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Disputa no BNDES inviabiliza meta de venda de R$ 30 bilhões em ações

Julio Cesar Guimarães/UOL
Imagem: Julio Cesar Guimarães/UOL

Rachel Gamarski e Cristiane Lucchesi

15/10/2019 21h02

O objetivo do governo de vender até R$ 30 bilhões em ações pertencentes ao BNDES foi inviabilizado por uma disputa entre funcionários de carreira da instituição e sua nova administração.

A controvérsia já resultou na saída do diretor de crédito, participações e investimentos, André Laloni, que assumiu o cargo em julho com a missão de vender a carteira do banco de cerca de R$ 110 bilhões em ações de empresas como Vale, JBS ou Petrobras. Enquanto o BNDES disse que Laloni pediu uma licença temporária por motivos pessoais, uma pessoa familiarizada com o assunto disse que o governo já está procurando alguém para substituí-lo.

Laloni, como diversos executivos anteriores do BNDES que tentavam alienar os ativos do banco, enfrentou oposição de funcionários de longo prazo responsáveis por avaliações de pré-venda e consultoria jurídica, disseram pessoas familiarizadas com o assunto. Sua primeira missão foi vender cerca de R$ 1 bilhão em ações do Banco do Brasil pertencentes a um fundo do Tesouro, em uma oferta conjunta com a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil.

O departamento jurídico do banco foi contra. Em uma disputa sobre o assunto, a chefe do departamento, Luciana Tito, foi convidada a deixar seu cargo.

Laloni estava planejando substituir toda a equipe jurídica quando o presidente do banco, Gustavo Montezano, e seus diretores executivos votaram contra.

A disputa destaca as dificuldades políticas e técnicas do governo na venda de ativos prometidos aos investidores. Muitos presidentes anteriores do BNDES, incluindo Joaquim Levy, indicado pelo atual Ministro da Economia, Paulo Guedes, não conseguiram se desfazer de ativos na velocidade desejada. A ex-presidente do BNDES Maria Silvia Bastos Marques, hoje chairman do Goldman Sachs no Brasil, e a ex-diretora Eliane Lustosa, também tetaram vender ações pertencentes ao BNDES.

Os funcionários do banco, que são contratados por meio de concurso público e não podem ser demitidos sem justa causa, criam dificuldades às vendas, disseram pessoas a par do assunto. Esses funcionários argumentam, por exemplo, que os preços das ações no mercado nunca são altos o suficiente para a venda lentas ou dizem que o BNDES não deveria pagar comissões aos bancos de investimento em ofertas organizadas, disseram as pessoas.

O governo já percebeu que não conseguirá vender cerca de R$ 30 bilhões em ações pertencentes ao BNDES este ano, como esperado anteriormente, disse uma pessoa. Como todas as vendas de participações do Tesouro Nacional em empresas devem seguir as mesmas regras do BNDES, que atua como agente do Tesouro, outras privatizações podem estar em risco, disse outra pessoa. Isso inclui a venda das Centrais Elétricas Brasileiras SA e Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos.

O governo ainda espera que Montezano seja capaz de encontrar uma maneira de apaziguar os ânimos de seus funcionários e realizar as vendas planejadas de ativos, mesmo que em um ritmo mais lento.

Laloni, ex-executivo do UBS e do Goldman Sachs, assumiu como diretor do BNDES após conseguir vender rapidamente ativos de outro banco controlado pelo governo, a Caixa Econômica Federal.

Laloni e o BNDES não quiseram comentar.

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