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"Para aprender a fazer cinema basta uma semana", diz Werner Herzog

Hans-Christoph von Bock (rc)

07/12/2019 12h46

O diretor alemão de 77 anos, considerado um visionário, é agraciado com o Prêmio do Cinema Europeu pelo conjunto de sua obra. Em entrevista à DW, ele fala sobre cinema e sua reputação de retratar extremos.O alemão Werner Herzog é tido como um dos grandes diretores do cinema mundial. Cineasta, roteirista e produtor, ele vive atualmente em Hollywood, onde trabalhou com nomes como Christian Bale, Nicole Kidman, Eva Mendes, Nicolas Cage, Willem Dafoe e Tom Cruise.

Nascido nas montanhas da Baviera, o diretor também é conhecido por sua parceria com o excêntrico ator Klaus Kinski, protagonista em cinco de seus filmes. Entre estes, a saga vampírica Nosferatu e a adaptação de Woyzeck, de Georg Büchner. Com Kinski, ele viajou para a América do Sul e realizou Aguirre, a Cólera dos Deuses e Fitzcarraldo, rodado na selva amazônica.

Em entrevista à DW, ele conta que se mantém ativo, produzindo três filmes por ano, e fala sobre a reputação de criar obras "extremas".

DW: Há dez anos o senhor recebe prêmios pelo conjunto de sua obra. Desta vez será o Prêmio Europeu de Cinema. Como se sente em relação a isso?

Werner Herzog: De certa forma, estranho, porque continuo trabalhando e hoje produzo mais filmes do que há 30 ou 40 anos. No ano passado, lancei três longa-metragens, um sobre [o ex-líder soviético Mikhail] Gorbachov, outro sobre o escritor Bruce Chatwin e um rodado no Japão. Tudo isso em apenas 12 meses. Outros precisariam de seis ou oito anos para fazer isso. Mereceria esse prêmio se há dez anos não tivesse feito mais nenhum um filme.

O senhor jamais frequentou uma escola de cinema e tem pouco apreço por elas. Por quê?

Em princípio, elas têm a polaridade errada e os estudantes são mantidos lá por tempo demais. Nesses três ou quatro anos, eles poderiam rodar três filmes em vez de ficarem sentados aprendendo alguma teoria cinematográfica. O que é necessário saber pode se aprendido em uma semana.

O senhor oferece master classes. O que possível aprender nelas em uma semana?

Fundei a escola de cinema Rogue como uma alternativa ao que está sendo feito nos cursos de cinema em todo o mundo. As únicas coisas que eles têm que aprender são: como arrombar as travas de segurança e como falsificar uma licença para filmar de tal modo que não sejam pegos. O resto são diálogo e exemplos de filmes, música e literatura.

Nos últimos tempos, me voltei mais para oficinas onde os participantes rodam um filme de curtíssima-metragem em nove dias, sem roteiro pré-definido, porque eles não sabem qual é o tema que indicarei. Tudo é possível, eu apenas estabeleço o quadro narrativo. Recentemente, fiz isso na Amazônia peruana com o tema "sonho febril na floresta". Eles tinham que criar uma história, procurar locações e rodar o filme, e posteriormente editá-lo em seus notebooks. O resultado deveria ser apresentado em nove dias e os filmes ficaram excelentes.

Seu trabalho cinematográfico, seja documentário ou longa-metragem, é sempre levado ao extremo: paisagens extremas, situações extremas, personagens extremos. O que o leva a buscar os extremos até os dias atuais?

Não procuro extremos, acho normal o que faço. As pessoas sempre me dizem que é algo extremo filmar na Amazônia. Mas, veja bem, é apenas uma floresta. Não há nada de especial nisso.

Em Fitzcarraldo, o senhor criou uma das imagens cinematográficas mais icônicas. Um navio de um obcecado amante de ópera, interpretado por Klaus Kinski, atravessa uma montanha no meio da floresta. Kinski era famoso por seus ataques explosivos e pela relação de amor e ódio que tinha com o senhor. Hoje como o senhor vê esse período?

Kinski trabalhou comigo em cinco filmes e a forma que eu o vejo descrevi no filme Meu melhor inimigo. Kinski era de certa forma uma figura singular. Mas não foi o melhor com quem trabalhei. O melhor foi Bruno S., em O enigma de Kaspar Hauser e Stroszek. Trabalhei com os melhores do mundo, com Christian Bale, Nicolas Cage, Nicole Kidman, Tom Cruise. Mas ninguém chegou perto de Bruno S. em termos de profundidade e carisma, solidão e veracidade.

Seus filmes lidam com frequência com experiências nos limites. Por exemplo, as entrevistas com prisioneiros convictos em Corredor da morte ou no documentário O homem urso. Em quais situações o senhor se deparou com seus próprios limites?

Há uma gravação da morte de Timothy Treadwell (que viveu por muitos anos em meio a ursos pardos) e sua namorada, ambos devorados vivos por um urso. Os distribuidores e produtores queriam de qualquer maneira que esse áudio fosse usado no filme. Eu ouvi e foi inacreditavelmente horrível, que disse "não, somente sobre meu cadáver!". Esse é um limite ético, porque a morte de uma pessoa e sua dignidade e privacidade não devem ser violadas.

E quando se filma conversas com condenados à morte e oito dias depois eles são executados, também há limites específicos, o respeito e a dignidade humana. A dignidade dos condenados deve ser respeitada. Sempre os tratei com enorme respeito, como com quem gostaria de olhar para o abismo. Atrás das câmeras usava terno e gravata, o que nunca faço, como sinal de respeito. O traje formal também é uma proteção contra uma aproximação excessiva.

O senhor já esteve debaixo d'água, na floresta, no deserto, no gelo. Há algo mais que queria explorar?

Gostaria de estar numa estação espacial. Ou na Lua, ou em uma visita a Marte, se isso for possível um dia.

Neste caso, qual seria sua primeira atitude?

Não sei. Gosto de ser surpreendido. Levanta poeira quando se pousa lá, ou o que acontece? Acho a ideia de povoar Marte, porque devastamos nosso planeta como um enxame de gafanhotos, totalmente obscena. Também não conseguiríamos fazer isso. Tampouco nos tornaremos imortais porque fizemos alguma manipulação genética.

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Autor: Hans-Christoph von Bock (rc)

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