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Testamos: ônibus híbrido da VW usa motor de Golf e roda 200 km sem recarga

do UOL

Vitor Matsubara

Do UOL, em São Paulo (SP)

24/02/2020 04h00

Resumo da notícia

  • E-Flex é um protótipo desenvolvido no Brasil que fez sucesso na Europa
  • Ônibus usa motor 1.4 TSI de 150 cv como gerador para motor elétrico
  • Autonomia estimada é de até 200 km; coletivo transporta até 65 passageiros

Passear de trólebus pelas ruas do Centro de São Paulo era um dos meus passatempos favoritos de infância. Admito que ficava fascinado com a ideia de andar em um ônibus tão grande que quase não fazia barulho, especialmente quando você tem só cinco anos. Desde então alimentava um sonho: dirigir um ônibus.

Assim dá para imaginar como essa reportagem foi especial para mim. Dirigir um ônibus híbrido foi a realização de dois grandes sonhos. E de quebra ainda fui o primeiro jornalista a guiar o E-Flex, ônibus híbrido flex do mundo que ainda está na fase de protótipo.

"O E-Flex é resultado de uma plataforma modular de veículos eletrificados que estamos desenvolvendo há três anos. Sua proposta é a de um carro de passeio por meio do uso do motor 1.4 TSI que é consagrado no Golf e traz a flexibilidade de diferentes formas de tração e propulsão. E existe ainda a possibilidade de trabalhar com diferentes matrizes energéticas, como etanol, gasolina e até gás natural", afirma Argel Franceschini, supervisor de engenharia de mobility e autônomos da Volkswagen Caminhões e Ônibus.

Sucesso no mundo

O E-Flex é um projeto desenvolvido totalmente no Brasil pela Volkswagen Caminhões e Ônibus. Fez sua estreia no Salão de Hannover de 2018, o maior evento de utilitários e veículos pesados do mundo.

Protótipo foi muito bem recebido em importantes eventos realizados na Europa - Malagrine Estúdio
Protótipo foi muito bem recebido em importantes eventos realizados na Europa
Imagem: Malagrine Estúdio

Além da Alemanha, ele também participou de um evento de inovação na Suécia, onde foi muito bem recebido. Não é para menos: trata-se do primeiro estudo de ônibus do grupo Traton (formado pelas marcas MAN, VW Caminhões e Ônibus e Scania) com propulsão híbrida flex.

A filial brasileira, aliás, se firmou dentro do grupo como uma forte apoiadora de fontes alternativas de propulsão. É dela o projeto do E-Delivery, o versátil caminhão elétrico revelado na última Fenatran.

Cara de ônibus, coração de Golf

O E-Flex tem dois motores: um movido a gasolina ou etanol e outro elétrico. O motor a combustão é um velho conhecido da indústria automotiva: é o 1.4 TSI de 150 cv que equipa vários modelos da Volkswagen, como Jetta, Polo GTS e Golf GTE - o primeiro automóvel hibrído vendido pela marca no país.

No E-Flex ele serve como gerador para as baterias do motor elétrico e entra em ação quando a carga das baterias fica abaixo de 20% e deixa de funcionar quando a carga chega a 80%. Este tipo de híbrido é chamado de serial. De acordo com a fabricante, as baterias podem ser totalmente carregadas em até três horas.

Separados no nascimento: E-Flex e Golf GTE são exemplos de híbridos da VW - Malagrine Estúdio
Separados no nascimento: E-Flex e Golf GTE são exemplos de híbridos da VW
Imagem: Malagrine Estúdio

O projeto, inclusive, prevê até abastecimento com gás natural, exigindo apenas a substituição por um motor movido a GNV, conhecido dentro da VW como TGI.

"Nosso trabalho foi realizado por uma área de engenharia dedicada à eletrificação em parceria com a divisão de automóveis de Volkswagen. A gente trabalhou nos últimos dois anos para adaptar o powertrain do Golf 1.4 TSI para a aplicação em ônibus e utilizamos este tempo para desenvolver e amadurecer esta tecnologia", revelou Argel.

O motor elétrico entrega o equivalente a 408 cv e pode rodar até 200 quilômetros. As baterias ficam na parte superior do ônibus, perto do teto - o que aumenta muito o espaço dentro da cabine. Até 65 passageiros viajam confortavelmente no ônibus, cuja carroceria é feita pela Marcopolo.

O som do silêncio

Se já é curioso não ouvir nada ao dar a partida em um carro elétrico, imagine só em um ônibus? Apenas uma luz no painel indica que estamos prontos para partir.

Não havia tantos obstáculos dentro da pista de testes da Volkswagen, localizada em Resende. Mesmo assim, dirigir o ônibus foi bem desafiador (e preocupante) nos primeiros minutos.

Dirigir um ônibus de 10 metros é mais fácil do que você pensa - Malagrine Estúdio
Dirigir um ônibus de 10 metros é mais fácil do que você pensa
Imagem: Malagrine Estúdio

O E-Flex aproveita uma das maiores virtudes dos veículos eletricos: o torque instantâneo, que neste caso é de incríveis 219,2 kgfm. Logo o ônibus ganha velocidade. A única estranheza fica por conta de estar em um ônibus sem ouvir praticamente nenhum ruído de motor. Se o coletivo estiver vazio (como estava na ocasião de nosso teste) o condutor consegue escutar até o barulho dos pneus em contato com o solo.

Importante ressaltar como a dirigibilidade é surpreendente para um veículo tão comprido. O raio de giro é muito bom e as respostas ao volante são precisas. A direção é extremamente leve e o campo de visão do motorista é muito bom, algo importante quando se está guiando um ônibus de 10 metros de comprimento.

Resultado: rapidamente me senti a vontade e poucos minutos depois já estava andando como se estivesse guiando uma picape.

Outros elementos me fizeram sentir ao volante de um automóvel. O banco do motorista tem um desenho muito parecido com o dos carros da Volkswagen. Já o painel de instrumentos é o mesmo do E-Golf europeu da geração anterior - e lembra muito os modelos vendidos aqui. O seletor giratório dos faróis também é uma herança dos carros de passeio.

Quando chega às ruas?

Por enquanto, a VW Caminhões e Ônibus afirma que o E-Flex ainda está em fase de desenvolvimento. Justamente por isso é que o ônibus não deve se tornar realidade antes de 2022.

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