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PM alterou 'cena do crime' ao tirar corpos de Paraisópolis, diz conselho

Dimitri Sales, presidente do Condepe, diz que sete mortes em Paraisópolis ocorreram no local - Marcelo Oliveira/UOL
Dimitri Sales, presidente do Condepe, diz que sete mortes em Paraisópolis ocorreram no local Imagem: Marcelo Oliveira/UOL
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Marcelo Oliveira

Do UOL, em São Paulo

03/12/2019 17h54Atualizada em 03/12/2019 20h54

O Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe) de São Paulo afirmou hoje que a Polícia Militar de São Paulo (PM-SP) "alterou a cena do crime" ao retirar das vielas de Paraisópolis, no último fim de semana, corpos de jovens mortos ao fim de um baile funk.

"Esses corpos não poderiam ter sido levados para hospitais", disse o presidente do órgão, advogado Dimitri Sales.

Com base em visitas e informações colhidas junto ao IML (Instituto Médico Legal) e em apurações que realizou no local das mortes, o Condepe afirma que sete das nove mortes ocorridas se deram no próprio local. Duas mortes ocorreram nos hospitais.

"O que houve foi um massacre", afirmou Sales.

Segundo a Secretaria Estadual de Segurança Pública, "todas as circunstâncias relativas ao caso são investigadas pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) e a Corregedoria da Polícia Militar também apura a ação dos policiais."

O presidente do conselho também criticou a postura do governador João Doria (PSDB). Segundo ele, as declarações do governador estimulam a violência institucional da PM.

Segundo Sales, a forma como ocorreram as mortes, sem tiros, pode indicar um novo padrão de violência policial que dificulta a identificação de autoria.

Margarete Pedroso, representante da Comissão de Direitos Humanos da OAB/SP, disse que as mortes são parte de uma política de Estado contra a população negra.

As declarações do Condepe foram dadas em reunião de trabalho realizada pelo conselho com outras entidades e órgãos de direitos humanos e representantes da sociedade civil nas quais foram discutidas estratégias de atuação diante do caso.

O jovem Danylo Amilcar, Irmão de Denys Henrique Quirino da Silva, uma das vítimas da operação, compareceu ao evento. Ele deu um depoimento emocionado, sem conter as lágrimas: "nosso menino, o Denys, não morreu pisoteado", disse.

O Ouvidor da Polícia, Benedito Mariano, disse na reunião que o caso de Paraisópolis é a "ocorrência mais grave do ano envolvendo a PM".

Vídeo mostra agressões de PM em Paraisópolis

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Doria nega responsabilidade da PM

Danylo é irmão de Denys Quirino, uma das vítimas de Paraisópolis - Marcelo Oliveira/UOL
Danylo é irmão de Denys Quirino, uma das vítimas de Paraisópolis
Imagem: Marcelo Oliveira/UOL

Em entrevista coletiva concedida ontem, o governador João Doria (PSDB) defendeu a ação da PM na operação que terminou com nove mortos e também defendeu a corporação paulista como um todo. Ele teceu elogiou aos policiais do estado e afirmou que a política de segurança não irá mudar.

A versão apresentada por Doria é a mesma da polícia: PMs reagiram a um ataque de dois criminosos que estavam em uma moto atirando.

"A letalidade não foi provocada pela PM, e sim por bandidos que invadiram a área onde estava acontecendo baile funk. É preciso ter muito cuidado para não inverter o processo", disse Doria.

Doria declarou ainda que o estado São Paulo "tem o melhor sistema de segurança preventiva", mas "isso não significa que não seja infalível".

A ação em Paraisópolis ocorre menos de uma semana após o governo do Estado ter divulgado as metas de segurança pública da gestão Doria. As metas não determinam objetivos para reduzir a letalidade policial.

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