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Presidente mexicano na corda bamba em campanha contra corrupção

Cyntia Barrera Diaz, Justin Villamil e Amy Stillman

14/02/2020 15h39

(Bloomberg) -- A prisão de uma ex-autoridade do governo do México é um avanço para a campanha do país contra a corrupção, mas coloca o presidente Andrés Manuel López Obrador em uma situação delicada.

Por um lado, a prisão do ex-presidente da estatal de petróleo, acusado de fraude, representa uma vitória tangível para López Obrador em sua cruzada contra a corrupção, uma questão de extrema importância para os mexicanos. Mas, se o caso continuar se expandindo, poderá envolver figuras novas e poderosas e talvez colocar em risco a estabilidade política nacional.

Emilio Lozoya, o ex-CEO da Petróleos Mexicanos, está detido sem direto à fiança em uma prisão na Espanha, acusado de fraude no valor de US$ 280 milhões, e o México disse que tentará sua extradição. Confidente de longa data do antecessor de López Obrador, Enrique Peña Nieto, Lozoya havia sido membro-chave da campanha presidencial de Peña Nieto em 2012 antes de ser nomeado para o comando da Pemex.

López Obrador já começa a diminuir as expectativas de que o caso de Lozoya atinja Peña Nieto. O ex-presidente não é acusado de nenhuma irregularidade.

"Minha posição é de que o presidente não deve ser perseguido", afirmou López Obrador na quinta-feira, depois de ser questionado por repórteres sobre a investigação de seu antecessor.

A prisão de Lozoya, sob acusações de corrupção envolvendo a siderúrgica Altos Hornos de México e a Odebrecht SA, é a de mais alto perfil da campanha anticorrupção de López Obrador.

O presidente mexicano obteve uma vitória esmagadora em 2018 depois de prometer erradicar a corrupção endêmica do México. O país ocupa a 130ª posição entre os 180 países no Índice de Percepção de Corrupção da Transparência Internacional.

Analistas dizem que López Obrador fará todo o possível para controlar a investigação de modo a não dividir o México de maneira semelhante à experiência do Brasil com a Lava Jato, que prendeu dezenas executivos e políticos, incluindo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e ajudou a desencadear uma da recessões mais profundas do país.

"Ao contrário das investigações da Lava Jato no Brasil, López Obrador permanecerá no controle das investigações, e o sinal que enviou até agora é que é improvável que permita que as investigações cresçam e saiam de controle", disse Carlos Petersen, analista do Eurasia Group. "Provavelmente quer evitar que isso tenha consequências econômicas mais profundas."

A prisão de Lozoya pode abrir caminho para outras, disse o procurador-geral do México, Alejandro Gertz, em entrevista ao jornal El Universal. "Todos os casos que já abrimos, que são mais de 10, têm um denominador comum que você pode ver com muita clareza: existe um sistema, uma maneira de operar."

Lozoya fugiu do México e estava foragido há vários meses, escondendo-se das autoridades usando sua vasta rede de contatos e altos recursos para evitar sua prisão, disseram as autoridades. Os advogados de Lozoya disseram que ele é inocente.

Lozoya poderia enfrentar até 15 anos de prisão, disse o juiz espanhol Ismael Moreno na quinta-feira. Em sua prisão, Lozoya estava em posse de uma carteira de motorista com um pseudônimo, mas usando sua fotografia real, levando o tribunal a declarar risco de fuga.

Não está claro como os mexicanos responderão: López Obrador está numa corda bamba, porque os eleitores podem exigir uma investigação sobre Peña Nieto.

O presidente mexicano "disse desde o dia em que foi eleito que não tem interesse em perseguir seus antecessores", disse Maureen Meyer, especialista em México no Escritório de Washington para a América Latina. "O desafio será que, se seu governo for confrontado com evidências avassaladoras que mereçam uma investigação, se esta não for aberta, ficará sob extrema pressão e a pergunta de por que não a perseguiriam."

López Obrador parece entender isso e não fechou a porta completamente a uma investigação.

"Se as pessoas disserem que deve haver um julgamento, eu seria contra, porque não acho que seja certo para o país. Mas eu respeitaria a decisão do povo. Teríamos que fazer isso", disse o presidente na quinta-feira.

Para contatar o editor responsável por esta notícia: Daniela Milanese, dmilanese@bloomberg.net

Repórteres da matéria original: Cyntia Barrera Diaz Mexico City, cbarrerad@bloomberg.net;Justin Villamil Mexico City, jvillamil18@bloomberg.net;Amy Stillman Mexico City, astillman7@bloomberg.net

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