Topo

Egon Krenz: o último líder da RDA e porta-voz da "Ostalgia"

08/11/2019 12h52

Berlim, 8 Nov 2019 (AFP) - Ele passou para a história como o último líder da República Democrática Alemã (RDA). Trinta anos depois da queda do Muro de Berlim, Egon Krenz não renega nada e é o porta-voz da "Ostalgia" (palavra alemã para nostalgia), dos que sentem falta do regime comunista.

Em boa forma aos 82 anos, Egon Krenz se mantém como um defensor radical da RDA e da URSS.

Suas palestras atraem muitos curiosos, que escutam suas histórias e recebem emocionados apertos de mão e piscadelas cúmpulices.

No fundo, apenas uma coisa interessa Egon: dizer sua verdade sobre o dia 9 de novembro de 1989 e a dissolução em poucas semanas de um país que acabava de celebrar seu 40o. aniversário.

Presidente do Conselho de Estado da RDA de 10 de outubro a 3 de dezembro de 1989, depois que Erich Honecker foi expulso do poder, Krenz assumiu com a promessa de uma "ofensiva política e diplomática" para reformar um país em crise, mas não pôde fazer nada disso.

- Champanhe e não sangue -Ele enfrentou manifestações, o crescente afastamento de parte da população e finalmente o abandono de Moscou.

Krenz precipitou, sem querer, a queda do Muro, com uma tentativa mal preparada e mal anunciada de flexibilização do direito de viajar para o exterior que acabou saindp do controle.

Quando os guardas fronteiriços da RDA abriram os postos naquela noite, "ningúem do lado leste foi até o Muro de Berlim para destruí-lo", afirma Krenz 30 anos depois, vendo nisso as ações os alemães ocidentais.

Por outro lado, disse Egon recentemente em Berlim, "ninguém chamou aquilo de 'queda do Muro', um termo ideológico inventado muito mais tarde".

O mais importante, em sua opinião, é que "não houve um só disparo" naquela noite. "Derramou-se champanhe e não sangue. E essa não foi uma obra do chanceler (Helmut) Kohl, mas sim da RDA!", enfatizou, referindo-se ao ex-líder de governo da RFA.

Membro veterano do aparato burocrata comunista, Krenz escalou todos os degraus, desde a militância juvenil até o exército, passando por estudos em Moscou e postos de responsabilidade na segurança e na propaganda.

A consagração chegou em 1983, quando entrou em uma sede política do partido e foi rapidamente considerado o herdeiro de Erich Honecker.

- 'Herdeiro desafortunado' -Quando finalmente substituiu seu mentor, prometeu reformas no estilo da Perestroika feita na URSS por Mikhail Gorbachev. Mas não ganhou a confiança dos alemães do lado oriental.

A população não esquecia que, meses antes, em junho de 1989, ele celebrara a "restauração da ordem" após a terrível repressão do governo chinês na praça Tiananmen (Paz Celestial).

Nas manifestações na RDA, virou caricatura nos cartazes como um lobo disfarçado de avó da história "Chapeuzinho Vermelho": "Vovó, por que você tem os dentes tão grandes?".

Agora é visto pelos historiadores como o "príncipe herdeiro desafortunado", segundo palavras de Stefan Bollinger, cientista político da Universidade Livre de Berlim.

"Chegou ao poder muito tarde e era muito incoerente para ter uma influência real no curso da história", afirma Bollinger.

Em 1997, foi julgado pela morte de quatro pessoas entre 1984 e 1989, que tentavam cruzar para o lado oeste.

Foi condenado a seis anos e meio de prisão e cumpriu quatro anos. Uma "justiça de vencedores" e uma "perseguição política", denunciou.

Desde que recuperou a liberdade, mora na costa do mar Báltico, na pequena cidade de Dierhagen, de onde sai com gosto para dar palestras defendendo a RDA e a Rússia.

"Não havia somente opositores. Também havia milhões de pessoas que desfrutaram da vida na RDA", recordou, em março de 2017, em uma entrevista à agência DPA.

"Se fala como se a história da República Federal Alemã fosse um sucesso total e a da RDA um fracasso. Mas não era tudo preto no branco", insistiu.

bur-mat/ylf/mar/bl/cr

Notícias