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De Hong Kong ao Chile, o que há em comum na nova onda de protestos em escala global

Martin Bernetti/AFP
Imagem: Martin Bernetti/AFP

22/10/2019 16h26

Os protestos são diferentes, mas existem temas comuns que conectam o que acontece nesses países.

Nas últimas semanas, o mundo assistiu à escalada de uma onda de protestos indo de Hong Kong ao Chile, passando por Líbano, Equador e outros países.

Eles são diferentes ? com causas, métodos e objetivos distintos ?, mas existem temas comuns que os conectam.

Com milhares de quilômetros de distância entre eles, os protestos começaram por razões semelhantes em vários locais, e alguns se inspiraram em outros em relação a como organizar e promover seus objetivos.

A seguir, a reportagem aponta os principais temas que estão em jogo e o que eles têm em comum.

Desigualdade

Muitos dos que protestam são pessoas que há muito tempo se sentem excluídas da riqueza de seu país. Em vários casos, um aumento em preços de serviços básicos foi a gota d'água.

No Equador, as manifestações começaram quando o governo decidiu eliminar os subsídios a combustíveis para conter o déficit fiscal. As medidas de austeridade foram implementadas pelo presidente Lenín Moreno com apoio do Fundo Monetário Internacional (FMI).

A mudança levou a um forte aumento nos preços da gasolina, que muitos disseram que não podiam pagar. Os grupos indígenas temiam que a medida resultasse em aumento dos custos de transporte público e da alimentação, e disseram que as comunidades rurais seriam as mais atingidas.

Os manifestantes bloquearam estradas, invadiram o Parlamento e entraram em conflito com as forças de segurança, exigindo o fim das medidas de austeridade e o retorno dos subsídios aos combustíveis. Para colocar fim nos protestos, o governo recuou após dias de manifestações.

No Chile, foi uma alta nos preços dos transportes que provocou protestos. O governo disse que os custos mais altos de energia e uma moeda mais fraca levaram à decisão de aumentar as tarifas de ônibus e metrô. Os manifestantes, no entanto, disseram que a medida foi mais uma a pressionar a população mais pobre.

Quando os manifestantes entraram em conflito com as forças de segurança na noite de sexta-feira (18/10), o presidente Sebastián Piñera foi fotografado jantando em um restaurante italiano de luxo ? um sinal, disseram alguns, do abismo entre a elite política do Chile e as pessoas que estavam nas ruas.

O Chile é um dos países mais ricos da América Latina, mas também um dos mais desiguais ? tem os piores níveis de igualdade de renda entre os 36 países membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), com o mesmo índice do México.


Como ocorreu no Equador, o governo do Chile recuou e suspendeu o aumento de preço, em um esforço para reprimir os protestos. No entanto, as manifestações continuaram e cresceram, com queixas mais amplas.

"Não se trata de um simples protesto contra o aumento das tarifas de metrô, mas de anos de opressão que atingiram principalmente os mais pobres", disse à Reuters um estudante que participou dos atos.

O Líbano passou por um movimento semelhante. A decisão de taxar as chamadas feitas por meio do WhatsApp provocou protestos, que também se tornaram mais amplos e passaram a reclamar de problemas econômicos, desigualdade e corrupção.

Com o aumento do nível de endividamento, o governo vem tentando implementar reformas econômicas para garantir um pacote de ajuda internacional. Mas muitas pessoas dizem que estão sofrendo com as políticas econômicas do país e que a má administração do governo é responsável por seus problemas.

"Não estamos aqui pelo WhatsApp, estamos aqui por tudo: por combustível, comida, pão, por tudo", disse Abdullah, um manifestante em Beirute.

Corrupção

Reclamações contra a corrupção do governo estão no centro de vários dos protestos e estão intimamente ligadas à questão da desigualdade.

No Líbano, os manifestantes argumentam que, enquanto sofrem uma crise econômica, os líderes do país têm usado suas posições de poder para enriquecer, por meio de propinas e acordos.

"Vi muitas coisas aqui, mas nunca vi um governo tão corrupto no Líbano", disse Rabab, um manifestante de 50 anos.

O governo aprovou na segunda-feira um pacote de reformas, incluindo a redução dos salários dos políticos, em um esforço para conter a agitação.

No Iraque, manifestantes também pedem o fim de um sistema político que, segundo eles, fracassou.

Um dos principais pontos de reclamação é a maneira como as nomeações para o governo são feitas com base em cotas étnicas, em vez de mérito.

Os manifestantes argumentam que isso permitiu que os líderes abusassem dos fundos públicos para benefício próprio e de seus seguidores, com muito pouco benefício para a maioria dos cidadãos.

Protestos contra suposta corrupção do governo também ocorreram no Egito. As raras manifestações de setembro foram motivadas por uma convocação de Mohamed Ali, um empresário egípcio que vive em exílio autoimposto na Espanha, que acusou o presidente Abdel Fattah al-Sisi e os militares de corrupção.

As alegações dele de que Sisi e seu governo estão fazendo má administração dos fundos ressoaram entre muitos egípcios, que ficaram cada vez mais descontentes com medidas de austeridade.

Liberdade política

Em alguns países, os manifestantes estão irritados com os sistemas políticos em que se sentem presos.

As manifestações em Hong Kong começaram neste ano devido a um projeto de lei que permitiria a extradição de suspeitos de crimes para a China em determinadas circunstâncias. Hong Kong faz parte da China, mas seu povo desfruta de liberdades especiais e existe um profundo medo de que Pequim queira exercer maior controle sobre o território.

Como em outros países, a manifestação popular em Hong Kong levou à retirada da polêmica legislação. No entanto, os protestos continuaram.

Entre suas reivindicações, os manifestantes querem agora o sufrágio universal completo, um inquérito independente sobre suposta brutalidade policial e anistia para manifestantes que foram presos.

As táticas deles inspiraram ativistas políticos do outro lado do mundo. Centenas de milhares de pessoas se reuniram em Barcelona para protestar contra o encarceramento de líderes separatistas catalães.

Eles foram condenados em 14 de outubro por sedição (revolta) em uma tentativa frustrada de independência da região em 2017.

Logo após a sentença ser proferida, as pessoas em Barcelona receberam uma mensagem em um popular serviço de mensagens criptografadas dizendo para irem ao aeroporto El Prat, em Barcelona, reproduzindo uma tática usada pelos manifestantes de Hong Kong.

A caminho do aeroporto, um grupo de jovens gritou: "Vamos fazer uma Hong Kong", segundo a mídia local.

Manifestantes catalães também distribuíram infográficos feitos em Hong Kong que detalham como os manifestantes podem se proteger dos canhões de água e do gás lacrimogêneo da polícia.

"As pessoas devem ocupar as ruas, todas as revoltas começam lá, olhem para Hong Kong", disse um manifestante em Barcelona à agência de notícias AFP.

Mudança climática

Muitos dos protestos que têm ocorrido estão relacionados ao meio ambiente e às mudanças climáticas. Ativistas do movimento Extinction Rebellion têm protestado em diversas cidades do mundo, exigindo ações urgentes dos governos sobre a questão.

Os protestos ocorreram em países como EUA, Reino Unido, Alemanha, Espanha, Áustria, França e Nova Zelândia. Os participantes se colaram e se acorrentaram às estradas e veículos e tentaram atrapalhar os movimentados centros das cidades.

"Extinction" significa extinção e, "rebellion", rebelião. Membros do grupo, que se identificam como "rebels" (rebeldes) dizem querer promover uma "rebelião contra a extinção das espécies", inclusive a humana, algo que, afirmam, vai acontecer se nada for feito agora por nossos representantes políticos para impedir a mudança climática.

No Brasil, já existe um grupo organizando uma versão brasileira do Extinction Rebellion, que será chamada de "Rebelião ou Extinção".

"Não temos escolha a não ser nos rebelar até que nosso governo declare uma emergência climática e ecológica e tome as medidas necessárias para nos salvar", disse a ativista australiana Jane Morton.

Jovens de todo o mundo também participam de greves escolares semanais, inspiradas pela ativista sueca Greta Thunberg, de 16 anos. No mês passado, milhões aderiram a uma greve climática global liderada por crianças em idade escolar: de alguns manifestantes nas ilhas do Pacífico a manifestações em massa em cidades como Melbourne, Mumbai, Berlim e Nova York.

"Estamos deixando nossas lições para ensinar uma a você", dizia uma placa.


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