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Quem era o menino africano que morreu tentando chegar a Paris no trem de pouso de avião

Avião da Air France no aeroporto Charles de Gaulle - Eric Piermont/AFP
Avião da Air France no aeroporto Charles de Gaulle Imagem: Eric Piermont/AFP

Pierre Pinto

Correspondente da RFI em Abidjan

14/01/2020 13h37

Ele se chamava Laurent Barthélémy Ani Guibahi, tinha 14 anos e era natural da Costa do Marfim, no noroeste da África. Na semana passada, o menino se escondeu no trem de pouso de um avião da Air France, em Abidjan, para tentar chegar a Paris, onde tinha o sonho de viver. Seu corpo foi encontrado um dia depois da aterrissagem do Boeing 777, no dia 8 de janeiro, no aeroporto Charles de Gaulle, na capital francesa.

No dia 6 de janeiro, Laurent não foi à escola Simone Gbagbo, na capital econômica marfinense, onde deveria retomar as aulas, após o período de festas de fim de ano. Também não voltou para casa à noite. O corpo dele foi encontrado dois dias depois, a cinco mil quilômetros de Abidjan.

Desesperada, a família e professores chegaram a distribuir cartazes com a foto do adolescente na escola e na comunidade Yopougon, ao norte da cidade. "Imploramos para quem o viu contatar urgentemente seus familiares", diz a mensagem informando os números de telefone dos pais de Laurent.

Dias depois de receber a trágica notícia, todos continuam inconformados. "Me disseram que meu filho foi encontrado na França. É quase uma loucura. Você imagina isso acontecer com uma criança que estava em casa quando você saiu para trabalhar?", emociona-se o pai, Marius Ani Guibahi, em entrevista ao canal France 2.

Câmeras de segurança

O adolescente percorreu a pé os 30 quilômetros de casa até o aeroporto de Abidjan e escalou o imenso muro com arame farpado que cerca o local. Laurent se escondeu em arbustos durante algumas horas.

As imagens das câmeras de segurança, mostram o menino entrando no trem de pouso do Boeing 777 que fez a ponte entre Abidjan a Paris momentos antes da decolagem, às 22h55 do local. Na quarta-feira (7), a Air France confirmou que "o corpo sem vida de um passageiro clandestino" havia sido descoberto.

Na ausência de documentos, Laurent foi levado ao Instituto Médico Legal de Paris. Segundo uma fonte próxima das investigações, o adolescente morreu "por asfixia ou hipotermia". As temperaturas podem chegar aos -50°C entre os 9 mil e 10 mil metros, altitudes em que voam os aviões da Air France entre a Costa do Marfim e a França. Os compartimentos do trem de pouso não são nem aquecidos, nem pressurizados.

O sonho de viver na Europa

Laurent era um menino tímido e discreto na escola. No entanto, não escondia o objetivo de viver na Europa, contou à France 2 Ali Doumbia, amigo da vítima. "Ele falava muito de outros países, como a Alemanha, a Espanha, a França. Falava sempre da Torre Eiffel, de Paris, dizia que um dia iria visitá-la. Seu sonho era ser cientista", relembra o menino, aos prantos.

À RFI, um dos professores do liceu Simone Gbagbo, Antoine Mel Gnagne, afirma que tenta encontrar justificativas para a fuga de Laurent. "Ele era um aluno comportado. Não lembro de ele ter tido uma briga com algum professor ou de nada ruim que tenha acontecido com ele na escola. Estamos todos muito surpresos e chocados", diz.

No liceu onde estudam sete mil alunos, uma homenagem à Laurent foi realizada. Em seu discurso, o inspetor explica aos jovens: "A felicidade não está sempre longe daqui. A felicidade também pode estar aqui".

A cada ano, milhares de jovens marfinenses tentam viajar clandestinamente à Europa. Segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM), a maioria deles tem entre 14 e 24 anos.

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