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Disque Denúncia expõe milícia, que gera um relato a cada 69 minutos no Rio

Ligação entre PMs e milícia é investigada em pelo menos 5 batalhões do Rio - Jose Lucena/Futura Press/Estadão Conteúdo
Ligação entre PMs e milícia é investigada em pelo menos 5 batalhões do Rio Imagem: Jose Lucena/Futura Press/Estadão Conteúdo
do UOL

Herculano Barreto Filho

Do UOL, no Rio

25/01/2020 04h02

Resumo da notícia

  • Levantamento aponta alta de 64,6% de denúncias sobre o elo tráfico-milícia
  • Milicianos garantem segurança a traficantes e lucram com venda de drogas
  • Relatos de casos de jogos de azar diminuem, e de homicídios aumentam
  • Disque Denúncia do Rio reuniu informações a pedido da reportagem do UOL

A Polícia Civil do Rio prendeu dois milicianos com recibos usados para extorquir dinheiro de moradores em um conjunto habitacional na zona oeste carioca. Em Nova Iguaçu (RJ), na Baixada Fluminense, criminosos que recebiam o apoio de policiais militares da ativa foram impedidos por agentes de segurança de perfurar uma tubulação da Petrobras.

Esses casos envolvendo paramilitares do Rio, que ocorreram em 2019, só chegaram à polícia graças a informações anônimas repassadas pelo Disque Denúncia, entidade privada sem fins lucrativos que atende a população. Os dados ajudam também as autoridades a traçar um panorama sobre o avanço da milícia no Rio.

Levantamento feito a pedido do UOL aponta o aumento de denúncias envolvendo a ligação entre tráfico e milícias. Em contrapartida, houve queda nas denúncias que relacionam os paramilitares aos jogos de azar.

Os casos de extorsão lideram, com folga, o ranking por tipo de crime, seguidos por posse de arma e homicídios, que registraram alta em número de denúncias em relação a 2019.

Para especialistas e autoridades, os dados refletem a aproximação entre a maior milícia do país e o tráfico nos últimos anos — laço intensificado com a chegada de ex-traficantes ao primeiro escalão da milícia.

Hoje, o relacionamento entre a milícia e o tráfico é mais próximo. Com base nas denúncias, dá para estudar como eles fazem a divisão de tarefas
Zeca Borges, coordenador do Disque Denúncia

"As milícias atuam no tráfico com franquias. Os traficantes vendem drogas e repassam parte dos seus lucros para a milícia, em troca de proteção. Os moradores passam a viver em um estado de narcomilícia", analisa Luiz Antonio Ayres, promotor que atua em processos contra a milícia desde o surgimento dos grupos paramilitares no Rio, registrado a partir de 2005.

Testemunhas temem identificação, diz especialista

Com 7.601 relatos repassados sobre a milícia em 2019, a média registrada foi de uma informação sobre atividades paramilitares no Rio de Janeiro a cada 69 minutos no ano passado.

O consultor Vinicius Cavalcante, diretor da Associação Brasileira dos Profissionais de Segurança, acredita que o aumento nas denúncias está diretamente relacionado ao anonimato garantido pelo órgão.

Infelizmente, a milícia se infiltrou nas forças de segurança. Por isso, as pessoas temem buscar as autoridades para registrar uma ocorrência e preferem fazer denúncias anônimas.
Vinicius Cavalcante, consultor de segurança

Milícia, que já esteve em guerra com o tráfico, hoje lucra com a venda de entorpecentes - Medo e Demência/UOL
Milícia, que já esteve em guerra com o tráfico, hoje lucra com a venda de entorpecentes
Imagem: Medo e Demência/UOL

Auxílio em investigações e na captura de foragidos

Em meio a esse cenário, cresce a importância de denúncias sobre a autoria de assassinatos, ponto de partida das investigações relacionadas à milícia.

As informações sobre milicianos foragidos também são apontadas pelas autoridades como determinantes para auxiliar na localização de suspeitos.

"Produzimos cartazes com informações sobre foragidos. Isso estimula a população a identificar e a passar informações", acredita Zeca Borges, coordenador do Disque Denúncia.

Graças a uma denúncia anônima repassada em fevereiro do ano passado, agentes da Draco (Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas), da Polícia Civil, capturaram o miliciano Carlos Geovane Brito de Oliveira em Campo Grande, zona oeste do Rio, reduto da maior milícia do país, "A Firma", antes chamada de "Liga da Justiça".

Em outubro, uma outra informação fez com que a polícia localizasse o paradeiro de Leonardo Pereira de Oliveira, o Léo Milícia, encontrado no Anil, também na zona oeste carioca.

Tráfico cuida da droga, e milícia, da segurança

A aproximação da milícia e do tráfico teve início após a prisão do ex-PM Toni Angelo Souza Aguiar, chefão da antiga "Liga da Justiça", capturado após trocar tiros com um desafeto em 2013.

O ex-traficante Carlos Alexandre da Silva Braga, conhecido como Carlinhos Três Pontes, morto em 2017, foi o encarregado da aliança da milícia com integrantes do TCP (Terceiro Comando Puro), facção relacionada à venda de entorpecentes.

Com a morte de Carlinhos, o irmão dele, Wellington da Silva Braga, o Ecko, assumiu o controle do grupo, intensificando a parceria entre milícia e tráfico.

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