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Sem creche em SP, mãe gasta com cuidadora R$ 800 dos R$ 1.000 que ganha

Daniele Costa e as filhas Leticia Costa e Beatriz Costa: creche foi fechada pela prefeitura devido a fraudes - Arquivo pessoal
Daniele Costa e as filhas Leticia Costa e Beatriz Costa: creche foi fechada pela prefeitura devido a fraudes Imagem: Arquivo pessoal
do UOL

Cleber Souza

Do UOL, em São Paulo

14/02/2020 04h01

Resumo da notícia

  • Sem creche para as filhas, mãe afirma gastar R$ 800 com cuidadora particular
  • A creche que as crianças frequentavam foi fechada pela Prefeitura de SP
  • Instituições foram alvos de denúncias de irregularidades
  • Prefeitura diz que alunos serão realocados, mas não deu prazo para solução

"Trabalho todo dia, às vezes até no fim de semana e em feriado em um mercado. Não tenho com quem deixar minhas filhas, então gasto R$ 800 com a cuidadora e R$ 100 com o transporte escolar. Só que meu salário é pouco mais de R$ 1.000", diz Daniele Costa, 38, mãe de duas crianças sem creche no Jardim Gaivotas, zona sul de São Paulo.

Desde o início do mês, cerca de 700 crianças estão sem aulas na região, na periferia de São Paulo, e as famílias relatam dificuldades para trabalhar ou procurar emprego.

Das quatro unidades municipais de educação infantil do bairro, apenas uma está funcionando plenamente.

O Centro de Educação Infantil (CEI) Angelina, onde Letícia, 2 meses, e Beatriz, 2 anos, filhas de Daniele, estão matriculadas, foi fechado depois de a prefeitura cancelar o contrato com a Organização Social (OS) que o administrava.

Criança Creche - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Criança tenta entrar na CEI Angelina, na periferia da zona sul da capital paulista
Imagem: Arquivo pessoal

Do lado de fora, é possível ver problemas de manutenção na construção, mato crescendo e uma placa avisando aos pais de que é preciso procurar outra unidade, o CEI São Francisco — única da região operando, mas incapaz de absorver tantas crianças.

CEI Alvorada, no Jardim Gaivotas - Cleber Souza/UOL - Cleber Souza/UOL
CEI Alvorada, no Jardim Gaivotas, periferia da zona sul da capital paulista, está fechada desde o dia 5 deste mês
Imagem: Cleber Souza/UOL

No prédio vizinho, o CEI Alvorada tem toldos rasgados e lixo no chão. A unidade foi fechada após divergências no valor do aluguel pago pela prefeitura.

Tenho muitos exames para fazer. Sessões de fisioterapia. Infelizmente não consigo fazer, pois não tenho com quem deixar meu filho. Preciso urgentemente que as aulas da minha criança sejam retomadas", diz Patrícia Lima, 42, portadora de fibromialgia, condição que causa dores em diferentes partes do corpo. Sem creche para o filho Esdras Augusto, 1, a mãe teve que interromper o treinamento.

Casos se arrastam desde dezembro de 2019

Segundo relatos das mães, quando começaram a surgir as primeiras notícias de que as creches iriam ser fechadas, houve promessa de remanejamento das crianças.

"Quase dois meses e eles não conseguem resolver essa situação? Já sabíamos que iriam fechar as creches. Uma não tem infraestrutura, outra não tem professores. Na que meu filho estuda, o banheiro dos alunos é o mesmo que o dos professores", diz Gracy 24, mãe de Maycon Diniz, 1, prejudicado pelo fechamento do CEI Alvorada.

"Eles [prefeitura] gastam milhões com carnaval, com eventos em rua, com corrida em autódromo. Não podem gastar mais com educação infantil? É uma obrigação deles", afirma.

Gracy Diniz - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Gracy Diniz e seu filho Maycon Diniz, que está sem aula por conta da creche estar fechada
Imagem: Arquivo pessoal

Tempo médio para conseguir creche no Grajaú: 153 dias

Atualmente, 9.760 crianças aguardam a oportunidade de frequentar creches em São Paulo, menor fila na história da cidade.

Entrada principal da CEI Alvorada - Cleber Souza/UOL - Cleber Souza/UOL
Entrada principal da CEI Alvorada
Imagem: Cleber Souza/UOL
Mas o tamanho do problema deve ser ainda maior -- os casos retratados nesta reportagem não compõem esse número, já que, no papel, as crianças têm vagas.

Segundo dados de 2018 do Mapa da Desigualdade da Primeira Infância, da Rede Nossa São Paulo, o tempo médio de espera para uma vaga em creche na região do Grajaú, onde estão as unidades citadas pela reportagem, é de até 153 dias. Em bairros como Pinheiros, Consolação e Butantã, a espera varia entre 50 e 115 dias.

A falta de acesso a essas vagas, diz Beatriz Abuchaim, gerente de conhecimento aplicado da Fundação Cecilia Souto Vidigal, viola um direito constitucional e traz prejuízos para o desenvolvimento das crianças.

"A creche é crucial para a construção de uma base sólida e ampla que a prepare para a aprendizagem ao longo da vida", diz Beatriz.

O que diz a prefeitura?

Sobre as unidades citadas neste texto, a Secretaria Municipal de Educação afirmou que:

  • O CEI Alvorada está fechado porque o aluguel do imóvel previsto era de R$ 16 mil, mas verificou-se o pagamento de R$ 27 mil, e o dono do imóvel não chegou a um acordo com a prefeitura. Não foi informada data de transferência das crianças para outra unidade.
  • O CEI Angelina reabrirá como CEI Leão de Judá, sob outra gestora, também sem data para retomada das atividades.
  • A EMEI Gaivotas será beneficiada pela convocação de novos professores para o município. Também se prazo.

"Todos os alunos serão realocados o mais breve possível nas unidades da região e os 200 dias letivos serão cumpridos", afirma a secretaria em nota.

Em 2020, foram repassados da prefeitura para a secretaria municipal de educação, cerca de R$ 13,8 bilhões. 7,7% a mais que em 2019, segundo a pasta.

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