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Saques, incêndios e medo da falência: o impacto da convulsão social no Chile para as pequenas empresas

Várias empresas tiveram suas estruturas destruídas durante protestos no Chile - Getty Images
Várias empresas tiveram suas estruturas destruídas durante protestos no Chile Imagem: Getty Images

Fernanda Paúl

BBC News Mundo, enviada especial ao Chile

14/11/2019 14h10

Na sexta-feira em que a crise explodiu, dia 18 de outubro, o empresário chileno Francisco Carreño decidiu ficar em seu restaurante a noite toda, como um guardião.

"Eu estava disposto a me defender", diz ele, lembrando o dia em que dezenas de lojas e supermercados em todo o Chile foram saqueados e até queimados.

"Eu não podia simplesmente sair do meu restaurante, tinha de salvá-lo se eles tentassem destruí-lo", disse à BBC News Mundo.

A sorte jogou a seu favor e seu restaurante, chamado Signore, não foi destruída pelos protestos. Mas, de qualquer forma, o efeito veio depois.

Por estar localizado no setor de Tobalaba, que nas últimas semanas tem sido um dos pontos de encontro dos protestos em Santiago, Carreño foi forçado a fechar seu restaurante por dias, acumulando uma perda de 50% em suas vendas no mês de outubro.

A situação, desde então, não mudou muito: Carreño só consegue abrir as portas em alguns dias, a depender do tamanho dos protestos.

Há oito anos Francisco Carreño abriu seu restaurante italiano, o Signore, no Chile - Fernanda Paúl
Há oito anos Francisco Carreño abriu seu restaurante italiano, o Signore, no Chile
Imagem: Fernanda Paúl

No entanto, Carreño - que também possui um pequeno empório de produtos italianos chamado Tantano - precisa continuar pagando aluguel e salários de seus funcionários, entre outras despesas do negócio.

"Esse é um terremoto silencioso. As reduções das vendas estão destruindo a economia chilena", lamenta o empresário.

Desemprego

A situação de Francisco Carreño não é isolada. Após três semanas de manifestações incessantes - que começaram depois que o governo do presidente Sebastián Piñera decidiu aumentar o preço da passagem do metrô - milhares de micro, pequenas e médias empresas chilenas foram duramente afetadas.

A paralisação do comércio, serviços e turismo foi um golpe econômico inesperado para quem não tinha reservas de dinheiro para se financiar em momentos de crise.

Diante desse cenário, o temor é de que as pessoas percam seus empregos.

Em meio aos protestos, os donos de alguns restaurantes decidiram continuar atendendo os clientes para tentar evitar mais perdas nas vendas - Getty Images
Em meio aos protestos, os donos de alguns restaurantes decidiram continuar atendendo os clientes para tentar evitar mais perdas nas vendas
Imagem: Getty Images

"Até o momento, 70 mil empregos já foram perdidos, o que equivale a quase um ponto (percentual na taxa) de desemprego. Se o país não voltar a funcionar normalmente nos próximos 10 dias, ouso dizer que mais 500 mil empregos estão em jogo", diz Juan Pablo Swett, presidente da Asociación de Emprendedores de Latinoamérica.

Carreño, por exemplo, teve que reduzir sua equipe em 30%. "Não posso ser irresponsável e manter as pessoas se não posso dar a elas segurança a longo prazo", diz ele.

De acordo com Swett, das pouco mais de um milhão de pequenas empresas que existem atualmente no Chile, 15% hoje têm sérios problemas de liquidez devido à crise.

"A economia está completamente bloqueada. Consumo, decisões de investimento de grandes empresas e empresas estrangeiras e contratação de pessoal estão paralisados. Em termos econômicos, uma tempestade perfeita está ocorrendo no Chile", diz Swett.

Como exemplo, o presidente da Asociación de Emprendedores de Latinoamérica diz que somente na indústria do turismo, composta por 9 mil empresas que empregam aproximadamente 170 mil pessoas, as reservas caíram 51%.

"A imagem do país piorou muito, as pessoas não querem mais vir para o Chile", acrescenta.

Vestuário

Outra área que está sendo muito afetada pela convulsão social é a venda de roupas.

A empresária Heidy Valdivia tem uma loja de roupas há 15 anos no bairro Patronato, a poucos metros da Plaza Italia, o principal ponto de encontro dos protestos em Santiago.

Desde o início da crise, ela foi forçada a manter sua loja fechada e ficar "em guarda" para evitar saques.

"Tivemos de nos revezar para cuidar da mercadoria porque a polícia não garante isso", ela diz à BBC.

"Tenho medo porque acho que isso vai piorar. Não tenho mais dinheiro e tenho medo de perder tudo o que foi difícil construir durante anos", acrescenta.

Heidy Valdivia tem uma loja de roupas no bairro Patronato, em Santiago - Fernanda Paúl
Heidy Valdivia tem uma loja de roupas no bairro Patronato, em Santiago
Imagem: Fernanda Paúl

Heidy diz que apenas com o aluguel gasta o equivalente a US$ 1.900 (R$ 7,9 mil) por mês. Aos funcionários, paga US$ 126 (R$ 525) por semana. As duas despesas continuam, apesar de nos últimos 20 dias não ter conseguido vender quase nada.

"Quem vai se preocupar agora em comprar roupas? Ninguém", diz ele.

"Ontem pude abrir a loja por um tempo e vendi apenas três peças. Apóio as demonstrações porque acho que o Chile é muito desigual, às vezes até vou lá. Mas isso já está me influenciando bastante e estou começando a ver que afeta meu bolso também ", acrescenta.

Devido à sua localização, todo o bairro de Patronato (um dos centros de vendas de roupas mais famosos da capital do Chile) tem sido afetado por gás lacrimogêneo vindo da Plaza Italia.

Além disso, hoje suas paredes estão pichadas com parte dos slogans dos protestos, como "Chega de abuso" e "O Chile acordou". E, assim, as poucas lojas abertas estão cheias de ofertas de última hora, tentando liquidar seus produtos.

Em um espanhol obstinado, um taiwanês proprietário de uma das lojas diz: "Esses dias eu só chorei".

Manifestantes estão nas ruas desde o dia 18 de outubro - Getty Images
Manifestantes estão nas ruas desde o dia 18 de outubro
Imagem: Getty Images

Empresas saqueadas

Pior ainda é a realidade das empresas que foram saqueadas nas últimas três semanas no Chile.

De acordo com um estudo realizado pelo Ministério da Economia chileno, existem quase 6.800 pequenas empresas que relataram roubo, saque ou incêndio de seus negócios. De acordo com Juan Pablo Swett, com os últimos eventos, esse número pode ter subido para 10 mil.

É o caso de Karina Cáceres, dona de uma farmácia de medicina natural chamada Panul, que foi completamente saqueada no dia 20.

"Foi um pesadelo. Quando soube que eles haviam levado tudo, quase desmaiei", lembra a farmacêutica, que está grávida de quatro meses.

O marido dela foi ao local tentar resgatar o pouco que restava.

Karina Cáceres (com o marido, Héctor Soto) é dona de uma farmácia de medicina natural que foi saqueada - Karina Cáceres
Karina Cáceres (com o marido, Héctor Soto) é dona de uma farmácia de medicina natural que foi saqueada
Imagem: Karina Cáceres

"Eu disse a ele para não arriscar, não ir. Mas ele estava em um estado como de um zumbi, nós dois choramos. No fim, ele conseguiu salvar cinco caixas, um oitavo da farmácia", conta Karina.

No total, foram roubados aproximadamente US$ 12.800 (R$ 53,5 mil), além de computadores e televisões.

Desde aquele dia, a farmacêutica acha que seus negócios podem ir à falência. O problema, ela diz, é que ainda tem dois empréstimos para continuar pagando e, estando grávida, acha muito difícil encontrar outro emprego.

"A incerteza é terrível. Estamos vivendo dia a dia, tentando vender o que nos resta... estou angustiada", diz.

"Além da farmácia, criamos uma fundação, pensando nas pessoas que nos saquearam. Vamos às comunidades ensinar as crianças a controlar suas emoções. Então, a traição dói... porque também vendíamos nossos produtos a preços populares", diz.

Karina deve continuar pagando o aluguel de US$ 2.280 (R$ 9,5 mil). No entanto, em outubro, ela recebeu um oitavo do dinheiro que entra em um mês normal. Para a filha, não poderá pagar pela educação no próximo ano.

E foi assim que, de um minuto para o outro, sua vida deu uma guinada completamente inesperada.

Algumas manifestações que começaram pacíficas acabaram em saques e queima de prédios - Getty Images
Algumas manifestações que começaram pacíficas acabaram em saques e queima de prédios
Imagem: Getty Images

Os casos de Francisco Carreño, Heidy Valdivia e Karina Cáceres são apenas alguns exemplos do que muitos pequenos e médios empresários vivem no Chile após o surto social.

Os três empresários afirmam que são simpáticos à motivação das manifestações: querem uma sociedade mais igualitária e justa, com melhores aposentadorias e melhor qualidade em saúde e educação.

No entanto, eles temem que essa luta implique uma recessão econômica que acabe com os negócios deles - apesar de o governo ter anunciado na semana passada um plano de apoio a essas empresas, que inclui facilidades para pagamento de impostos e flexibilidade para renegociação de dívidas.

"Os jovens estão brigando e não têm medo de nada. Mas eu tenho. E quero que isso acabe", conclui Heidy.

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