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Grande protesto em La Paz é reprimido em meio a discussão sobre eleições na Bolívia

21/11/2019 23h33

La Paz, 22 Nov 2019 (AFP) - A polícia boliviana interrompeu na quinta-feira uma maciça marcha de oposição que chegou a La Paz com os corpos de vítimas de um recente confronto com forças de segurança, em meio à discussão no Congresso sobre uma saída da crise através de novas eleições gerais na Bolívia.

Milhares de manifestantes marcharam para La Paz da cidade vizinha de El Alto carregando cinco caixões, protestando contra o governo interino de Jeanine Áñez e a repressão da terça-feira passada, quando oito homens morreram baleados em confrontos com tropas perto de Senkata, uma usina de distribuição de combustível.

Os confrontos aconteceram depois que os agentes de segurança liberaram a saída de caminhões destinados a amenizar a escassez de combustível na capital, afetada pelos bloqueios de rotas e onde as filas se multiplicam para encontrar gasolina, gás e comprar galinhas e vegetais.

"Justiça, justiça!", clamaram os manifestantes na passagem com os corpos em uma caminhada de cerca de 15 quilômetros até La Paz, capital administrativa do país.

Na marcha, os manifestantes agitavam a bandeira 'whipala', o símbolo quadriculado e multicolorido dos nativos bolivianos.

As autoridades dispersaram a marcha, quando os indígenas aimarás tentavam colocar os caixões em um tanque militar na praça central de São Francisco. Um dos caixões chegou a ser erguido no veículo e outros podiam ser vistos no chão após a debandada causada pelo gás lacrimogêneo. Mais de 20 pessoas foram presas, segundo jornalistas da AFP.

"Eles querem nos matar e há liberdade para matar, há ordem para nos matar em El Alto", disse uma mulher que se identificou como Ana Méndez, 55 anos, e que acompanhou o protesto.

O governo interino nega a responsabilidade militar e policial pelas mortes. Em um mês de violência política, 32 bolivianos já morreram, pelo menos 17 deles em confrontos com agentes do Estado.

Na noite desta quinta-feira, Áñez lamentou os recentes casos de violência e reafirmou seu pedido ao diálogo.

"Sofro com isto, porque somos um governo de paz, e peço que nos unamos pela reconciliação (...). Coloco à disposição todo o meu gabinete para iniciar o diálogo imediatamente", com o apoio internacional e o da Igreja, disse a presidente.

- Discussões-chave -Em meio à convulsão social, o Congresso procura apaziguar os ânimos por meio de convocação de eleições e anulação do processo eleitoral de 20 de outubro, em que Morales concorreu a um novo mandato após 13 anos à frente da Bolívia.

A oposição, liderada pelo ex-candidato Carlos Mesa, alegou fraude e ocupou as ruas contra o ex-presidente aimará, de 60 anos, enquanto a OEA afirmou ter encontrado irregularidades na votação.

O objetivo é que o Senado "aprove nesta quinta-feira" a convocação de novas eleições, atenda "a essa demanda no menor tempo possível, com um novo tribunal eleitoral com homens e mulheres confiáveis", disse o presidente da comissão que analisa as possíveis convocações, Oscar Ortiz.

O Congresso deve analisar dois projetos que têm o mesmo fim, um de Áñez, enviado na véspera, e o outro apresentado pelo Movimento ao Socialismo (MAS), liderado por Morales e que tem maioria nas duas casas do Congresso.

Situação e oposição devem chegar a um consenso sobre a data das eleições e decidir se Morales poderá se candidatar. Antes disso, eles deverão nomear os sete magistrados do Supremo Tribunal Eleitoral (TSE) após a destituição e prisão de ex-juízes por suposta fraude dos resultados em favor de Morales.

Depois disso, terão que definir a data da eleição e decidir se Morales pode concorrer. O ex-presidente defendeu, nesta quinta-feira, sua candidatura nas novas eleições, mas deixou claro que poderá abrir mão se isso contribuir para a pacificação no país.

"Tenho direito a me apresentar, mas se isso for em detrimento da pacificação do país, renuncio", afirma Morales, que recebeu asilo político no México, em uma entrevista publicada no site da revista alemã "Der Spiegel".

Os Estados Unidos sugeriram na quinta-feira que o ex-presidente boliviano permaneça à margem nessas próximas eleições, que Washington disse que deveriam ser "livres, justas e inclusivas".

"Quem participou das irregularidades escandalosas e da manipulação dos votos nas eleições fracassadas de 20 de outubro deve, para o bem da Bolívia, se afastar e deixar que os bolivianos reconstruam suas instituições", disse o chefe da diplomacia. Americano, Mike Pompeo, em comunicado.

- Montagem -Do exílio, Morales insiste em ter sido vítima de um golpe depois de perder o apoio das forças militares e policiais.

"Denuncio o governo de fato na #Bolivia por fazer uma montagem com a intenção de me denunciar internacionalmente", afirmou o ex-presidente no Twitter.

Morales citou um vídeo com áudio divulgado na quarta-feira, em La Paz, pelo ministro do Interior, Arturo Murillo.

Na gravação, o ex-presidente incentivaria um cerco a cidades bolivianas para impedir a chegada de comida.

O governo de Áñez, que se autoproclamou presidente em 12 de novembro, apontando o abandono do cargo por Morales, o acusa de instigar o cerco às cidades para interromper a distribuição de alimentos.

Os militares estão em alerta máximo pela suposta tentativa de manifestantes que apoiam Morales de tomar as instalações de Senkata e impedir a saída de um comboio com caminhões de gasolina.

Na quarta-feira, o Ministério da Defesa emitiu um comunicado em que advertia que a usina está "perigosamente cercada por pessoas simpatizantes do MAS", portando explosivos.

A repressão dos protestos aumenta a ira contra o governo de Áñez, que liberou de responsabilidade penal os militares que tentam impor a ordem.

"Quem tem que se preocupar com o Tribunal Penal Internacional são (Jeanine) Áñez e Murillo, pelos crimes contra a humanidade que estão cometendo, ordenando que os militares matem minhas irmãs e irmãos, tentando cobrir esses crimes com um decreto ilegal ", disse Morales em outro tuíte.

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