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Vietnã vive luto por imigrantes encontrados em caminhão na Inglaterra

08/11/2019 14h40

Ho Chi Minh (Vietnã), 8 nov (EFE).- O Vietnã vive um dia de luto nesta sexta-feira, depois da confirmação de que os 39 imigrantes encontrados mortos em um caminhão em Essex, na Inglaterra, em 23 de outubro, eram naturais do país, oriundos principalmente de áreas pobres e rurais.

O governo vietnamita confirmou à noite a identificação das vítimas e expressou suas condolências aos parentes e amigos dos imigrantes, que pagaram até US$ 40 mil (R$ 165,4 mil) a traficantes de seres humanos, em busca de uma vida melhor no Reino Unido.

O forte crescimento econômico do Vietnã, desde que o país começou a abrir a economia no fim dos anos 80, ocorreu principalmente nas grandes cidades e isolou as províncias mais rurais e pobres, onde a única esperança é, muitas vezes, emigrar para as cidades grandes ou pro exterior.

Milhares de vietnamitas se arriscam em uma jornada cara e incerta para chegar a países europeus, como os 39 mortos em Essex, que saíram de províncias do centro e do norte do país.

"Centenas de milhares migram para as periferias industrializadas de Hanói e Ho Chi Minh. Dezenas de milhares vão para outros países do Sudeste Asiático e da Ásia. E outros vão para a Europa, o que custa muito dinheiro e é muito difícil de organizar", explicou Nicolas Laínez, pesquisador associado do Centro para o Sudeste Asiático, localizado em Paris.

Longe das principais cidades, onde o salário médio é o dobro que no campo, de acordo com a ONU - e sem atrações turísticas, alémde ameaçados todos os anos por tufões e tempestades a cada ano mais intensos por causa da crise climática - populações de províncias como Nghe An e Ha Tinh se acostumaram desde os dias da Guerra Fria a emigrar para a Europa comunista para progredir.

Mimi Vu, especialista em tráfico de pessoas residentes em Ho Chi Minh, explicou que o programa de emigração para países do bloco oriental, lançado pelo regime comunista de Hanói a partir de 1975, criou uma "tradição que permanece até hoje".

"Uma parte dos trabalhadores que tiveram a oportunidade de ir aos países do antigo bloco soviético saiu dessas províncias. Foi quando a tradição de ir para o exterior em geral e ir para a Europa mudou, ganhando dinheiro para sustentar as famílias no Vietnã. A cultura das remessas começou ali", disse.

O espelho que muitos querem olhar é o de Pham Nhat Vuong, natural de Ha Tinh, que estudou em Moscou nos anos 80, depois se mudou para a Ucrânia para iniciar um negócio de venda de macarrão e, anos depois, voltou ao Vietnã com capital e contatos para virar o homem mais rico do país com seu grupo industrial Vingroup.

Sem chegar ao caso extremo de Vuong, muitas famílias que incentivam seus filhos a emigrar aspiram a uma vida mais rica que, depois de paga a dívida com as redes de tráfico de pessoas, permite ter pequenos luxos como um carro ou construir uma casa nova.

Nos últimos anos, o Reino Unido parece ter se tornado o destino preferido na Europa, algo que Vu atribui à tendência de associar países de língua inglesa a um nível econômico mais alto desde que a comunidade vietnamita que se estabeleceu ali desde os anos 90 favorece a chegada de outros.

"Os Estados Unidos sempre serão o destino favorito. Mas existe a ideia de que, onde o inglês é falado, há mais dinheiro, então eles escolhem o Reino Unido, onde podem viajar por terra. O acesso a países de língua inglesa, como Estados Unidos, Canadá ou Austrália, é mais difícil ", afirmou.

Embora o impacto da tragédia de Essex possa causar maior conscientização entre a população e as autoridades sobre o tráfico de pessoas, nenhum especialista acredita que o fluxo será interrompido ou abrandado.

"A menos que isso chegue à raiz do problema, que é a pobreza, as pessoas continuarão a sair porque terão as mesmas opções de antes. Devemos dar outras alternativas para uma vida melhor no Vietnã ou uma emigração segura e legal que não funcione para sua exploração", concluiu Mimi Vu. EFE

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