Mitt Rommey.

"Enquanto Obama arrecadou mais do que Romney e obteve a vitória, Hillary Clinton arrecadou muito mais do que Trump. Embora ela tenha tido mais votos, não venceu a corrida presidencial", avalia Feliú. "Dinheiro ajuda, mas não garante a eleição. Nesse sentido, há um limite para que os gastos de Bloomberg se tornem votos."

Desconfiança eleitoral

Segundo o professor, mesmo o investimento massivo na campanha não seria suficiente para convencer parte do eleitorado democrata que vê com desconfiança os tempos de Bloomberg na prefeitura de Nova York.

"Há um limite do que o dinheiro pode fazer, e ele sofre resistência de parte do eleitorado democrata por conta da sua polêmica política de segurança pública enquanto prefeito de Nova York, principalmente entre o eleitorado afro-americano e latino."

Durante sua administração em Nova York, foi criada uma política chamada "stop and frisk", que permitia à polícia buscar, interrogar e deter temporariamente cidadãos, em especial negros e latinos.

Considerada racista, a política recebeu críticas e ações judiciais para derrubá-la. Ainda assim, Bloomberg continuou defendendo-a anos após sair da prefeitura e só pediu desculpas há pouco tempo, dizendo que o programa havia "saído do controle".

O candidato também não tem boa fama entre a comunidade muçulmana. Logo após os ataques de 11 de setembro, a polícia de Nova York vigiou estudantes muçulmanos e mesquitas da cidade, segundo revelou a Associated Press em uma reportagem que ganhou o prêmio Pulitzer.

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